Epichurus

Natação e cia…

Mutatis mutandis e porque não abandonei a natação

Junto com a alegria das festas de final de ano sempre vem um sentimento de nostalgia. Seja por ser fim de um ciclo, ou frente à preparação para novos desafios, este é um período que me faz pensar nas experiências que tive e as escolhas que fiz ao longo da vida. E inevitavelmente muitas delas têm a ver com a natação.  

Se você está lendo este texto, é bem provável que a natação tenha ocupado – ou ainda ocupe – um espaço importante do seu tempo, seja como hobby, atividade física, ou profissão. Em algum momento, porém, você deve ter percebido que não seria campeão olímpico, ou tampouco chegaria perto. E por isso talvez precisasse encontrar outras formas de se motivar para continuar envolvido com o esporte.

No meu caso, essa consciência aconteceu na metade do ensino médio, em 1991. No ano anterior havia experimentado uma melhora significativa nadando federado pela primeira vez. Apesar de ter começado relativamente tarde no esporte, logo pegaria índice para o paulista e nadaria meu primeiro – e único – Delamare. Tais realizações teriam sido impensáveis até a temporada anterior. Mas depois disso os tempos estagnaram, ou pelo menos não melhoraram no mesmo ritmo, apesar de continuar treinando forte e começar a fazer musculação. Qualquer que tenha sido o motivo, previ que a minha curta carreira PEBA chegaria ao fim quando começasse a me focar no vestibular.

Competições universitárias e Interusp

Chegando à universidade, tive a enorme satisfação de descobrir um “universo paralelo” na vida esportiva. Obviamente o nível estava longe daquele encontrado nos NCAAs ou Finkeis da vida, mas as competições universitárias eram o ambiente ideal para alguém em busca de motivação para competir, retomar os treinos e voltar a fazer parte de uma equipe.

Em São Paulo, assim como outros estados, são bastante conhecidas as competições organizadas entre diferentes faculdades de uma mesma especialização como a Intermed, Interodonto, Intervet, Engenharíadas, Economíadas, Jogos Jurídicos e tantas outras. Alguns desses eventos abrigam rivalidades históricas que se estendem além das arenas esportivas.

Um das competições universitárias mais conhecidas é disputada por algumas das maiores atléticas da USP. O Interusp acontece desde 1985, sendo organizado anualmente em uma cidade do interior durante a “semana do saco cheio”. Para os participantes, é o principal evento do calendário e mais aguardado acontecimento do ano, tanto pela parte esportiva quanto pelo aspecto social.

Logo no meu primeiro Interusp de cara vejo o Henrique Americano, famoso protagonista de outros posts. Para minha sorte, o atleta que estava se formando em agronomia abriu mão dos 50 costas. Até hoje não sei se a desistência foi por causa do ombro ou por piedade dos adversários, já que nadou os 50 peito, estilo que não era sua especialidade. Mas graças ao fato quase levei a prova, perdendo na batida de mão. Ali percebi que PEBAs esforçados também podiam encontrar seu espaço.

Peço desculpas aos leitores, mas ao contrário dos meus colegas Epichuristas zelosos com a memória, infelizmente não tenho documentação do período à mão. Mas quem quiser ter uma ideia do que é o Interusp atualmente pode conferir este vídeo

Fora da raia

O esporte universitário também me proporcionou lembranças memoráveis fora das raias. Certa vez viajei com a equipe da USP para um amistoso com a marinha no Rio de Janeiro. Na ocasião ficamos alojados nas belíssimas dependências da Escola Naval e tivemos a sorte de acompanhar a seleção brasileira de vôlei, que usava o local para seus treinamentos. Fora a sapatada no polo aquático e volta e meia ter de ouvir “ê ê ê praia de paulista é o rio Tietê”, foi um ótimo fim-de-semana, que terminou com um passeio pela Baia da Guanabara e um grande churrasco oferecido pelos militares.

De todas as experiências, a melhor sem dúvida foram os amigos que fiz ou consolidei por meio da natação. São pessoas por quem tenho um grande carinho e com quem compartilho uma forte identificação. Talvez esse “espírito de corpo” seja um dos maiores benefícios que o esporte nos ofereça. No último ano de faculdade criamos um ritual em que os formandos deveriam passar seus óclinhos para os novos atletas que tivessem se destacado na temporada, não necessariamente pelos resultados mas por sua contribuição para o grupo. Essa tradição que une gerações existe até hoje, quinze anos depois, e se tornou um momento especial na vida  de cada atleta que passou pela equipe.

Ao treinar para as competições universitárias acabei retomando o gosto pelo esporte, a ponto de continuar nadando ativamente. Por conta disso voltei a participar de alguns paulistas e jogos regionais. Já no final da minha carreira universitária descobri o master, ao qual tenho me dedicado com maior ou menor intensidade nos últimos anos, dependendo das circunstâncias. Se não tivesse competido na faculdade, provavelmente teria me afastado da natação, ou, possivelmente, a encarasse mais como uma atividade de lazer do que como saudável estilo de vida.

Tudo isso para dizer que, para nos mantermos motivados, dentro e fora das piscinas, é preciso estar sempre nos reinventando. Mudar o necessário, mas sem perder a essência. Mutatis mutandis.

Abraços e boas festas!

27 comentários em “Mutatis mutandis e porque não abandonei a natação

  1. rcordani
    19 de dezembro de 2013

    Boa Sidney. Esporte universitário é muito legal mesmo, eu não tive oportunidade de nadar o Interusp (a minha faculdade não era convidada), mas nadei várias competições pela atlética da Física (até handebol joguei) e tive o imenso prazer de participar de três JUBS.

    Um post bem epichuriano!

    • charlaodudo
      19 de dezembro de 2013

      Renato, a Geofísica era muito PEBA para ser convidada para o INTERUSP. Assuma isso de uma vez por todas.

      • Sidney N
        19 de dezembro de 2013

        Carlão, no caso da natação a sorte era nossa 🙂

    • Sidney N
      19 de dezembro de 2013

      Legal Renato, uma pena que muitas escolas ficavam de fora. Na Intermed tinha um esquema de primeira e segunda divisão, que poderia ser aplicado ao Interusp para aumentar a inclusão.

      Sempre ouvi dizer que os JUBs eram muito legais. Foi dai que veio a convocação para as Universiades?

      Abraços

      • charlaodudo
        19 de dezembro de 2013

        Demos sorte nada, imagina como era a equipe de natação da geofísica, lotada de barbudos cabeludos. Um show de horror. Opa, melhor você não imaginar a essa hora da noite pois pode ter pesadelos.

    • Sidney N
      19 de dezembro de 2013

      No quesito elegância a sua querida escola não ficava muito atrás…

  2. charlaodudo
    19 de dezembro de 2013

    O INTERUSP era uma das melhores competições mesmo Sidney. Se bem que tenho uma certa dificuldade para lembrar da competição de natação durante os INTERUSPs.
    Lembro de um onde íamos tomar WO no xadrez e fui convocado para jogar no barzinho ao lado do ginásio. Por sorte sofri uma derrota rápida e pude voltar para as minhas atividades.

    • Sidney N
      19 de dezembro de 2013

      Pois é Carlão, as provas começavam logo pela manhã e o overtrainig de balada da noite anterior acabava complicando a vida de todo mundo.

      Os primeiros eventos que participei eram meio várzea, inclusive com as provas femininas de 25m. Mas ao longo dos anos a competição evoluiu bastante, até por conta da participação do Oscar Paulo Hogenboom, vulgo Pateta, no comitê organizador.

      Falando em cartolagem, fontes da época me disseram que o senhor era bastante envolvido com a FUPE. Quem sabe possa contar pra gente algumas histórias do esporte universitário por aqui ou em algum post futuro.

      Abraços

      • charlaodudo
        19 de dezembro de 2013

        Isso mesmo Sidney, a natação era sempre no dia seguinte da grande festa do INTERUSP, overtraining pesado mesmo.

        Com relação à FUPE, fiquei alguns anos cuidando da natação. O objetivo principal era organizarmos o esporte universitário paulista, com duas grandes competições por ano, envolvendo todas as modalidades e faculdades. Um pré-requisito para ser convocado para o JUBS era participar das competições da FUPE, onde usavamos os tempos obtidos nas competições para selecionar os convocados. Para as provas que não eram realizadas nas competições universitárias, como o micadíssimo 200 peito, usavamos os tempos de competiçoes da federação para selecionar a equipe para essas provas, mas o cara tinha que ter nadado uma das competições da FUPE. Para a Universíade nós sempre fpressionamos a CBDU a convocar atletas que participavam do JUBS.

        Participar de um JUBS era muito melhor do que ir para uma Olimpíada!!!

    • Sidney N
      19 de dezembro de 2013

      Legal Carlão, valeu pela nota e esclarecimento! Pelos comentários, dá para imaginar que os JUBS também dariam boas histórias epichuristas.

  3. Daniel
    19 de dezembro de 2013

    O InterUsp era realmente um show. Boa combinação de viagem com os amigos, esporte (?) e balada no interior. Legal a tradição do óclinhos. Abraços!

    • Sidney N
      19 de dezembro de 2013

      E isso ai Daniel, a combinação era boa mesmo. Mas às vezes o esporte ficava no fim da fila 🙂 Abraços

  4. Marina Cordani
    19 de dezembro de 2013

    Eu participei de várias competições universitárias, e as melhores eram os JUBS, Jogos Universitários Brasileiros, geralmente em uma cidade com praia! A competição ficava realmente em segundo plano (no caso da natação, pelo menos) e o que valia mesmo eram as bagunças, as amizades, os passeios. Mas mais do que as competições de natação, eu gostava mesmo era dos jogos de Handball e Volei, esportes que treinei durante a faculdade. Eu ficava nervosa, tinha frio na barriga, me empenhava ao máximo se alguma titular não podia comparecer e eu (banco!) entrava em quadra. Enfim, faculdade é muito legal em muitos aspectos. Tenho uma inveja boa do meu filho João, que está em São Carlos fazendo UFSCAR, morando em república, com perspectivas de ir para o Ciências sem fronteiras. Legal o post!

  5. Sidney N
    19 de dezembro de 2013

    Olá Marina, obrigado pelo comentário. Deve ter sido muito bacana ir para os JUBS, principalmente pelos locais dos eventos.

    Um lado legal do esporte universitário era poder explorar outras modalidades. Como era ainda mais PEBA nos esportes coletivos, acabei praticando salto em altura.

    O campus da UFSCar é bastante agradável e a qualidade de vida no interior incomparável. Imagino que também seja muito mais fácil fazer amigos, já que a maioria vem de fora da cidade. Sem dúvida daqui alguns anos o João se lembrará com saudades desta fase da vida!

    Abraços

  6. Ruy Araujo
    20 de dezembro de 2013

    Legal essa lembrança do “universo paralelo”. era uma forma de juntar (ou dividir) os amigos da natação em “clubes” diferentes. Eu dei o azar de pegar greve de JUBS durante 3 dos 5 anos que estive na faculdade. Não lembro o motivo dessa greve mas certamente foi culpa do Charlão. Fiz economia da FEA-USP e nossa equipe era muito boa. Volta e meia batíamos a POLI que contava com 98 nadadores enquanto que na FEA eram 4+alguns gatos pingados. Minha época foi a volta da Economíadas, competição bem legal que ganhou bastante força nos anos seguintes. A única nota triste é que no primeiro Economiadas, a FEA ficou em segundo lugar no geral por causa de 1 nadador, L.E.P.de P. que simplesmente faltou ao evento. Caso tivesse ido e ficado em oitavo (com apenas 5 nadando) nos 50m borboleta, ganharíamos na Natação e na competição Geral.

    • Sidney N
      20 de dezembro de 2013

      Bem lembrado, Ruy. Era sempre uma grande confraternização, mesmo tendo nossos companheiros de treinamento nadando por equipes diferentes. O contrário às vezes acontecia, com antigos rivais defendendo as mesmas cores. Mas também tive a felicidade de nadar na faculdade com um grande amigo desde os tempos de clube e de quem acabei sendo padrinho de casamento anos depois.

      A FEA realmente tinha uma grande equipe, e era um potência especialmente no feminino.

      Um dos maiores desafios era mobilizar os atletas para competir. Sem email ou celular, a gente contava com a boa vontade e sempre ficava na expectativa de quem ia aparecer.

      Abraços

  7. Luiz Otavio
    20 de dezembro de 2013

    Boas memórias Sidão. Interessante que mesmo nós PEBAS já treinamos forte em algum momento da vida, mas depois de um tempo nem isso mais é possível em função de vida profissional, casamento, filhos, etc… nessas horas começam a aparecer interesses por outros esportes (no meu caso corrida e ciclismo), já que, por mais forte que eu nade hj, nunca terei os tempos do passado (que já eram ruins rs), mas nos demais esportes conseguimos evoluir mesmo depois de mais velhos!
    Abraço
    LO

  8. Sidney N
    20 de dezembro de 2013

    Grande LO, um caso de sucesso de jogador de pólo convertido a nadador universitário de destaque! 🙂

    É verdade, com tantas responsabilidades e distrações, é difícil a gente conseguir se focar. Também é natural querermos experimentar outras atividades. Mas no caso da natação, acredito que o interesse acaba retornando em algum momento pelo aspecto da saúde e também a parte social. Sem falar na possibilidade de encontrar novos desafios, seja mudando de categoria ou tentando novas provas no master, ou mesmo participando de águas abertas e triatlo.

    Legal contar com a sua participação por aqui.Abraços e volte sempre!

  9. Fernando Cunha Magalhães
    23 de dezembro de 2013

    Alô Sidney,
    Tem uma passagem com várias semelhanças ao seu relato na minha família.
    Meu irmão tinha bem menos facilidade para evoluir na natação do que eu.
    É 1,7 anos mais velho, mas quando eu tinha 9 anos já fazia tempos melhores que ele.
    Nunca teve destaque na equipe do Curitibano, mas treinava bastante.
    Ele ingressou no Ensino médio no curso de eletrônica do CEFET – Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná.
    E lá no CEFET, havia os Jogos Intercursos, uma semana super tensa mais ou menos na metade do 2o semestre. E lá, Sidney, ele era ponta!
    Fui assistir algumas provas e a rivalidade era bem forte.
    Ele deixou de competir pelo Curitibano e passou a defender as cores do CEFET.
    O novo ambiente revigorou a relação com o esporte. Mais tarde ele migrou para o trithlon – corre melhor do que nada – participou de dezenas de provas, inclusive um ironman e maratonas.
    E nessa trajatória, o Intercursos teve um grande papel.

    • Sidney N
      13 de janeiro de 2014

      Boa Esmaga, a história do seu irmão sem dúvida reflete o que aconteceu com muitos de nós. Legal ver que ele não deixou se abater e encontrou motivação para continuar envolvido com o esporte de outras formas. No fundo acredito que o espírito competitivo nunca deixa de estar presente e sempre procuramos alguma maneira de exercitá-lo. Abraços!

  10. Fernando Cunha Magalhães
    23 de dezembro de 2013

    Outra coisa, Sidney: põe uma foto sua aí no cadastro do wordpress…
    Melhora a interatividade na área dos comentários.

    • Sidney N
      13 de janeiro de 2014

      Pode deixar Esmaga, vou aproveitar as férias para caprichar no visual 🙂

      • Fernando Cunha Magalhães
        27 de janeiro de 2014

        Boa Sidney… ficou legal!

  11. Rodrigo M. Munhoz
    24 de dezembro de 2013

    Oi Sidney! ‘Desculpe a demora em comentar, mas estava em viagem e na correria de fim de ano… Seu post – e alguns comentários – me fizeram lembrar de como era legal nadar as competições pela FEA…Me lembei também de uma grande frustração: Nunca nadei um JUBS… Acabei mudando pros EUA e o Charlão nunca me convocou! Abraços!

    • Sidney N
      13 de janeiro de 2014

      Olá Munhoz, espero o tempo não tenha atrapalhado o retorno. Sobre o JUBS, se fosse possível importar atletas do exterior talvez o Carlão tivesse uma justificativa para te convocar. No meu caso, só me chamaria se fosse para dar trote, já que era PEBA e, pior, bixo dele faculdade. Abraços!

  12. William Dietz
    24 de dezembro de 2013

    Chique demais! Com certeza, essa histórias moldaram minha vida e de muitos outros. Sidão, que felicidade ter você como um amigo das piscinas. Distantes fisicamente, mas unidas por esse legado.
    Abraços, Dietz

    • Sidney N
      13 de janeiro de 2014

      Grande Dietz, que legal reencontrá-lo por aqui! Desculpe o atraso com o comentário mas estive fora do ar desde o Natal e só agora estou retomando as atividades. Sem dúvida tivemos a grande felicidade de contar com um grupo muito especial. Talvez o exemplo de união tenha sido o maior legado. Abraços e feliz 2014!

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Publicado às 19 de dezembro de 2013 por em Natação e marcado , .
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