Epichurus

Natação e cia…

E a peba chegou lá. Peraí, peba?

Foi em um almoço na minha casa com os caras da escola que o tema veio à tona.

Um deles viu na minha estante o livro “A Travessura do Canal da Mancha”, de Ana Mesquita e perguntou se essa era aquela atleta que havia falecido durante a travessia do canal.

“Não”, eu disse, “a Ana é a PEBA que conseguiu, quem infelizmente morreu foi a craque Renata Agondi”. Aí peguei o outro livro, “Revolution 9”, sobre a carreira e trágica morte da Renata no Canal e passamos boa parte do almoço discutindo o caso.

Para quem não sabe: no dia 23 de agosto de 1988 a estrela internacional de Águas Abertas Renata Agondi morreu na tentativa de atravessar o canal, já no dia 23 de setembro de 1993 a peba desconhecida Ana Mesquita atravessou-o tranquilamente.

A Peba conseguiu e a craque morreu? Como assim?

Relutei em escrever aqui a palavra “peba” associada à Ana Mesquita (e na última frase desse texto vocês entenderão porque relutei), mas acabei cedendo. Ocorre que em primeiro lugar o termo “peba” nesse blog está longe de ser pejorativo, é antes um jeito simpático de referir-nos às nossas próprias limitações e – por que não? – às limitações dos outros. (por exemplo gosto de dizer que o Lelo é peba em longa, apesar de que ele ganhava de mim inclusive em longa.) Segundo, porque a própria Ana Mesquita refere-se a si mesmo nessa condição várias vezes no livro, pincei alguns trechos, vejam abaixo:

Pg 42: “meu irmão insistia que eu não deveria deixar de nadar, que a ideia de que eu ‘não tinha nível’ era bobagem…

Pg 62: “Ou talvez simplesmente não pudesse acreditar na possibilidade de baixar as dez horas por saber que esta seria uma marca para uma nadadora de verdade, e eu não me considerava como tal”.

Pg 67: “Santo Deus, o que é que eu estava fazendo ali?! Bem, pensando melhor, eu queria atravessar a Mancha, não queria? Por menos nadadora que fosse, não poderia me assustar tão fácil.

Pg. 71: “Na prática, eu a tinha vencido, como o Claudio fazia questão de salientar a cada vez que eu dizia que não era nadadora.

Pg 75: “Agora o Claudio estava achando que eu podia completar a travessia em menos de dez horas, enquanto eu não me considerava nadadora para tanto…

Em 1991 (e apenas nesse ano) eu treinava no Pinheiros, e fui testemunha ocular de que de fato a Ana Mesquita não tinha o mesmo nível do que as atletas de piscina que treinavam comigo em 1991, nem das que já haviam treinado, como a Ana Maria Vidal, que aliás é citada no livro assim:

Fiquei em segundo de novo, para decepção do meu tio João Batista que achava que eu tinha que ganhar de qualquer jeito. A primeira colocada foi a Ana Maria Vidal, nadadora de quem eu nunca ganhei uma prova sequer. Foi uma pena que ela deixou de nadar pouco depois, sem nunca fazer uma carreira internacional, porque era uma grande nadadora.

A Ana Maria Vidal eu conhecia faz tempo, realmente uma craque, mas justamente nesse ano em que eu treinei no ECP conheci a Ana Mesquita e por ela fui consultado se eu achava que ela tinha chances de atravessar o canal e eu disse “claro que tem”. Fui sincero: eu realmente achava que ela tinha chances de completar a prova, como eu acho que qualquer um pode completar o Ironman, já outra história completamente diferente seria ela bater algum recorde ou fazer um tempo de nível internacional. Isso se ela me perguntasse eu diria enfaticamente:”claro que não!”. De qualquer forma, é certo que de 1991 a 1993 (quando ela fez a travessia) o nível técnico dela deve ter melhorado muito.

Quanto à Renata Agondi, dessa me lembro bem dentro d’água e fui testemunha do quanto bem ela nadava. Entre 1983 e 1987 (período da era Pancho em que eu fazia travessias regularmente) acompanhamos sua carreira internacional, vários títulos e tals, o vice-campeonato de Capri-Napoli, mas o que mais me impressionava na época era o que eu sentia na pele, já que eu frequentemente nadava junto e PERDIA dela, e lembro que isso me incomodava, onde já se viu peder de uma moça?

(NdoA) “onde já se viu peder de uma moça?” – pensamento que eu perdi posteriormente, não tenho o menor problema de perder de mulher hoje em dia, mas com 17 anos confesso que isso me incomodava.

Pois naquele fatídico agosto de 1988 uma série de fatores em cascata começando com a troca de barqueiro por problemas de saúde na última hora, uma equipe técnica inexperiente em hipotermia, água especialmente fria, correntes fortes, desejo de recorde, etc, criou o ambiente para a tragédia e Renata infelizmente faleceu durante a tentativa. Marcelo Teixeira (dono do Unisanta e ex-presidente do Santos FC) é o escritor desse livro “Revolution 9”, rico em detalhes e fotos.

Ambos os livros tem valor histórico e recomendo a leitura, mas o livro escrito pela Ana é muito mais do que histórico, ele é sensacional, daqueles que você começa a ler e não para mais. A parte da travessia em si é emocionante, mas ela não fala apenas do Canal da Mancha, mistura a prova com passagens da sua vida e pensamentos em geral. Um trecho em especial (para quem tem o livro, é aquele que começa no último parágrafo da pg 115) é algo que eu considero brilhante e pensei até em transformar em um post do Epichurus, quem sabe um dia.

Voltando ao almoço com os caras da escola. No fim, tive que me render aos fatos: se a Ana Mesquita fosse peba mesmo não teria batido o recorde brasileiro, sul-americano e latino-americano, recordes esses vigentes até hoje quase 22 anos depois, caramba, que prova excepcional!

Pensando bem, foi um feito nada PEBA!

Sobre rcordani

Palmeirense, geofísico e nadador master peba.

15 comentários em “E a peba chegou lá. Peraí, peba?

  1. Rodrigo M. Munhoz
    30 de março de 2015

    Boa reflexão com lembranças trustees e alegres.
    Realmente atravessar o Canal da Mancha em menos de 10hs não me parece muito Peba… Melhor que meu forever pace em piscina de 25 🙂
    Quanto a ser batido pelas moças, lembro que havia um tempo que meus melhores tempos de peito e medley eram melhores que os recordes mundiais femininos… E mesmo assim a Patricia Amorim me destruia nos treinos da equipe Kibon e nas provas de livre acima de 200m… Normal.. .
    O que tenho achado interessante é uma certa mudança na sua atitude e abordagem de certa temas. Legal.
    Abrazos!

    • rcordani
      30 de março de 2015

      A qual forever pace o sr se refere, aquele de 1988 ou o de ontem? Com relação à mudança de abordagem, poderia ser mais específico?

  2. Marina Cordani
    30 de março de 2015

    Conheci a Renata e conheço a Ana. Perfis totalmente diferentes. Qual a melhor característica para esse tipo de travessia? Acho que precisa ser nadadora, mas não necessariamente uma craque. Outras habilidades contam mais. Li o livro da Ana e amei! Acho que deveria ser adotado em escolas, como material de Educação Física. Sensacional mesmo, e de leitura agradável. Se não leu, leia!

    • rcordani
      30 de março de 2015

      Sim, outras habilidades que a Ana deve ter de sobra, ainda mais aperfeiçoadas pelo Nuno Cobra, Claudio Plit e cia.

  3. Lelo Menezes
    30 de março de 2015

    Legal o texto! Eu tenho bastante respeito por quem faz essas travessias. Eu não conseguiria. Tenho um certo “receio” de travessia em mar. Não me sinto a vontade. Não chega a ser fobia, até porque já fiz algumas, mas não faria a travessia da Mancha por nada nesse mundo e não é a água fria que me impediria, mas tubarões e afins. Nadar em água escura, sem saber o que nada embaixo me dá muita aflição.

    Agora aqui sim se aplica o conceito do “basta querer”, ou seja, é um desafio que um PEBA consegue superar, como foi o caso aqui. Fiquei com vontade de ler o livro da Ana. Vou ver se compro! O da Renata também. Não sei da história com detalhes até hoje.

    • rcordani
      30 de março de 2015

      “não chega a ser fobia” é algo ainda para ser analisado.

      Com relação ao livro da Ana Mesquita, se o sr começar não para mais. Já o Revolution 9 creio esteja fora de linha, mas eu empresto o meu (caso o sr cumpra a sua promessa de iniciar os treinos)…

  4. Ana Mesquita
    30 de março de 2015

    Ô, Renato, eu, PEBA, junto com você e esses seus amigos bons prá caramba? Nossa, acho que eu tinha que melhorar um tantão para merecer entrar na categoria! Obrigada pelo texto, adorei!

    • rcordani
      30 de março de 2015

      Oi Ana, obrigado pelo comentário!

      E como disse o Munhoz no Facebook, em uma frase muito feliz: “As vezes os extraordinários falham e as pessoas comuns alcançam o extraordinário.” Foi realmente extraordinário.

  5. Vene
    30 de março de 2015

    Pra mim sempre foi um feito extraordinário de uma pessoa extraordinária!

    • rcordani
      31 de março de 2015

      Boa forma de ver a coisa, Vene. Acompanhe: do ponto de vista esportivo o mais relevante é que o feito extraordinário foi realizado por uma nadadora ordinária (peba), o que só pode significar que a pessoa é extraordinária.

  6. Fernando Cunha Magalhães
    21 de abril de 2015

    Preciso ler esse livro!
    Cogitar fazer a tentativa ainda sob a comoção da tragédia com a Renata já diz muito sobre a personalidade da Ana. Imagino as conversas com familiares e amigos.
    Completar da forma em que a finada Dailza fez, em mais de 19h, já é espetacular. Em 10h a menos, nem se fala. Parabéns a Ana para sempre.

  7. Pc Braga
    7 de maio de 2015

    Terminei o livro da Ana ontem, depois de ler a dica aqui. Muito legal mesmo, obrigado!

  8. Flávio Amaral
    13 de setembro de 2015

    Lembro muito bem da Renata.

    Entre nós que treinamos com ela, considerávamos ela uma mãezona, não só pela idade (Ela nos deixou com 25 anos, 2 dias depois do meu aniversário de 16 anos), mas sim pelo coração gigante que ela tinha. Sempre cabia mais um. Seus conselhos fizeram todos evoluir como atleta e pessoa.

    A maior parte de nós treinávamos e estudávamos na mesma escola. Perto de São Paulo, Santos é um bairro, e tudo que me lembro foi ao chegar na escola, foi abraçar a Juliana (Figueiredo). Ela estava precisando. Alguns nem conseguiram ir para aula. Cada uma precisava do seu tempo.

    Quando soube pela televisão que a Ana Mesquita iria tentar a travessia, alguns duvidaram que ela conseguiria por comparação com a Renata e outros que ela deveria dedicar a travessia à Renata.
    Eu pensei nem uma coisa, nem outra.

    Nós que nadamos, nadamos por nós mesmos. Lembro de falar para o João (meu técnico) que eu nadava por 2 motivos. Por mim, e por ele (pois eu era fruto do trabalho dele), e assim foi até eu me cansar de treinar. Naquela época os treinos na água eram insanos.

    Mais uma vez, um belo texto.
    Espero um dia ler o livro da Ana. Deve ser interessante.

    Abraços a todos.

    • rcordani
      15 de setembro de 2015

      Boa Flavio, obrigado pelo depoimento, que enriquece muito o post. Abraço

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