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Natação e cia…

As olimpíadas vistas da arquibancada

Esperamos em algum momento ouvir o relato completo do Amendoim, que está neste momento passando pela fantástica experiência de participar de uma olimpíada como membro da comissão técnica da natação. Enquanto isso não acontece, posso ir adiantando um pouco da minha experiência olímpica como espectador

1. Abertura

Viemos (eu e um amigo, o Guilherme) para Londres sem ingresso para a cerimônia de abertura, mas dispostos a assistir o evento num dos diversos telões que a organização espalhou pelos parques da cidade. Todos, exceto um deles, exigiam uma reserva prévia on-line e não havia mais nenhum lugar disponível. A saída foi ir para o Victoria Park e tentar entrar sem reserva prévia. Apesar de chegarmos com mais de 1 hora de antecedência, encontramos uma fila gigantesca e tivemos que abandonar a ideia – não entraríamos nunca a tempo de ver alguma coisa. Fomos para um bar que fica quase dentro do parque e conseguimos uma mesa que ficava de frente para um telão.
Assistir a abertura num bar ao ar livre em Londres foi espetacular. 20 min antes do início da abertura, não havia mais nenhum espaço disponível no bar. O clima foi de festa do início ao fim e tive a impressão de que todas as nacionalidades estavam representadas no bar. O único país vaiado foi a França, os ingleses deliraram com a montagem da rainha saltando de paraquedas do helicóptero e o pub veio abaixo quando a delegação britânica entrou no estádio. Impressionante também como o remador que carregou a tocha é um ídolo por aqui. Muita gente chorando com a imagem dele entrando no estádio.

2. Judô

No dia seguinte à abertura, fui ao meu primeiro evento esportivo, as finais do judô. Depois de pedalar por quase 50min do hotel ao ginásio, estacionamos as bicicletas e, em menos de 10min, estávamos sentados nos nossos lugares. Muito mais rápido e organizado do que Beijing. Na China, eu levava em média 1 hora na fila para o detector de metais. Já em Londres, o controle é similar ao dos aeroportos, não é permitida a entrada com líquidos e as bolsas são frequentemente revistadas, mas tudo é muito mais rápido . Quase ficamos sem o kit de ferramentas das bicicletas, por conta das pontas. Em compensação, é possível comprar bebida vendida em garrafas de vidro e alguns souvenirs (como bandeiras) têm pontas.
O dojô é espetacular. Todas as cadeiras ficam relativamente próximas da área de luta, então é possível ver e ouvir os atletas de perto. Os técnicos também dão um show à parte (particularmente o técnico cubano) e a torcida tem feito muito barulho.
O primeiro dia de judô é conhecido de todos. Sarah Menezes emocionou toda a torcida brasileira com a medalha de ouro. Felipe Kitadai, na sequência, faturou um bronze que corou a melhor estreia brasileira numa olimpíada. O 2º e o 3º dia de competições foram mais difíceis para o Brasil, sendo o terceiro dia o mais dramático.
Rafaela foi desclassificada por ter entrado um golpe que não é permitido em competições há apenas 3 anos. Independentemente da desclassificação ter sido adequada ou não, é fato que o ginásio inteiro se solidarizou com a brasileira. O comentário geral ao meu redor era “que pena, não merecia”.
O Japão, que vinha mal nos 2 primeiros dias, compensou hoje com uma medalha de ouro e outra de prata. Interessante como o comportamento dos atletas dos diferentes países é diferente. Na sua maioria, os lutadores orientais passavam a competição inteira sem sorrir ou comemorar vitórias nas fases preliminares. A comemoração fica mesmo só para as lutas finais, no período da tarde. O extremo foi a lutadora da Coréia do Norte, que só mostrou alguma emoção após conquistar a medalha de ouro contra a lutadora cubana. No caso dessa lutadora, o peso que ela deve ter tirado dos ombros deve ser enorme – dada a situação em seu país.

3. Natação

Do ginásio do judô até a piscina no Parque Olímpico são 25min pedalando. Provavelmente mais rápido do que o metrô. Lá, o problema é o estacionamento das bicicletas, que fica a uns 30min a pé da piscina. Mas vale a caminhada. É a piscina mais bonita que eu já vi.
O problema é a arquibancada, que é enorme e muito vertical. Na natação, diferentemente do judô, assisto as provas desde muito longe, não dá para ver o rosto de nenhum atleta.
A competição é espetacular. Já no primeiro dia, o Brasil foi ao pódio com o Thiago nos 400m medley, com um final de prova eletrizante.
Vimos também a chinesa levar o ouro nos 400m medley e, de quebra, bater o recorde mundial. A última parcial de crawl foi inacreditável, alguém comentou que os últimos 50m foram melhores do que na final masculina. Só à noite, já no hotel, fiquei sabendo que ela tem apenas 16 anos. Hoje (31jul), ela ganhou também os 200m medley em meio a dúvidas e discussões sobre doping. Quando questionado sobre a possibilidade da atleta ter usado doping, uma vez que seus resultados são extraordinários, um membro da delegação chinesa devolveu a insinuação com outra pergunta: e os resultados do Phelps, também não são espetaculares?
Por falar em Phelps, só hoje ele faturou seu primeiro ouro. Demorou e acho que foi um alívio para ele. Perder a medalha de ouro nos 200m borboleta, que é sua principal prova, não devia estar no roteiro – principalmente depois da sensacional final dos 4x100m livre, a prova mais emocionante da competição até o momento. A prata dos EUA também foi uma zebra.
O desempenho do Brasil pode ser comentado com mais propriedade pelo Amendoim, que está acompanhando a competição do lado dos atletas. Mas exceto alguns casos isolados, a impressão é de que a performance brasileira está um pouco aquém do esperado. Vale ressaltar a boa prova do T. Cerdeira nos 200m peito, que melhorou seu tempo e por muito pouco não entrou na final.
Merece destaque também a raça da jamaicana dos 100m peito, que empatou em 8º nas semi-finais e teve que nadar de novo com a adversária ao final da competição. Caiu de novo na água, confirmou que era ela quem ia nadar a final com um tempo melhor do que o da prova anterior e, nas finais, ainda ficou em 4º lugar. Passei pela mesma situação num Troféu Brasil em BH e tive que nadar pelo desempate com o Negrini – entrei para a final, mas não foi a coisa mais agradável do mundo para nenhum dos dois.
Durante as finais de hoje, fui filmado mais de 5 vezes. Recebi diversas mensagens do Brasil de gente que estava me vendo pela televisão. Numa das vezes em que fui filmado, estava em pé e o Amendoim me viu pelo placar eletrônico. Com isso, ficou sabendo onde eu estava e veio assistir com a gente as últimas 3 provas do dia, incluindo o revezamento 4×200 livre. Boa Minduba!
Hoje fui também ao jogo do Brasil x Rússia no vôlei, que acabou em 3×0 para o Brasil. O jogo foi relativamete tranquilo para o Brasil, com um terceiro set mais emocionante e apertado. Impressionante a quantidade de brasileiros no estádio. Uma pessoa da agência de turismo responsável pela venda de ingressos para brasileiros disse que a agência vendeu 30.000 ingressos para brasileiros. Parecia muito, mas hoje esse número me pareceu um pouco mais crível.

Para não perder o costume, segue abaixo uma pequena lista de HL e LL (highlights e “lowlights”) destes primeiros dias de Olimpíadas.

Highlights:
– Organização e simpatia dos colaboradores do evento;
– Tempo dos 5 primeiros dias, com chuva apenas no domingo
– Pub colado no parque para assistir a abertura sem o perrengue do telão do parque (a Av Paulista de Londres)
– Prata do Phelps
– Prata do Phelps de novo, desta vez nos 200m borboleta e sua cara de nádegas
– Ouro do Phelps no reveza, para entrar de novo para a história
– Prata do Thiago
– Ouro da Sarah Menezes e bronze do Kitadai
– Medalha quebrada do Kitadai
– Ippon da japonesa sobre a holandesa na semi-final a 2s do encerramento da luta
– Semi-final judô -81kg com encarada do alemão Oleg Bishoff no americano, que precisou ser apartada pelo juiz
– espírito esportivo da torcida
– visita do Amendoim à arquibancada de torcedores

Lowlights:
– Torcida japonesa, que sai e volta ao seu lugar, no mínimo, 5 vezes durante qualquer evento esportivo. A fila inteira tem que levantar para alguém sair porque os bancos são retráteis e as fileiras muito próximas
– restaurante grego na saída do Olympic Park, que só servia pratos à base de carne de vaca, frango ou carne de porco e, ontem à noite, estava sem carne de vaca, frango e carne de porco no jantar (?!)
– torcedores com fantasias ridículas que atrapalham a plateia. Menção honrosa à torcida brasileira, que adora andar enrolada numa bandeira com peruca verde e amarela, ainda que jantando no centro de Londres antes da abertura das olimpíadas. Japoneses de quimono de gueixa também entram aqui
– WiFi dos ginásios, que não funciona

5 comentários em “As olimpíadas vistas da arquibancada

  1. Marina Cordani
    1 de agosto de 2012

    Puxa, deu muita inveja de estar em Londres também!

  2. Anônimo
    1 de agosto de 2012

    Muito legal, retrata muito bem o que está sendo esta olimpíada. Altíssimo nível técnico e organização, e pra não perder o costume um monte de presepada na torcida…

  3. rcordani
    1 de agosto de 2012

    Sensacional Minguez. Tira uma foto com a camiseta PEBA e manda pra mim que eu incluo no post. Aproveita aí.

  4. Lelo Menezes
    1 de agosto de 2012

    Excelente Minguez! Pra 2016 acho que da pra comprar a passagem pro Rio e assistir!

  5. Pingback: Retrospectiva de um ano de Epichurus | Epichurus

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Publicado em 1 de agosto de 2012 por em Olimpíadas.
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