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Natação e cia…

Phelps: Patrono do Lado B ou CDF Aquático Incurável ?

Que tal nadar 90,000 metros em uma semana? Não precisa nem ser de uma só vez, claro. Você pode fazer em 10 parcelas de 9,ooom. Dia sim, dia não, agende também um treino de 90 minutos de musculação. E não se esqueça de fazer uns 30 minutos de exercícios funcionais e alogamentos antes de cada treino aquático. Um lembrete final: se fizer virada de peito com uma só mão, vai repetir o tiro, ok? A vida do Phelps aparentemente foi assim pelo menos de 2002 até 2008, segundo o que disse seu técnico de longa data Bob Bowman numa recente reportagem na Sports Illustrated.

E o interessante dessa história é que fiquei com a impressão que tanto o nadador como seu técnico não consideraram essa jornada boa o suficiente, mesmo com todas conquistas que vieram depois.

Devo começar explicando que na minha opinião, o artigo do Tim Layden está sensacional e vale a pena ser lido. Há histórias de superação e drama humano de sobra. Adicionalmente, apesar do tom duro e quase moralista do autor em alguns pontos, há o objetivo de deixar claro que o Phelps está no páreo para o Rio 2016. Confesso, contudo, que dessa vez não foi o drama que me chamou mais a atenção.  Alguns detalhes mais “técnicos” me deixaram pensando no Phelps nos últimos dias e com certeza vão me fazer ficar ainda mais de olho na natação mundial e nos próximos passos desse cara que é quase “um velho conhecido” de todos nós desde os jogos olímpicos de 2000.

O primeiro detalhe tem a ver com a chamada de capa da matéria – “After rehabilitation, the best of Michael Phelps may lie ahead”: esse papo de que o melhor do Phelps pode estar por vir me irritou logo de cara. Como assim, um cara que acaba de sair de 45 dias de reabilitação, aos trinta anos de idade pode ter esperança de alcançar conquistas esportivas ainda mais expressivas nos próximos 9 meses? Não que a Amy Winehouse tenha me deixado desiludido sobre o poder da reabilitação, mas estamos falando de um ser que bateu 29 recordes mundiais e conquistou 22 medalhas olímpicas, sendo 11 ouros individuais e 8 ouros em uma mesma olimpíada (Beijing, 2008). Estamos falando do maior atleta olímpico da história.

Ainda assim, está lá escrito que poucos dias depois de sair do centro de reabilitação, Phelps comentou com seu empresário que até hoje ele nunca havia dado tudo de si … “(…) it’s going to be interesting. I’ve never really given it everything I have.”  Oi, como assim?! Isso soou para mim como conversa pra boi dormir ou algo para vender revistas. Ou melhor: parece algo mirando em patrocínios novos, depois de tantos encontros públicos e embaraçosos com o “Lado B” nos últimos anos.

Capas da Sports Illustrated com o Phelps de 2004-2008 - evolução até o seu ápice olímpico.

Capas da Sports Illustrated com o Phelps de 2004-2008 – evolução até o seu ápice olímpico. Ou será que vem mais por aí?

Mas aí, quando paramos para analisar a performance atual do Phelps, pós-rehab, vemos que a especulação pode não estar tão longe assim da verdade. Se eu acho que ele vai ganhar 8 medalhas de ouro no Rio? Definitivamente, não! Mesmo que ele se qualifique para integrar a seleção americana em 2016 (algo longe de trivial), ele não deve nem nadar tantas provas assim, e a própria reportagem já indica isso. Mas o fato é que o Phelps recentemente fez seus melhores tempos em  mais de 4 anos, metendo os melhores tempos de 2015 nos 100 e 200 Borboleta e 200 Medley. Isso naturalmente o credencia como um dos, senão O atual favorito nessas provas. Ou seja, é quase ridículo, mas 16 anos após sua primeira seleção olímpica, o cara ainda pode chegar no topo. Mesmo para os standards do fenomenal Phelps, acho que seria uma baita conquista.

Mas aí vem um outro detalhe e talvez a parte que mais tenha me impressionado: Diz a matéria que o cara ainda treina MUITO. Não só qualidade, mas quantidade… Questionei: Como pode? Num certo sentido, achei até que ele tinha parado no tempo, já que eu pensava que na natação contemporânea, haveria bem menos metragem. Pensei que o foco fosse muito mais na “qualidade” e me iludi que os treinos da nova elite da natação são coisa de 20-25K por semana apenas. Imaginava treinos de 4K no máximo, com muitas séries de alta intensidade intermeadas pela prática de nado educativo, uso de materiais novos – como pés de pato exóticos, snorkels e paraquedas – e velocidade. Coisa “quase fácil”, certo? Claro que não!  Mas, se lembrarmos da nossa época de treinos de alto volume influenciados pela escola Soviética de Vladimir Salnikov (que já discutimos aqui no Epichurus), com metragens superiores a 80K por semana nos períodos de base, até que 25K me parece que dava para encarar “de boa”.

Mas não é bem assim, aparentemente. Fui conversar com alguns técnicos amigos que confirmam que a metragem média para meio-fundistas hoje em dia pode realmente chegar em 50,000 por semana ou mais. Há velocistas que treinem menos e dependendo do estilo do treinador, pode ser que façam os tais 25K semanais de alta intensidade que imaginei, mas estes são a exceção e não a regra.

Voltando ao artigo do Tim Layden, observo que o Phelps apesar de não treinar mais os tais 90K/semana, ainda faz seus 50-60,000 metros. Considerando que a intensidade dos treinos e das séries hoje é ainda maior, metragem a parte, me parece um desafio e tanto.  Mas isso também me lembra que mesmo os fora de séries tem que treinar muito. Talvez uma parte do que os faz fora de série seja a capacidade de aguentar treinos (quase certamente que sim!). Mas o que o move? Qual a motivação de um cara de mais de 30 anos de idade que já fez tanta história, depois de passar por décadas de treino brutais antes? Paixão po olhar a faixa preta do fundo da raia por horas seguidas é que não deve ser, mas também acho dificil acreditar que ele esteja apenas atrás de mais medalhas e melhores tempos.

Notem que não sou como o Lelo que acha que os atletas devem sempre e sobretudo saber a hora de pendurar as chuteiras, sendo que esse momento é sempre no auge da carreira. O auge do Phelps definitivamente já passou, mas acho que enquanto ele se mostrar competitivo globalmente em mais de um evento, está valendo tranquilamente.

E se toda essa metragem nadada e dedicação as piscinas for uma tentativa deliberada de se manter afastado dos efeitos potencialmente nocivos do “Phelps Lado B”, espero que ele eventualmente se lembre que uma hora ele vai ter que parar de nadar e arrumar um método, remédio ou “deterrent” que substitua os 60Km por semana de molho no cloro da piscina.

Seja o que for, desejo muita sorte pro Michael Phelps. Espero vê-lo no Rio em 2016 e para sempre apenas nas manchetes que ele desejar estar.

Sobre Rodrigo M. Munhoz

Abrace o Caos... http://abraceocaosdesp.wordpress.com

14 comentários em “Phelps: Patrono do Lado B ou CDF Aquático Incurável ?

  1. rcordani
    16 de novembro de 2015

    Para 2016, Phelps driblará a idade avançada com uma diminuição de provas. 100 e 200 borbola, 200 medley e dois revezas (ao invés de 3). Aí dá para segurar mais umas medalhinhas, mais recordes, mais grana e manter a adrenalina em alta.

    Mas o principal é o que você disse: “espero que ele eventualmente se lembre que uma hora ele vai ter que parar de nadar e arrumar um método, remédio ou “deterrent” que substitua os 60Km por semana de molho no cloro da piscina.”.

    Porque até o Phelps um dia vai entrar em decadência.

    Falando nisso, o ídolo do meu filho é o Chad le Clos, não o Phelps. Alguma decadência já começa timidamente a aparecer…

    • Rodrigo M. Munhoz
      16 de novembro de 2015

      Pois é, o cara é um monstro e se tem alguém que pode fazer esse come back nessa altura é ele.
      Torço por ele em 2016, mas acho que os grandes desafios da vida do Phelps podem vir depois da aposentadoria mesmo.
      Quanto ao Chad Le Clos, será que seu filho vai adotar os 200 Borbo como prova principal? Espero que não, coitado! Pior que isso, só os 400 Medley…

  2. bruno
    16 de novembro de 2015

    Apenas uma observação e nem precisa publicar o comentário.

    Quando clico no link “aqui no Epicurus” no parágrafo falando sobre a escola soviética, está pedindo login e senha do wordpress e não é redirecionado para o texto.

    Estou usando o safari em um mac os.

  3. Eduardo Hoffmann
    16 de novembro de 2015

    Esse “rehab” dele é, claramente, coisa de “PR management”… O cara pisou na bola, mas não é nenhum alcoólatra. O que ele fez, 99% de nós já fizemos (pelo menos antes da Lei Seca…). Só que, na cultura americana, é importante mostrar “arrependimento”, e buscar “redenção”… Ajuda se posicionar como alguém que passou por uma “fase negra”, mas que a “venceu”… Algo bem característico de uma sociedade bastante religiosa. Tendo feito isso, o valor publicitário dele fica renovado…

    Imaginem o valor publicitário dele, se sair dessa Olimpíada com cinco ouros… e fizer o nome Mark Spitz virar nota de rodapé, na biografia dele (Phelps).

    • Lelo Menezes
      16 de novembro de 2015

      Perfeito Hoffmann. Eu ia escrever a mesma coisa! Impressionante a necessidade americana de mostrar “arrependimento”.

    • Rodrigo M. Munhoz
      16 de novembro de 2015

      Sei não, Hoffmann… Um componente deve ser esse mesmo – PR… mas lendo a reportagem e até associando certos comportamentos descritos ali, com seus hábitos de treino, fiquei em dúvida se ele não tem mesmo uma atração exagerada pelo o “lado B”.
      Quanto a sua hipótese de “cinco ouros” em 2016, acho bastante improvável… mas ainda acho que qualquer medalha seria algo incrível, sendo que o Mark Spitz já é quase um Peba em comparação ao Phelps 🙂 … exagerei um pouco, contagiado pelos “cinco ouros”…?

      • Eduardo Hoffmann
        16 de novembro de 2015

        A reportagem reflete informações fornecidas pelo próprio, senão na sua totalidade, quase nela… Ele, e o seu time de PR têm controle sobre a mensagem… E se posicionam de forma a maximizar os resultados almejados… Os americanos são muito bons nisso… E sabem o que o público quer ouvir…

        Esse tipo de coisa é comum lá: (1) alguém famoso pisa na bola , (2) é pego no ato, (3) sai na imprensa como “mau exemplo”, (4) PR team entra em cena, (5) Declaração de arrependimento, seguida de decisão de ir para o “exorcismo” (rehab), (6) Volta por cima, em conjunto com “perdão”, de uma autoridade maior, e da sociedade (leia-se: consumidores de Sucrilhos, etc…

        Tá com muita cara de ser só isso…

      • Eduardo Hoffmann
        16 de novembro de 2015

        Além do que, foi a Sports Illustrated não é nenhum NYTimes, ou WaPost… longe de representar uma tradição de jornalismo “de fato”, ou seja, é mais “flack”, do que “hack” (jargão do jornalismo anglo-saxão para se referir a profissionais de PR, ou jornalismo propriamente dito – investigativo – respectivamente…). É, em outras palavras, o “púlpito” ideal para a “redenção pública” do cliente… Uma mídia “friendly” para se expor uma história, sem grandes questionamentos, e “fact-checking”.

        Os USA adoram histórias assim… veja o Ben Carson, candidato a candidato pelo partido Republicano. Não bastava uma história de mérito, de sair de condições extramente desfavoráveis, no gueto de Baltimore, para se tornar, através de trabalho duro, e inteligência, um dos principais neurocirurgiões do país… Ele foi, e criou uma história (que a imprensa “hack” descobriu sem qualquer corroboração) de que teria sido um “quase criminoso”, na adolescência. Um “bad boy”, que teria tentado esfaquear outro rapaz, numa briga… Incidente após o qual, ele “viu a luz”, e se “redimiu” perante o “Almighty”…

        Ou seja, Carson acreditou ser uma história fabricada, de “deep flaws”, seguidas de “repent” e “redemption”, mais valiosa, em termos eleitorais, do que a verdadeira história da vida dele, que já era excepcional…

    • Luiz Alfredo Mäder
      16 de novembro de 2015

      surpreso mesmo eu fiquei com esta revelação do Hoffmann, dizendo que esteve à beira do “rehab” na juventude…
      😉

      • Eduardo F. Hoffmann
        16 de novembro de 2015

        Não chega a tanto…rs… sempre tive mais problema com doces/sobremesas, do que com álcool… especialmente Panettone… o que faz esta época do ano, particularmente perigosa…

  4. Fernando Cunha Magalhães
    17 de novembro de 2015

    Evidente a estratégia para atração de mídia e patrocínios, porém, não há outro ser humano no planeta com currículo e natação para protagonizá-la.

    Para mim, junta-se a fome com a vontade de comer.

    Phelps sonhava em poder não treinar, em deixar de estar sob as luzes dos holofotes e ter vida normal. Poder curtir o Lado B. Tirou o pé do acelerador e ainda amealhou vários ouros em Londres. Largou as piscina e enfiou o pé na jaca. Algum tempo depois, se deu conta de que sentir-se competitivo e poder fazer o que ele ainda pode fazer na piscina, é bem mais legal! Como o Thorpe também percebeu.

    Phelps está encarando o ciclo olímpico novamente. Vai igualar o Piu em 2016. E acredito sim, pode ganhar mais 5 ouros – ou 6, com o esquema de medalha para os atletas que classificam os revezamentos para as finais. Vamos ver o que acontece.

    Quanto ao momento em que ele realmente vai decidir parar, acredito que será mais fácil se ele não conquistar mais ouros. Senão, pode ser que ele ainda tente superar o Piu em 2020.

    Impressionante! Mais uma vez impressionante!

    • Rodrigo M. Munhoz
      17 de novembro de 2015

      Sim, o cara é único e tem chance de medalha e até ouros. Acho 5 meio exagerado, mas o cara é um fenômeno mesmo…
      Quanto a parar, acho que ele terá dificuldades diretamente proporcionais a atração pelo Lado B – o que me pareçe difícil de avaliar com precisão agora, como já expôs o Hoffmann aí em cima.
      Time will tell.
      Abraços!

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Publicado às 15 de novembro de 2015 por em História da natação, Natação, Rio 2016 e marcado , , .
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