Um resumo da história da natação brasileira

Quando César Cielo subiu na raia 4 da final dos 50L dos jogos olímpicos de Pequim, bateu no peito, cuspiu de lado, mostrou o número 1 e ganhou o ouro batendo o recorde olímpico, a natação brasileira finalmente atingia o ápice. Porém a saga histórica que permitiu a escalada desse cume começou pelo menos 69 anos antes.

Na escala de valores esportivos, NADA é mais importante que o ouro olímpico. A partir daí os critérios variam de pessoa para pessoa, mas na natação competitiva há certo consenso que em um degrau um pouco inferior nessa escala de valores temos medalha olímpica (prata e bronze), recorde mundial de piscina longa (em prova olímpica) e medalhas em campeonatos mundiais de longa. Todo o restante, aí incluídos “Copas do Mundo”, “Mundiais de curta”, “Recordes Mundiais de Curta”, “Recordes Mundiais de Longa em prova não olímpica”, “Panamericanos”, “Pan-pacifics”, etc, são feitos sem dúvida notáveis mas relativamente menores.

A ascensão da natação brasileira inicia com Maria Lenk. Em 1939, a nadadora carioca de família alemã que havia começado a nadar por problemas de saúde bateu o recorde mundial dos 200m Peito (2:56.90) Ela também bateu o recorde mundial dos 400m Peito com 6:15.80, mas mesmo na época essa não era uma prova olímpica. Lenk se beneficiou do pioneirismo de uma mudança de estilo que daria origem ao nado borboleta, ou seja, nadando borboleta, ela bateu os recordes mundiais de peito, antes que o estilo borboleta fosse regulamentado e separado (isso ocorreu somente em 1952). Infelizmente não houve olimpíadas em 1940 e 1944, e Maria Lenk não pode medir forças com o restante do mundo. Seus recordes mundiais, porém, abriram o longo caminho que percorremos até a glória olímpica máxima do Cielo. Maria Lenk é até hoje a única brasileira a ingressar no Hall of Fame da natação.

Treinando no Yara Clube de Marília, então uma cidade com menos de 30.000 habitantes a cerca de 6h de trem de São Paulo, o nissei Tetsuo Okamoto obteve o bronze olímpico em Helsinque – 1952, nos 1500 Livre com 18:51.3, em um pódio “japonês”, já que o ouro foi de Ford Konno (18:30.3), um nissei americano, e a prata ficou com o japonês Shiro Hashizume (18:41.4). Tetsuo abria assim o panteão de medalhistas olímpicos brasileiros.

O próximo medalhista olímpico brasileiro foi o paulistano Manoel dos Santos Jr, que obteve o bronze em Roma – 1960 na prova dos 100m livre. Durante a final, nos primeiros 50m Manoel estava na frente, mas empolgado com a liderança não viu a borda, acabou errando a virada (virou com a mão), e foi ultrapassado pelos seus adversários Devitt (AUS) e Larson (EUA). Manoel retomou a liderança por volta dos 75m, mas por causa do esforço extra cansou e foi novamente ultrapassado. O resultado final (decidido pelos juízes de chegada) foi ouro para Devitt com 55.2, prata para Larson (55.2) e o bronze para Manoel (55.4). No ano seguinte, mais acostumado com a virada olímpica, pediu três tentativas de Recorde Mundial no Guanabara-RJ, cuja água do mar tornava a piscina supostamente mais veloz. As tentativas foram um sucesso: na segunda delas Manoel obteve o recorde mundial com 53.6, parando de nadar em seguida para trabalhar com o pai. Hoje Manoel tem uma conceituada escola de natação em São Paulo.

Da mesma maneira que Manoel obteve o seu recorde, o também paulistano José Sylvio Fiolo escolheu fazer sua tentativa de recorde mundial de 100m Peito na piscina do Guanabara. Conseguiu, fazendo 1:06.4 em fevereiro de 1968. Como era uma tentativa solo, consta que Fiolo teria solicitado ao seu treinador que paralisasse a tentativa caso ele passasse acima de 30.9 nos primeiros 50m, o que não ocorreu. Seu recorde seria batido por um soviético menos de dois meses depois, e na altitude das Olimpíadas de 1968 – México, Fiolo acabou na quarta colocação (1:08.1). Fiolo ainda melhoraria seu tempo em 1972 – Munique, ficando na quinta colocação (1:06.24).

Depois desses quatro pioneiros, a natação brasileira evoluiu a ponto de ter um revezamento na elite mundial. A primeira medalha olímpica brasileira de revezamento veio em Moscou – 1980, quando o revezamento 4×200 do Brasil composto por Jorge Fernandes, Marcus Matiolli, Cyro Delgado e Djan Madruga obteve o bronze com 7:29.30, em uma sensacional chegada em que o segundo lugar (Alemanha Oriental) e o sétimo (Austrália) ficaram separados por apenas dois segundos. Sem desmerecer a medalha, que afinal está no peito dos quatro citados acima, vale lembrar que o revezamento brasileiro foi beneficiado pelo boicote da equipe americana, que havia vencido essa prova quatro anos antes (Montreal – 1976) com 7:23.22.

No mundial de Guayaquil (Equador) em 1982 o Brasil pela primeira vez atingia o topo do mundo em um mundial. Nascido em Andradina, pequena cidade do interior paulista, e treinando nos Estados Unidos desde os quinze anos, com dezessete anos Ricardo Prado subia na raia 4 da final dos 400 medley para ganhar o ouro e bater o recorde mundial com o tempo de 4:19.78 (assista). Algumas horas antes do extraordinário feito, Ricardo teria dito a seu companheiro de quarto que qualquer resultado diferente de ouro com recorde mundial seria para ele uma decepção! Na olimpíada de Los Angeles – 1984, Prado ainda melhoraria seu tempo para 4:18.45, mas o canadense Alex Baumman faria 4:17.41, levando o ouro olímpico e o recorde mundial, deixando Prado com a prata (assista). Inacreditavelmente, embora fosse essa até então a melhor colocação olímpica de um nadador brasileiro, a mídia nacional tratou a conquista da medalha de prata como se fosse uma decepção, talvez (mas mesmo assim injustificável) um reflexo do próprio sentimento do nadador na ocasião, visivelmente abatido. Com o passar dos anos, Prado faria uma revisão histórica de sua excepcional conquista, passando a tratar a medalha de prata olímpica com o orgulho que ela merece. (maiores detalhes sobre a carreira do Prado aqui).

Em Barcelona – 1992, Gustavo Borges ganharia a sua primeira medalha olímpica, prata nos 100m Livre com 49.43. Uma falha no placar eletrônico (que não registrou a chegada de Borges) colocou-o em oitavo, depois em quinto quarto, mas um recurso interposto pela CBDA forçou os juízes a reverem o filme da prova e anunciarem o resultado oficial mais de dez minutos depois, desta vez com Gustavo em segundo. O ouro ficou com o russo Alexander Popov, com 49.02 (assista).

Em Atlanta – 1996 mais três medalhas olímpicas brasileiras: prata para Gustavo Borges nos 200L (1:48.08) (assista), bronze para Gustavo Borges nos 100m Livre (49.02 – curiosamente o tempo do Popov em Barcelona) (assista) e bronze para o catarinense Fernando Scherer nos 50m Livre (22.29). O fato curioso ocorreu nas eliminatórias do 50L: houve um empate triplo em sétimo e oitavo entre Scherer, Sanchez (VEN) e Ziarsky (GER). Scherer venceu o desempate e ganhou a vaga da final na raia 1, de onde pulou para o bronze olímpico.

Sydney – 2000 reservou ao Brasil um bronze nos 4x100m Livre (assista), com a equipe formada por Fernando Scherer, Gustavo Borges , Carlos Jayme e Edvaldo Valério, nessa ordem. Valério assegurou o bronze em uma chegada emocionante contra os alemães e italianos. Borges ganhava assim sua quarta medalha olímpica, tornando-se (na ocasião) o brasileiro mais olimpicamente medalhado em todos os esportes. Em maio de 2012, Borges se juntaria a Maria Lenk no Hall of Fame da natação.

Finalmente chegamos a Pequim – 2008. Primeiro, os 100m Livre: César Cielo melhora progressivamente seu tempo (eliminatória 48.16, semifinal 48.07) e consegue um surpreendente bronze empatado com o americano Lezak (47.67) (assista). Na saída dessa prova, declara em lágrimas à TV: “agora é buscar o ouro nos 50”. Cielo cumpre a promessa e ganha o ouro dos 50m Livre com o recorde olímpico 21.30 (assista). O Brasil finalmente ganharia seu primeiro ouro olímpico na natação, 68 anos depois da chance que Maria Lenk não teve por causa da olimpíada de 1940 que não aconteceu.

Mas Cielo não parou por aí. No mundial de Roma 2009, Cielo repetiria nos 100m Livre o mesmo feito de Ricardo Prado nos 400m Medley em 1982: ganharia a medalha de ouro com recorde mundial (46.91) (assista). No mesmo mundial Cielo ganharia ainda o ouro nos 50m Livre (21.08) (assista). Aproveitando o último mês em que os maiôs tecnológicos eram permitidos, em dezembro de 2009 Cielo bateria o Recorde Mundial de 50m Livre no Open realizado no Esporte Clube Pinheiros, com o tempo de 20.91 (assista). Fechando a conta, em 2011 Cielo ainda ganhou o Mundial de Xangai nos 50m Livre (assista). Seus recordes mundiais nos 50m Livre (20.91) e 100m Livre (46.91) são ainda vigentes.

Em Londres 2012 a natação brasileira conseguiu mais duas medalhas. A primeira delas com Thiago Pereira, que, depois de 28 anos da conquista do Pradinho em Los Angeles, repetiu a sensacional medalha de prata nos 400m medley. Fazendo um parcial de borboleta e costas um pouco mais tranquilos, Thiago arrancou espetacularmente no nado de peito, saindo de quinto para segundo lugar com 1:08.55 no parcial de peito, fazendo a melhor parcial olímpica de peito de todos os tempos e provavelmente a melhor parcial do mundo de todos os tempos (filme da prova). O detalhe é que Thiago ganhou de Michael Phelps, na única prova das últimas três olimpíadas que Phelps ficou sem medalha. O outra medalha foi de Cesar Cielo, que com o bronze nos 50L garantiu sua terceira medalha olímpica. Quase invicto desde Pequim nessa prova (apenas uma derrota no Pan-Pacific em quatro anos), Cielo (e praticamente o resto do mundo) esperava uma performance dourada, que não aconteceu, e não obstante, a ótima medalha de bronze figura dentre as maiores conquistas da natação brasileira relatadas nesse resumo. Bruno Fratus bateu na trave, ficando a dois centésimos do bronze (veja aqui o filme dessa prova). Cesar e Thiago prometeram em entrevista após as provas tentar mais uma Olimpíada no Rio -2016.

Resumo dos principais feitos da natação brasileira:

1939: Maria Lenk – Recorde Mundial dos 200m Peito.

1952: Tetsuo Okamoto – Bronze Olímpico nos 1500m Livre.

1960: Manoel dos Santos – Bronze Olímpico nos 100m Livre.

1961: Manoel dos Santos – Recorde Mundial nos 100m Livre.

1968: José Sylvio Fiolo – Recorde Mundial nos 100m Peito.

1980: Jorge Fernandes, Marcus Matiolli, Cyro Delgado e Djan Madruga  – Bronze Olímpico no 4x200m Livre.

1982: Ricardo Prado – Campeão Mundial e Recorde Mundial nos 400m Medley.

1984: Ricardo Prado – Prata Olímpica nos 400 Medley.

1992: Gustavo Borges – Prata Olímpica nos 100m Livre.

1996: Gustavo Borges – Prata Olímpica 200m Livre.

1996: Gustavo Borges – Bronze Olímpico 100m Livre.

1996: Fernando Scherer – Bronze Olímpico 50m Livre.

2000: Fernando Scherer, Gustavo Borges , Carlos Jayme e Edvaldo Valério – Bronze Olímpico no 4x100m Livre.

2008: César Cielo – Bronze Olímpico nos 100m Livre.

2008: César Cielo – Ouro Olímpico nos 50m Livre.

2009: César Cielo – Campeão Mundial e Recorde Mundial nos 100m Livre.

2009: César Cielo – Campeão Mundial nos 50m Livre.

2009: César Cielo – Recorde Mundial nos 50m Livre.

2011: César Cielo – Campeão Mundial nos 50m Livre.

2012: Thiago Pereira – Prata Olímpica nos 400m medley.

2012: César Cielo – Bronze Olímpico nos 50m Livre.



CategoriasNatação

Tags:, , , , , , , , , , , , , , , , , ,

36 replies

  1. Ótimo resumo histórico e excelente texto, com umas coisas que eu não sabia e outras que eu tinha esquecido… Essa nossa história (não muito linear do ponto de vista de conquistas) ajuda a entender melhor onde está a natação brasileira hoje e dá alguma esperanças de ainda mais medalhas em breve… ou será que é querer demais? Espero que não.

    • Cielo nos 50L tem muita chance. Além disso vejo boas chances em Cielo (100L), Bruno Fratus (50L), Felipe França (100P), Leo de Deus (200B) e Thiago Pereira (200M). Tem gente que aposta até no 4x100M.

      • Temos o Marcelo treinando em Auburn que vem muito rápido também, assim como o Cesar, vem se destacando muito nos meeting em jardas. Com certeza teremos um muito bom revezamento para o Rio 2016.

      • Verdade, jbarau, os dois revezamentos tem muito potencial, mas é preciso que a seleção volte a ser um TIME, correto?

  2. Turminha boa.
    Acho que o Manoel dos Santos me apresentou o Tsuo, tb me lembro da Maria Lenke e ainda nadei resesa com o Pradinho.
    Diz ai my friend “sou peba”?
    Fralda

  3. E o Romulo, porque vc não escreveu sobre ele?

  4. Brilhante Cordani ;Isso mesmo ,porem a NATAÇÃO BRASILEIRA ,NÃO SÃO SÓ ALGUMS RESULTADOS EXPRESSIVOS OU ALGUMAS MEDALHAS OLÍMPICAS E SIM TODOS OS RESULTADOS PARA O BRASIL DE NADADORAS E NADADORES EM PARTICIPAÇÕES OFICIAIS COM A CAMISA DA SELEÇÃO BRASILEIRA E EM TODAS AS CATEGORIAS ,AO LONGO DE QUASE 100 ANOS DE PARTICIPAÇÕES OFICIAIS. E FOI ISSO QUE ME FEZ CRIAR AQUI NO FACEBOOK O GRUPO “ABUM DAS GERAÇÕES DA NATAÇÃO BRASILEIRA” , FAZENDO ASSIM UM POUCO DESTE JUSTO RESGATE /.UM ABRAÇO

    • Caro Alonso, você tem toda a razão. O seu (nosso) grupo no Facebook mostra isso. E este blog pretende resgatar parte desta história oculta através de alguns nadadores que passaram longe das medalhas olímpicas. Acompanhe o blog e verás. Grande abraço.

  5. Parabens Renato! Bela iniciativa de resgatar os grandes nomes da natação nacional. É uma leitura leve e interessante.
    Um abraço,
    Glauco

  6. Cordani, muito boa a resenha e dá uma ótima ideia do panorama da natação nacional. Porém, conforme a própria matéria cujo link você colocou, a primeira revisão do Gustavo em Barcelona o colocou em 4o., empatado com Biondi. Na verdade, por uma incrível sucessão de erros, eles analisaram justamente a raia de Biondi na primeira vez. Ponto para o incansável Coaracy Nunes, que insistiu em passar o vídeo novamente e o resto é história…
    Abraço.

  7. nao gostei muito das olimpitas de landres

  8. eu quero um resumo , nao um texto

  9. vc saão uns ingratos não sabem fazer uma porrinha de resumo isso não e um resumo isso e um livro!!!!!!!!!!!!!!

  10. Esse texto é realmente muito bom, não é a toa que as pessoas não param de ler.
    Os links são geniais. Acabei de rever o recorde mundial do Cielo na piscina do Pinheiros e me arrepiei novamente.

    • Realmente eu me impressiono com a quantidade de pessoas que lê esse texto, todos os dias, mais de um ano depois da publicação. Acho que apesar de não conter nada de novo, preencheu uma lacuna, né?

      • Sim, preencheu uma lacuna.
        Deveria ter um link pra ele na homepage da CBDA.
        Agora, será que os leitores vem somente pelo título ou por recomendação?

Trackbacks

  1. Esse bronze vale ouro? | Epichurus
  2. Oito razões para acreditar em uma medalha de ouro logo mais para Cesar Cielo. | Epichurus
  3. A zica do tri-olímpico. | Epichurus
  4. Epichurus
  5. Desafio ou Raia sem Saída? | Epichurus
  6. Retrospectiva de um ano de Epichurus | Epichurus
  7. 400 Medley e o Masoquista « Epichurus
  8. Até 2014. « Epichurus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 109 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: