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Esse bronze vale ouro?

Os Jogos Olímpicos de Londres do Rio de Janeiro começarão em menos de uma semana, e no decorrer deles vamos ter o desgosto de ouvir a frase “essa medalha de bronze vale ouro” várias vezes. Sejamos realistas: ouviremos essa fatídica frase praticamente em TODAS as medalhas de bronze brasileiras, com exceção de um eventual bronze no futebol masculino!

Não existe frase mais infeliz do que essa, mas então por qual razão ela é tão popular entre os nossos infelizes narradores olímpicos?

Para começar, no afã de entreter os telespectadores, que presumivelmente só vão assistir determinada prova se houver brasileiro com chances de medalha, o locutor ou comentarista é O-BRI-GA-DO a dourar a pílula, e inventar chances muitas vezes inexistentes (veja aqui um bom texto sobre o assunto). Por uma questão estatística, já que apenas uma pequena parcela dos atletas obtém medalha, na grande maioria das vezes o espectador é frustrado com um “fracasso”, ou seja, uma participação não laureada.

Numa dessas, em poucas e iluminadas vezes um atleta brasileiro consegue por exemplo o bronze! Alvíssaras! Aí, na emoção da medalha de bronze conquistada vem a tradicional descrição do esforço pessoal e superação do atleta brasileiro, em vídeos previamente gravados, com a mãe, o pai e a avó do sujeito, tudo feito de forma tão emocional e particular (como se o medalhista de ouro e o de prata não houvessem também se esforçado e se superado) que o locutor quase nunca se esquece de mencionar que “esse bronze vale ouro”!

Mas esse bronze vale ouro mesmo? Em primeiro lugar, o óbvio: um bronze vale bronze, uma prata vale prata e um ouro vale ouro, sem exceções (*). Se o infeliz narrador diz “esse bronze vale ouro” (e acreditem, ele vai dizer isso várias vezes) no fundo ele está querendo dizer que bronzes em geral não são tão legais assim, a não ser AQUELE bronze em particular, pois AQUELE bronze valeria ouro. Ocorre que nem mesmo AQUELE bronze vale ouro, pois como dissemos, aquele bronze vale bronze mesmo e há um medalhista de prata e outro de ouro na mesma prova, esse último sim com uma medalha que vale ouro. Resulta que o sujeito inadvertidamente acaba por desvalorizar a conquista.

Medalha de bronze olímpica é tão sensacional, mas tão sensacional, que fala por si só. Outro dia, durante a participação PEBA em Ribeirão Preto (detalhes), um integrante desavisado desta prestigiosa equipe ao ver, atônito, o atleta 50+ Marcus Mattioli ganhar todas as suas provas com o pé nas costas e ser informado que o mesmo havia obtido cinco seis medalhas de ouro no último Mundial Master, perguntou-me se esse tal de Mattioli era bom quando jovem. Bastou-me o seguinte comentário “ele é bronze olímpico, amigo” para o colega saber EXATAMENTE quão bom Matiolli foi quando jovem. (nesse momento – ioff – abaixamos a cabeça e fizemos alguns segundos de reverência ao bronze de Mattioli em Moscou – reveja aqui). Bronze olímpico é isso: algo absoluto, indelével e, como dizíamos, sensacional.

Essa tá na parede do Mattioli, e vale bronze.

Portanto, da próxima vez que vocês ouvirem algum infeliz dizer “esse bronze vale ouro”, não deixem barato, reclamem, gritem, reajam! Esse bronze vale bronze, irmão, e medalha de bronze olímpica é espetacular.

 (*) OBS – como disse o Patrick nos comentários, existe sim uma exceção, o Wanderley Cordeiro de Lima na maratona de 2004.

Sobre rcordani

Palmeirense, geofísico e nadador master peba.

23 comentários em “Esse bronze vale ouro?

  1. Lelo Menezes
    24 de julho de 2012

    Boa! Esses jargões jornalísticos são de matar mesmo. Tão ruim quanto os jargões é ficar ouvindo a musiquinha do Ayrton Senna toda vez que rola uma medalha! o problema da cobertura olímpica é que vão pro 8 ou pro 80. Ou você tem aqueles jornalistas especializados em futebol tentando cobrir outros esportes como o Álvaro José, Galvão Bueno, Elia Júnior e você ouve além dos jargões, os absurdos como “peito é o mais lento dos 8 estilos” ou “fulano é aquele de gorrinho azul” ou você tem ex-atletas ou técnicos sem nenhum treinamento jornalístico que acabam usando termos muito técnicos como “filipina”, “polimento” e os leigos perdem o interesse! É raro alguém que narre bem algum esporte, fora futebol! Já imaginou se na natação tivéssemos alguém como José Silvério? Talvez o sr. Mario Xavier. Agora, cá entre nós, aquele seu bronze nos 200m peito no Troféu Brasil depois de três ou quatro 4º lugares seguidos teve um pouquinho de gosto de ouro vai?! Rsrsrsrs!

    • rcordani
      24 de julho de 2012

      É verdade Lelo, aquele meu bronze valeu ouro, passe lá em casa hoje de noite para trocar a sua medalha com a da minha pessoa…

  2. rmmunhoz
    24 de julho de 2012

    No circo midiático, tudo isso é previsível, mas alguns comentaristas exageram na dose de sentimentalismo, aliado a um patriotismo meio descabido. O pior é que acho que funciona (i.e. aumenta audiência…) entre uma boa parte dos espectadores, em especial aqueles com menos afinidade esportiva e que ficam mais desapontados com a “falta de ouros brasileiros” eventuais.
    Obviamente, para aqueles que já praticaram um esporte com seriedade, o simples fato de participar dos Jogos Olímpicos já é uma conquista monumental. Qualquer medalha que venha, coroa anos de esforços e garante uma vida de histórias de conquistas.
    Ao notar que o narrador vai seguir o caminho curto para “aumentar IBOPE”, há opções: Assistir as provas Olímpicas com a TV no “mudo” ou com um narrador estrangeiro e/ou bem especializado no esporte é sempre uma opção a ser considerada… Recomendo!

    • rcordani
      24 de julho de 2012

      Esse “patriotismo meio descabido” também aparece quando uma prova perde o interesse da emissora quando não há brasileiro em disputa. Tipo, o brasileiro perde a semifinal do judô e a emissora desiste de transmitir a final!

  3. Marina Cordani
    24 de julho de 2012

    Acho que essas narrações são sob medida para minha avó. Ela fica realmente brava quando está assistindo o Brasil jogar, nadar, correr, e eles perdem. Parecem que fizeram uma ofensa pessoal a ela. Quando eu nadava, ela sempre queria saber por que eu, que treinava todos os dias, não tinha ganho a prova. Não adiantava explicar que todas as outras também treinavam todos os dias! Ela sempre torcia o nariz. Então, se o repórter fala para ela que aquele bronze é igual ao ouro, capaz de ela não ficar tão brava…

    • rcordani
      24 de julho de 2012

      Realmente uma grande figura essa sua avó…

  4. Patrick Winkler
    25 de julho de 2012

    Renato Cordani! Concordo 99,99% com o texto! Mas eu utilizaria a frase em episódios singulares como a prova da maratona de corrida de Atenas 2004. Na ocasião Wanderley Cordeiro de Lima ganhou um bronze que valia ouro…..

    • rcordani
      25 de julho de 2012

      De fato Patrick, no caso do Wanderley a frase era aplicável. Até editei o texto…

      • Lelo Menezes
        27 de julho de 2012

        Leigo que sou, lembro de ter lido texto de algum expert que o Wanderley não ganharia nunca aquele ouro mesmo sem o louco pegando ele! Mas nunca saberemos de fato…

  5. Fernando Magalhães
    25 de julho de 2012

    O bronze vale bronze e é espetacular… gostei.
    Acho que junto com o futebol está o vôlei, em Pequim a prata do masculino já “não valeu” ouro, mas eu achei espetacular.
    Vai Brasil!!!

  6. Fernando Magalhães
    25 de julho de 2012

    E não é que sintonizei o 539 e me deparei com o Galvão comandando a mesa redonda do programa olímpico do SporTV… que dureza.

    • rcordani
      26 de julho de 2012

      Galvao é dureza mesmo. Sem a Globo, eu achei que estávamos livre dele. Eu aposto que o pessoal do SporTV deve estar phuto com a presença dele lá.

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Publicado às 4 de agosto de 2016 por em Natação, Olimpíadas e marcado , , .
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