Epichurus

Natação e cia…

O lendário recorde 2:21.99

Alguns recordes são lendários de facto, como o mundial da Janet Evans nos 400L (4:03.85) que durou quase dezoito anos, ou o mítico sub 15 do Salnikov. Mas esse aqui foi lendário para MIM e para toda a espetacular comunidade dos 200 peito da década de 80: 2:21.99, recorde brasileiro dos 200 peito, batido pelo Chicão no Sulamericano Absoluto de 1984.

A primeira vez que nadei a prova dos 200 peito no Finkel de 1984 no Pinheiros, eu tinha 14 anos e fiquei entre os últimos, talvez até O último, e já era esse o recorde do Luiz Francisco Teixeira de Carvalho, que inclusive estava lá, ganhou a prova e já estava classificado para as olimpíadas de Los Angeles. (sobre o nome, hoje ele mora nos EUA e é apenas Luiz Carvalho, mas era conhecido na natação como Chicão).

Os 200 Peito no Finkel de 1984, minha primeira prova de 200 Peito e o recorde já era 2:21.99.

Os 200 Peito no Finkel de 1984, minha primeira prova de 200 Peito e o recorde já era 2:21.99.

Daí até o dia em que o Hermeto o bateu, na mesma piscina do JD em dezembro de 1990 (detalhes aqui) esse era o recorde que a gente ouvia toda vez antes de nadar. Hoje Chicão mora em Nova York, mas como esse mundo do Facebook é muito pequeno, peguei o depoimento dele:

Em 1980, tentei ir a Moscou. O meu melhor era 1.07.5, nadei a seletiva na piscina do Flu, e fiz 1.07 e pouco, mas o Sergio Pinto Ribeiro (que tinha ido a Montreal 76) voltou a nadar naquele ano e fez 1.06 e pouco. Ele foi a Moscou, eu fiquei. Na verdade, o premio de consolação foi ir a Universíade. Eu tinha 18 anos. Foi duro, claro. No pain no gain, right?

– Nessa época, decidi ser engenheiro. Fiz vestibular etc. fase difícil. Decidi que natação não era a prioridade de longo prazo para mim. Isso sempre me acompanhou na natação. Meu ajudou muitíssimo a aliviar a tensão e aproveitar mais a coisa…

Mesmo sem dedicação exclusiva, Chicão continuou ganhando todas as provas de peito no Brasil (algumas disputas com o Maviael nos 200) e compondo todas as seleções brasileiras. Essa Universíade que ele foi de “consolação” acabou proporcionando uma de suas medalhas mais importantes, o bronze no 4×100 4 estilos (veja foto abaixo). O outro destaque foi a participação no Mundial de Guayaquil, com a final (oitavo) no 4×100 medley e o recorde brasileiro nos 100 peito (1:05.77) que era do Fiolo (1:05.99) e já durava 10 anos.

 

Entretanto, apesar do predomínio absoluto nas provas de 100 e 200 Peito, a vaga olímpica ainda não estava garantida. Naquela época os critérios olímpicos não eram muito definidos, quer dizer, na verdade não eram NADA definidos, e o Sulamericano de 1984 aqui mesmo no Brasil seria possivelmente a chance matadora. E ele aproveitou:

Lembro que alguns meses antes eu tinha nadado o Troféu Brasil muito mal, mas eu não tinha me preparado especificamente para o Troféu Brasil pois sabia que ia ter que chegar no pico mais tarde, para ter chance de ir a Olimpíada. Me preparei bem e os 200 Peito ia ser no primeiro dia de competição. Pelo Brasil nadamos eu e o Maviael Sampaio. Importantíssimo para minha prova, o Pablo Restrepo (Colombiano que treinava nos EUA) veio nadar a prova.

Restrepo foi sétimo em Moscou 80 nos 100P, quinto no mundial de 82 nos 200P e era o favorito, mas ele estava treinando duro para a Olimpíada então eu tinha mais chances dessa vez. Lembro que nadei de manhã bem tranquilo e fiquei surpreso com o 2.27. Restrepo, Maviael e eu fizemos tempos similares, mas eu fiquei em terceiro, nadaria na raia 3 à tarde. Não sabia o que iria acontecer na final mas senti que poderia conseguir o meu melhor  tempo.

Na final a noite, estava do lado de Restrepo, que nadava na 4. Achava que ele iria nadar para 2.22 ou 2.23 e sabia que ele terminava a prova bem forte. Fiz boa saída e havia decidido controlar bem os primeiros 100m, sem forçar muito. A ideia era ficar um pouco só atrás do meu maior adversário, mas minimizar o gasto de energia nos primeiros 100m. Claro que usei o Restrepo como referencia e na virada dos 100 estava menos de 1 segundo atrás. Passei em torno de 1.09.5 mas me sentindo muito bem…muito bem mesmo, esticado, tranquilo. Lembro bem dos últimos 100m. Comecei a apertar devagar, a partir dos 125 pois queria ter “gás” para os últimos 50, pois sabia que o Colombiano ia terminar forte, como sempre. Na virada dos 150m devo ter tirado um pouquinho de distancia mas ainda estava atrás. Apos a boa virada, sai “no ombro” dele. Ai “enfiei o pé” no acelerador, e como esperado, ele também. Quem nada 200P sabe da importância de manter o nado esticado, e o constante risco de “picar” o nado.  Naquele dia eu “nailed it!” Acho que passei Restrepo bem no fim no fim da prova, faltando uns 10m. Bati na placa e sabia que tinha chegado em primeiro. Mas não tinha a ideia do tempo que havia feito. Virei, vi, 2.21.99. Restrepo fez 2.22.3 or so.  Uhuuuu!  Esse dia o Restrepo ficou com a prata. O tempo me deixou em 16o lugar no ranking mundial e, em mais algumas semanas, com o passaporte carimbado para LA.

4 anos depois da decepção de não ter ido a  Moscou, minha vez tinha chegado. De quebra, não fiquei chateado de ter quebrado o recorde brasileiro do Sérgio Pinto Ribeiro, aquele mesmo que tinha me tirado de Moscou 🙂 . Agora eu tinha os recordes dos 100 e dos 200 Peito. Revendo os parciais, lembro que fiz os últimos 50m em 35.4, o que para a época era bem muito bom.

Nas olimpíadas de Los Angeles 1984, Chico fez um bom papel, 1:05.96 nos 100 Peito, e o 12º lugar no revezamento 4 estilos. Nos 200 Peito foi DQ, e ele explica a desclassificação nesse vídeo (que aposto que ele vai se surpreender ao ver!).

Mesmo tendo tido uma carreira notável, Chicão acha que não conquistou tudo o que podia na água por ter se dedicado também aos estudos e não ter dado total prioridade à natação, mas não se arrepende:

No meu caso, eu fazia engenharia eletrônica no Mackenzie, período integral, tinha minha vida própria fora das piscinas, e não estava disposto a sacrificar tudo pela natação. Eu treinava o que era possível, não o que era necessário para ser um nadador melhor do que fui. Hoje não penso nisso como certo ou errado, mas sim como uma clara opção pessoal feita la atrás, que eu não me arrependo. Em tese, acho que se eu tivesse ido para os EUA com 17 anos (quase fui para UC Berkeley) poderia ter sido melhor nadador do que fui. No Brasil não dava para treinar mais do que eu treinei e ter a trajetória de vida que eu queria. Se fosse hoje, acho que eu não teria sido nadador, ao menos no Brasil. Nunca deixaria de fazer uma boa universidade para virar “profissional” da natação no Brasil. Acho mal negócio no longo prazo. Como pai deve ser difícil aconselhar um filho ou filha nadadora no Brasil com relação a isso hoje em dia. Merece um artigo no blog. Acho que os grandes talentos da natação do Brasil devem vir treinar nos EUA numa boa universidade.

Olhando hoje, minha impressão é que ele acabou sendo vítima da falta de competições. Entre 1981 e 1984 Carvalho reinou tão absoluto no Brasil que não teve estímulo para se aprimorar mais. A impressão que me dava (só impressão) é que ele fazia sempre o suficiente para ganhar as provas aqui no Brasil, nada mais, nada menos. E quando o Cícero Tortelli surgiu no final de 1985 ele já estava na descendente e tinha outras prioridades. Perguntei se ele se arrepende de não ter mudado para os EUA na época?

Olha, sinceramente não me considero vitima de nada, muito pelo contrário.  Me considero um cara super sortudo que aproveitou demais a natação e teve experiências incríveis. Estou contente com as minhas escolhas. Nunca tive pressão dos pais, só apoio. Só tenho boas recordações. Como hoje moro nos EUA e adoro o país acho que, sim, poderia ter sido bom ter me mudado para cá antes. Provavelmente eu tivesse sido um melhor nadador. Mas acabei vindo para fazer meu MBA na UCLA (no mesmo local da “vila olímpica” de LA 84) em 1990. Quando eu acabei de fazer natação, em 86, o meus objetivos passavam muito da piscina.  Adorei minha vida na natação. Ficaram excelentes recordações e amigos para sempre.

Garantido_pelo_talento

Taí, nesse ano da minha despedida do Epichurus eu cumpro mais um papel que impus a mim mesmo: escrever sobre o lendário recorde de 2:21.99, aquele que eu tentei perseguir sem sucesso por muitos anos, e que ficou gravado nos programas da época e na minha memória para sempre.

Sobre rcordani

Palmeirense, geofísico e nadador master peba.

25 comentários em “O lendário recorde 2:21.99

  1. luizcarvalho1
    23 de maio de 2016

    Putz, Renato, que legal! Fico muito honrado e emocionado de ler isso. Grande abraço e muito obrigado pelo belíssimo texto!

    • rcordani
      24 de maio de 2016

      Boa.

      O mais legal do blog é que a gente “escreve na pedra” as histórias e elas ficam lá “para sempre”, dá uma sensação boa de “pronto, tá escrito”.

  2. Eduardo Hoffmann
    23 de maio de 2016

    Muito bacana!! Para quem foi nadador de Peito na época, é história de parte importante de nossas vidas. O Chico era o “benchmark”. Eu já disse isso no Epichurus antes, mas me lembro da eliminatória dos 100 Peito de LA 84 muito bem, que o Chico nadou ao lado do Steve Lundquist. Eu tinha isso gravado em VHS, mas, tragicamente, a fita foi descartada erroneamente… por minha mãe… Vocês não têm isso aí em video, Chico e Renato? Coloquem como adendo ao artigo!

    • rcordani
      24 de maio de 2016

      Boa Hoffmann, o Chicão está agitando isso aí, se tudo der certo postamos na quinta feira.

  3. luizcarvalho1
    23 de maio de 2016

    Obrigado, Hoffmann! Tenho a gravação dos 100P em LA. Vou enviar.

  4. Fernando Cunha Magalhães
    23 de maio de 2016

    Vivi anos admirando a natação do Chico e torcendo para o Kaminski, e depois outros colegas adeptos ao nado de peito superá-lo. Não deu!
    Grande Chico, parabéns pela carreira e pela visão do papel da natação em nossas vidas.

    • luizcarvalho1
      23 de maio de 2016

      Bons tempos! Ótimas disputas e grandes amizades. Abraço!

    • rcordani
      24 de maio de 2016

      Realmente, o Kaminski teve uns pegas com o Chico, acabou perdendo a grande maioria, mas nos 100P do Finkel de 1985, em casa, o Kaminski ganhou. Nos 200, o Chico passou uns 3 corpos atrás, soltando, até os 150, aí deu um tiro de 50, alcançou e ganhou. Foi fazer o mesmo nos 100 Peito, soltou até 75, quando começou a forçar foi tirando a diferença, quase pegou, mas o Kaminski ganhou.

      A impressão que dava é que o Chico era tão superior que podia brincar com a prova e ainda ganhar. Não sei se o técnico dele ficava contente quando ele (raramente) perdia…

      • Fernando Cunha Magalhães
        30 de maio de 2016

        É isso Cordani, Chico estava em outro patamar.

  5. Luciana
    23 de maio de 2016

    Me lembro super bem do Finkel no pinheiros em 84. Meu primeiro Finkel. Foi a primeira vez que vi o Chicão e outro atletas que estava a caminho das olimpíadas. Fiquei encantada. Super legal o post e muito legal o relato do Chico!

    • luizcarvalho1
      23 de maio de 2016

      Legal, Luciana! Lembro bem daquele Finkel! Beijo!

    • rcordani
      24 de maio de 2016

      Nesse Finkel não tinha índice, eram até dois por clube, o Pancho aproveitou para colocar a moçada para nadar com os olímpicos. Até o Prado estava (embora não tenha nadado os 400 medley).

  6. Marina Cordani
    23 de maio de 2016

    Esse negócio de nome nos programas é muito legal! O nome do Chico sempre estava lá, e eu me lembro muito bem, mas o nome que me chamava atenção era o da Ana Keila Anchieta. Eu nadava as mesmas provas que ela, e estava a anos-luz das suas marcas. Achava legal as competições com o pessoal mais velho porque ela estava lá. Olhava para a arquibancada da equipe do Pinheiros com admiração por aquela nadadora. Anos mais tarde, a encontrei pessoalmente na casa de minha prima Tetê, e fiquei sem ação! Envergonhada mesmo, por estar frente a um ídolo! Até comentei com ela, e rimos juntas, tirando sarro da situação. Mas a sensação ficou! Engraçado, né? E quando a Keila posta fotos antigas da natação, de novo lá, a sensação! Parabéns, Chico, e parabéns, Keila. Aguardo post dessa nadadora que foi a primeira paulista a baixar do 1 minuto em 100 livre, mesmo sendo fundista. Lá no defe da Água Branca.

    • luizcarvalho1
      23 de maio de 2016

      A Keila foi grande nadadora e colega em várias jornadas. Super amiga até hoje! A equipe da época era super forte e bem unida. Abraço.

    • rcordani
      24 de maio de 2016

      Por sinal o Luis Osorio, irmão da Keila, fez nesse Sulamericano de 1984 a competição da sua vida, com 3:58 de 400 e 15:50 de 1500. Referente ao post sobre a Keila, fica o convite para você mesmo fazê-lo!

  7. Rodrigo M. Munhoz
    23 de maio de 2016

    Sensacional esse post! Me lembro de ficar muito orgulhoso em 86, ao nadar os 200P pela 1a vez no Paulista Absoluto, na mesma série do Chico. Devo ter perdido feio e não lembro do tempo (óbvio), mas tava valendo, pois o cara era um ícone para os peitistas da época. Pelo que vejo no depoimento, deve ter sido uma das ultimas competições dele…interessante. Muito legal ver também os depoimentos aí em cima. Simpatizo muito com a abordagem que ele teve da natação, como simplesmente uma escolha a ser feita e aproveitada da melhor forma possível. Ele sem dúvida deixou sua marca dessa maneira. Abraços!

    • luizcarvalho1
      23 de maio de 2016

      Rodrigo, o Paulista Absoluto de 1986 foi sim minha ultima competição. Lembro que terminou num domingo e na semana seguinte avisei ao Diretor de natação do ECP na época (Marcos Souza Barros) que eu não ia nadar mais. ” No mas!”. Pelo meu lado, foi tudo planejado ja que estava me formando ao mesmo tempo. Abraço!

    • rcordani
      24 de maio de 2016

      Nadei esse Paulista Absoluto, eu peguei final contigo nos 200P, e se não me engano o sr até pegou medalha, confirma?

  8. Lelo Menezes
    24 de maio de 2016

    Sensacional o post! Obviamente pra mim esses 2´21´99 foram muito emblemáticos. Por muitos anos ele figurou nos programas, ali imbatível… Quantas veze sonhei em quebra-lo. Meu pai tinha uma fita VHS do Panamericano (acho que de 1983) e perdi as contas de quantas vezes assisti a prova do 100m peito, com o Chico terminando em 5o se não me engano. Prova que tinha Lundquist, Moffet e Restrepo, numa época que o panamericano era uma competição fortíssima com os EUA levando seu time A.

    Eu quebre o recorde brasileiro dos 200m peito na curta com 2´16, mas nunca cheguei perto desse tempo na longa… Fiolo, Chico e Cícero foram os 3 maiores peitistas brasileiros até pelo menos a minha geração. Monstros!

    • rcordani
      24 de maio de 2016

      Boa essa do VHS de 1983, será que estão nos nossos DVDs? E como já dito, o sr era peba em longa mesmo…

      • Lelo Menezes
        24 de maio de 2016

        deve estar nos DVDs sim. Dá uma olhada. Se não me engano é o PAN que o Prado bateu o WR

    • luizcarvalho1
      24 de maio de 2016

      Que legal, Lelo, 2.16 em curta! Parabens! Bem lembrado, os Pans daquela epoca eram para valer. Recordes mundiais e tudo…

  9. Alexandre Hermeto
    28 de maio de 2016

    Cordani, excelente post. Lembro da prova do Sul-americano do Rio, não lembrava dos detalhes mas estava lá e lembro do recorde do Chico! Nadando pelo Flamengo na época, sempre acompanhava os duelos entre o Maviael e o Chico nos 200 peito. Com certeza um dos grandes nadadores de peito do Brasil!

    • rcordani
      29 de maio de 2016

      Boa Hermeto, sim, e fui testemunha de como você perseguiu esse recorde. E pensando agora, talvez tenha sido esse seu maior objetivo, pois justamente o dia em que você o bateu consistiu no seu auge!

  10. Pingback: A despedida | Epichurus

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