Epichurus

Natação e cia…

MIDAS, EU?

Sabe quando chega uma daquelas marés em que tudo dá certo?

O retorno a Curitiba depois das medalhas e do título brasileiro em Porto Alegre foi animado. Era antevéspera do Natal. Na reunião em família, muita celebração. O retorno aos treinos em seguida, com vistas ao Troféu Brasil que aconteceria em poucas semanas. No clube, faixa de homenagem, o reconhecimento dos colegas de outras categorias e reportagem para o Globo Esporte.

No primeiro fim de semana após o Reveillon de 1987, outro desafio: o vestibular da Federal. Dois dias antes do início das provas ia entrando no quarto dos meus pais e ouvi minha mãe conversando com minha madrinha pelo telefone: “… ele se dedicou tanto a natação que nem estamos cobrando nada…” – a declaração me surpreendeu, entendia que a aprovação era uma grande responsabilidade. A posição da minha mãe, sem saber que eu estava ouvindo, passou uma tranquilidade a mais para encarar as provas. Estava tão acostumado aos desafios na natação que o vestibular surgiu apenas como mais um grande teste. Tanto que minha família foi para a praia, acordei sozinho no domingo, apesar de não habilitado – coisas de outras épocas – fui dirigindo o Chevette azul da família até o local de provas. Durante os quatro dias, várias incertezas, mas em 19 de janeiro, no ônibus expresso a caminho do treino, ouvi meu nome entre os aprovados do curso de Engenharia Química. Passei em 9º lugar. No clube, meus colegas de equipe cortaram meu cabelo no estilo “frade”, corrigido a tarde pela máquina 1 do barbeiro.

Passagem engraçada foi que o LAM foi com o Rogério Gomes, costista catarinense que morava em Curitiba para cursar medicina na PUC, e hoje é um grande cirurgião plástico, até o prédio da reitoria da UFPR para ver o resultado. Diante das listas, Rogério vira para o LAM e dispara: “NENHUM DOS DOIS?!?!” – e o LAM, inalterado, “como assim? Os dois…” – apontando nossos nomes nas listas das Engenharias Mecânica e Química. Rogério havia procurado nas listas invertidas. “E agora vamos embora antes que me peguem para o trote”. No clube, LAM tentou resistir, mas foi vitimado com um corte estilo “Alf, o ETeimoso”.

Nesse intervalo entre as provas e o resultado do vestibular, saiu a convocação da CBN – Confederação Brasileira de Natação – para o Campeonato Sulamericano Juvenil em Maldonado, no Uruguai. Pela primeira vez, fui chamado para representar a Seleção Brasileira.

Não me recordo o porquê, mas no dia da convocação fui treinar mais tarde, quando toda a equipe já havia ido embora. Não havia telefone celular e estava combinado que meu técnico, Léo, deixaria o treino no quadro negro. Quando cheguei não tinha ninguém na piscina, mas estava lá, no cantinho superior esquerdo, em giz branco: MAGA, VOCÊ FOI CONVOCADO PARA O “SULA”. Sorri e com o peito cheio de orgulho e satisfação caí para treinar.

GP - convocação sulamericano

 

No mesmo período, alguns dias depois, outro chamado do Rio de Janeiro. Fui convidado a integrar o Projeto Mesbla de Natação – programa de patrocínio da famosa loja de departamentos, que investia no desenvolvimento da natação brasileira. Mais um sonho realizado: depois de 8 anos de dedicação a natação, começaria a ter um retorno financeiro e se abriam novas perspectivas para aquela grande relação de amor com o esporte.

1a página do contrato de patrocínio

1a página do contrato de patrocínio

O período entre o brasileiro juvenil em Porto Alegre e o Troféu Brasil em Belo Horizonte foi de 5 semanas. E diante de tantas coisas boas acontecendo, eu me sentia com o toque de Midas nas mãos.

Forte abraço,

Fernando Magalhães

Sobre Fernando Cunha Magalhães

Foi bi-campeão dos 50m livre no Troféu Brasil (87 e 89). Recordista brasileiro absoluto dos 100m livre e recordista sulamericano absoluto dos 4x100m livre. Competiu pelo Clube Curitibano (78 a 90) e pelo Pinheiros/SP (91 a 95). Defendeu o Brasil em duas Copas Latinas. Foi recordista sulamericano master. É conselheiro do Clube Curitibano.

8 comentários em “MIDAS, EU?

  1. Lelo Menezes
    20 de julho de 2015

    Boa Esmaga. Meu sonho era ser patrocinado pela Kibon, mas fazer parte do Projeto Mesbla não seria nada mal também. Infelizmente não consegui nem um, nem outro…

    … e a primeira seleção brasileira a gente nunca esquece. A minha seria para o próximo “SULA” em Rosário 1989. Foi o Cidão, técnico do Munhoz que me contou, mas não acreditei. Achei que era “achometro” dele. Só sosseguei quando o William finalmente oficializou, no ônibus, na volta a SP do TB de 1989.

    • Fernando Cunha Magalhães
      20 de julho de 2015

      Valeu Lelo,
      que bom que rolou um EXTRA e aquela página inteira no jornal.
      Sobre o anúncio do William, lembro bem do seu post que descreveu a história em detalhes.
      Festa no bumba!

  2. Renato Ramalho
    21 de julho de 2015

    Legal Maga… lembro bem desta fase..fiz parte da raspagem no cabelo! O que me impressionou sobre o seu vestibular… foi que vc se recusou a fazer PUC, pois caia na mesma data de um Trofeu Brasil. Assim vc sabia que tinha apenas um tiro p dar. E foi certeiro. Federal na cabeça… parabéns !!!

    • Fernando Cunha Magalhães
      22 de julho de 2015

      Valeu Renato!!!
      O saudoso Renato Schawnke, se inscreveu, e voltou de Belo Horizonte para Curitiba depois de classificar nas eliminatórias dos 50m livre e sem nadar a final. Já imaginou se eu tivesse feito isso???

  3. Luiz Alfredo Mäder
    25 de julho de 2015

    enquanto a Maninha estava tranquila a D. Helma ficou preocupada… o autor esteve lá em casa e se declarou preocupado com meu método de estudos para o vestiba…

    • Fernando Cunha Magalhães
      26 de julho de 2015

      Pudera, LAM entrou em férias dia 15 de novembro no Medianeira e relaxou até uma semana antes das provas.
      Sorte que na véspera foi lá em casa aprender sobre radiotividade e acertou duas questões que não fosse aquela visita de uma hora, nem saberia do que se tratava, já que o conteúdo não havia sido abordado em sua escola.

  4. rcordani
    26 de julho de 2015

    Legal Esmaga. Essa sensação de toque de Midas deve ser sensacional e tem que ser aproveitada, pois passa rápido…

    Meu vestibular foi um ano depois, em circunstâncias parecidas. Treino de manhã, vestibular de tarde e treino depois. Meu pai até perguntou “escuta, em época de vestibular não dá para excepcionalmente treinar menos?”. Resposta: ” não”.

    Ainda bem que passei…

    • Fernando Cunha Magalhães
      26 de julho de 2015

      Rsrs… imagino a expressão inalterada do Umberto: “… bom, pelo menos tentei, mas segue em frente meu filho”.

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Publicado às 20 de julho de 2015 por em Natação, Vestibular e marcado , , , .
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