Epichurus

Natação e cia…

Goiabas de Epicuro. O zen na piscina.

Os Pebas agradecem as goiabeiras do Clube Paineiras

Os Pebas agradecem as goiabeiras do Clube Paineiras

As palmeiras jerivá já morreram e sumiram, mas as goiabeiras (Psidium guajava) continuam lá, fortes, ao lado da piscina “de cima” do Paineiras. Nem notei quando floresceram, no fim do verão, provavelmente.  Acho que até se beneficiaram com um pouco mais de sol direto e menos competição pelos nutrientes do solo, pois neste ano nos presentearam tardiamente com boas goiabas – amarelas por fora, vermelhas e doces por dentro.

Faz uns dias, estavam os PEBAS fazendo mais um daqueles treinos que não servem pra nada (TQNSPN) na hora do almoço de sexta e já começávamos a sentir os efeitos da fome… Acho que foi depois de mais uma super original série de 8×100 liv dd 1’40, que notamos um dos funcionários da manutenção do clube mexendo na goiabeira. Paramos, como bons epicuristas, e começamos a observar a atividade. Foi aí que o cara – generoso, ou comovido pela cara de fome dos tios na piscina – nos arremessou umas goiabas. Comemos ainda dentro da água, garantindo nosso energético e vitamina C natural do treino. Absolutamente sensacional! Terminei o treino até mais feliz e comentei aquilo mais tarde como um dos highlights do dia.

Almanaque_Chico_Bento_Globo_001[1]A presença de goiabas na alimentação dos treinos do meio-dia passou a ser frequente. Vão me chamar de bauruíba por essa, mas passei a pegar as goiabas direto do pé, subindo na grade, feito um Chico Bento paulistano. Parei o treino mais de uma vez para comer uma que identificava num intervalo, antes que outro nadador ou um passarinho mais esperto o fizesse.  Os frutos ficaram ainda mais maduros e doces. Alguns bichos apareceram, e desconfio que até um “meio-bicho” tenha surgido- para terror do Miyahara, mas ainda assim valeu a pena. Eu não lembrava de ter comido goiabas no pé desde muito tempo.

Como é que eu não notei essas goiabeiras ali antes, tendo frequentado essa piscina por mais de uma década? Um cara mais ranzinza poderá dizer que eu não estava alerta. Terei que concordar, pelo menos em parte, pois sou uma pessoa que entra facilmente na rotina da cidade e o eventual automatismo acaba nos anestesiando um pouco. Mas as crianças que estão crescendo (fizeram 4 anos na semana passada) estão me deixando mais esperto para as mudanças na natureza. Em adição a isso, há um fato novo: Comecei a pensar mais sobre o que me levou e ainda me leva a nadar e o que me dá prazer.  Até mesmo ler e escrever no Epichurus é algo que acaba me deixando mais atento aos “jardins” que nos cercam.

Outra: O Alain de Botton (um dos inspiradores para o nome deste blog) esteve outro dia em São Paulo para inaugurar uma filial da “The School of Life“. Numa entrevista ele contou que conhecia a reputação de hedonista do brasileiro, mas pareceu surpreso em descobrir uma “nação de pensadores socráticos”. Eu, sendo brasileiro e não querendo vender nenhum curso de filosofia/auto-ajuda para ricos paulistanos, não iria tão longe, mas espero honestamente que ele tenha razão, ou que ao menos estejamos no caminho certo. Eu pretendo fazer minha parte, ainda que disfarçadamente, escrevendo  textos esquisitos como este, para um blog “de natação”.

... e até o ano que vem...

… e até o ano que vem…

Agora as goiabas já estão escassas e começam a sumir. Hoje, em mais um TQNSPN (2000m novamente) solo, sob a chuvinha chata dessas águas de março que chegaram em abril notei que a maioria dos frutos já desapareceu. Há muitos caídos no jardim e no deck da piscina, atrás da espreguiçadeiras. Algumas poucas goiabas amarelas ainda estão altas no pé mais parrudo, mas desconfio que já estejam todas bicadas pelos sabiás e periquitos que fazem a festa ali todo dia. Tudo bem, só espero vê-las novamente no ano que vem. Vou ficar mais alerta.

Um homem, excursionando através dos campos encontrou um tigre. Fugindo rapidamente, com o tigre em seu encalço ele chega a beira um precipício, de onde salta, se agarrando por fim aos cipós de um arbusto. Acima dele, o tigre continua farejando-o e no fundo do precipício o homem, trêmulo, nota que outro tigre está aguardando sua queda, para devorá-lo. Apenas os cipós o sustentam.

Dois ratos, um preto e um branco começam a roer lentamente os cipós. Então, o homem percebe um lindo morango maduro, não muito longe. Segurando os cipós com apenas uma mão, ele se estica e colhe o morango, colocando-o logo na boca.  E como era doce!

Koan Budista

Sobre Rodrigo M. Munhoz

Abrace o Caos... http://abraceocaosdesp.wordpress.com

21 comentários em “Goiabas de Epicuro. O zen na piscina.

  1. rcordani
    15 de abril de 2013

    Gostei do Koan Budista, eu conhecia uma versão com jabuticaba ao invés de morango.

    As goiabas não estavam presentes quando treinei ali entre 1977 e 1989, o que tinha muito era abelha e libélula, que hoje não tem mais.

    Ignorante, eu não sei o que o Bottom quis dizer com “Brasil, país de pensadores Socráticos”, poderia explicar?

    • Rodrigo Munhoz
      15 de abril de 2013

      Oi Renato!
      O koan é usado como um instrumento de ensino para iniciantes ou praticantes do budismo e usa discussão para aprofundar o conhecimento dos estudantes. Ou seja, qualquer fruta serve no exemplo:-) … Assim como os budistas, o Sócrates, encorajava um método para animar e aprofundar as discussões em torno de um tema. Ele grandemente influenciou os filósofos ocidentais e o estudo da ética e da razão. Espero que seja a isso que o AdB se referiu!

      Quanto a não existência das goiabeiras do CPM nos anos 80, se fosse qualquer outra pessoa menos alerta, eu trucaria, dizendo “você tem certeza?”… Mas ainda assim acho doido não ter notado essas arvores até recentemente. Abraços !

      • rcordani
        15 de abril de 2013

        Achei o texto que eu conhecia: aqui.

        Interessante que eu pensei que o texto era do dono do site, agora vejo que ele mencionou que era uma fábula.

  2. Marina Cordani
    15 de abril de 2013

    Os treinos que não servem para nada não começam com P? PQNSPN? No texto está com T. T de quê? Sobre as goiabas, também nunca vi! Só me lembro de uma lanchonete que havia ali do lado, de onde pedi um hamburguer e uma água no meio do maior treino da minha (11.500mts), antes da época das garrafinhas e suplementos.

  3. Rodrigo M. Munhoz
    15 de abril de 2013

    Oi Marina!
    O ” T” é de “Treino” que não serve pra nada :-)… Mas já que vc mencionou isso, me questiono… será o treino tem que servir pra algo ou pode ser um fim em si?
    A lanchonete do canto da piscina foi reinaugurada, agora menor, e visa servir o snooker ao lado e ao boliche (sim, boliche! total anos 80!) no andar de cima daquele predinho ao lado…
    Hoje você poderia pedir um Gatorade gelado facilmente no meio do treinão. Se bem que um treino de 11K hoje seria quase impensável. Beijo!

  4. Miyahara
    15 de abril de 2013

    Carb-Up? Way Protein? que nada… bicho de goiaba!

    “Andrew Zimmern” que ia gostar!

    • Rodrigo M. Munhoz
      15 de abril de 2013

      Oi Miyahara!
      Pensei que você poderia comentar dos ratos preto e branco roendo os cipós… mas vejo que os bichos de goiaba deixaram sua marca he he eh… Eu gosto do Bizarre Foods do Andrew Zimmern nem tanto pelas comidas mais estranhas, mas pela diversidade de culturas e locais que o cara mostra, usando o ponto de vista de um comensal… “If it looks good, eat it!” Abraços!

  5. Mauricio NIwa
    15 de abril de 2013

    Texto por texto, achei este o melhor de todos que li até o momento por aqui.
    Munhoz, você diria que a felicidade é uma questão de percepção?
    Obrigado pelo texto. Melhorou meu dia.
    Abraço.

    • Rodrigo M. Munhoz
      15 de abril de 2013

      Opa! Fico lisonjeado, Niwa!
      Não vou me atrever a discorrer muito sobre “felicidade” agora… um porque é um tema muito vasto (é um tópicos sobre que mais se escreve hoje em dia e gente muito mais competente que eu tem falhado miseravelmente) e dois porque quero escrever um post sobre isso no futuro, quando estruturar melhor alguns pensamentos sobre o tema.
      Isso posto, e conectando com o tema dos “morangos” no post de hoje, quero lembrar que a felicidade me parece frequentemente: a. Algo fugidio b. Algo que requer esforço para alcançar, muitas vezes oferecendo algum risco c. Algo que está próximo, mas nem sempre notamos. Talvez a “percepção” mais importante relacionada com a felicidade, seja a auto-percepção (self awareness?). E ainda arrisco a dizer que por não investirmos mais tempo em auto análise, perdemos algumas boas oportunidades de apreciar morangos e goiabas que o precipício nos oferece. Viajei?
      Grande abraço!

      • Mauricio Niwa
        15 de abril de 2013

        Acho que não viajou não, Munhoz. E tem mais: todo mundo que ousar definir felicidade estará fadado a “falhar miseravelmente”. Porém, a graça é especular mesmo.
        Mais uma vez, parabéns pelo texto.
        Abraço!

  6. Lelo Menezes
    15 de abril de 2013

    Boa Munhoz! Gostei do filosofico texto e sensacional esse Koan Budista. No primeiro mundo, nossas “goiabas” eram os baldes de gatorade que ficavam ao lado da piscina. A sensacao de terminar a serie, sair exausto da piscina e tomar um litro de gatorade gelado era indescritivel!

    • Rodrigo M. Munhoz
      15 de abril de 2013

      Fala Lelo!
      Acho que em cada “mundo” que transitamos deve ter uma goiaba diferente. Tem que ficar atento para o que nos é oferecido.
      Alerta, como nos pede um mas tranquilo, como diz o outro. Senão, a gente pira 🙂
      Abratz!

  7. Fernando Cunha Magalhães
    15 de abril de 2013

    Munhoz,
    como não sou especialista e você entrou por essa seara pergunto-lhe se há semelhança entre o Koan citado e uma piada que ouvi anos atrás:
    Entusiasmada com seu primeiro vôo a velhinha chama a comissária e diz que gostaria de conhecer a cabine. A aeromoça não consegue negar e conduz a senhorinha ao encontro do comandante. Ela ouve atentamente as explicações quando abruptamente uma pane geral acontece. Os comandos não respondem. O piloto experiente, mantém a serenidade, lança mão de todos os recursos possíveis e nada. A tensão domina o ambiente. O avião segue um vôo suave, direto na direção de uma montanha. Sem nenhum outro recurso o comandante grita: “Vamo se f.!” – e a velhinha sorridente e entusiasmada: “Será que dá tempo?!”

    Identifiquei tigre, rato, morango e hedonismo. E vc?

    • Rodrigo M. Munhoz
      15 de abril de 2013

      Boa Esmaga!
      Na sua piada transformada em parábola, o avião me parece o tempo, a aeromoça é o nascimento, o piloto é a ciência/engenhosidade, a montanha é a morte, a piada é o equilíbrio instável… e a velhinha é sem vergonha mesmo… Ou simplesmente a velhinha é quem está mais preparada para largar dos cipós com graça e garbo :-).
      Lembrando que o humor em situações difíceis é um fruto bem raro, mas não impossível.
      Abração!

      • Fernando Cunha Magalhães
        15 de abril de 2013

        Munhoz,
        vamos agora às lembranças das goiabas:

        1. Meu pai plantou uma goiabeira no quintal de casa quando eu era pequeno. Por alguns anos esperamos a primeira florada e quando aconteceu veio uma única flor. Nos churrascos de domingo acompanhamos as pétalas caindo e o fruto se formando. Minha mãe costurou um saquinho e a protegemos dos insetos. Ela cresceu, cresceu, arrebentou o saco e a colhemos. Ao contrário das suas, era branca e estava deliciosa. No ano seguinte foram centenas ou milhares de flores. Aí era impossível cuidar da mesma forma dos frutos e a maioria era devorada pelas majestades, os sabiás ou vinham muito bichadas. Mesmo assim cuidei muito da árvore. Subi várias vezes, podava anualmente e desfrutávamos da sua sombra;

        2. Estava na 7a série do 1o grau e numa aula de redação de tema livre escrevi “O testamento de uma goiaba”. Escrevi inspirado pelas experiências vividas no quintal de casa e tirei o único 10 de que me lembro em minha história de redações.

        3. Ainda pré-adolescente era muito raro ver pichações nas ruas de Curitiba. Quando aparecia já ficava bravo pensando porque aquelas pessoas gostavam de “enfeiar” a cidade e estragar o patrimônio alheio. Há duas quadras de casa, porém, no muro ao lado de uma peixaria havia uma que me fazia sorrir: “Beti Goiaba – mania de você”. Nunca soube quem era a Beti, nem quem pixou, mas todas as vezes que passava por ali pensava naquela relação, nas ,motivações, se deu certo ou não e óbvio, como era a Beti.

        4. Hoje no caminho de casa parei na Panevitta. Além dos pães e mussarela coloquei na cestinha uns biscoitos amanteigados com goiabada que estão sensacionais.

        Abraços e boa noite a vocês, aos leitores epichureanos e a velhinha.

      • Rodrigo M. Munhoz
        16 de abril de 2013

        Como sempre, lindas memorias, Esmaga…sera que vc ainda tem a redacao “otestamento de uma goiaba” ..? fiquei curioso. Plantar uma arvore, escrever um livro, ter um filho… E vamos que vamos!

  8. ANTONIO CARLOS ORSELLI
    15 de abril de 2013

    Altíssimo nível. O texto, e, principalmente, os comentários e intervenções do Munhoz.
    Parabéns e grande abraço pra todos.

    • Rodrigo M. Munhoz
      15 de abril de 2013

      Obrigado, Orselli! Como já disseram por aqui, o melhor deste blog é interagir com a audiência e partilhar um pouco as histórias. Um grande abraço!.

  9. Luiz Alfredo Mader
    20 de abril de 2013

    Lendo, mais que tardiamente, esta estória romântica, lembrei-me de algum ensinamento cristão parecido com isso: “Deus dá aquilo de que mais precisamos quando mais precisamos”
    De fato, apesar da pouca fé de alguns, Deus nos deu o mais precisávamos, no momento em que mais precisávamos, nas Ilhas do Sahy.
    Foi no tempo em que era difícil, mas não impossível, largar as namoradas na praia e ir nadando com os amigos epicuristas até aquelas ilhas. Com um sol de rachar côco e as axilas assadas pela água salgada, Munhoz encontrou um tubo de Hipoglós na areia …

    • Rodrigo M. Munhoz
      21 de abril de 2013

      Interessante (apesar do delay) a memória LAM! Foram muitas nadadas de ida e volta as Ilhas do Sahy no decorrer dos anos. Ainda sonho com elas de vez e, quando, acredite. Os mais céticos dirão que o Hiploglos foi do acaso, outros que foi obra de mentes atentas e outros ainda celebrarão o presente divino. Não tenho problemas com nenhuma dessas interpretações, nem mesmo uma combinação delas. O que importa é nadar até as Ilhas e voltar com os amigos.
      Abraços !

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Publicado às 15 de abril de 2013 por em "Causos" fora d'agua, Epicuro, Natação e marcado , , , , , .
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