Epichurus

Natação e cia…

Santo Senna!

Fui almoçar hoje numa tradicional cantina de São Paulo e de repente, na mesa ao lado, dois carecas de meia idade precisam ser separados pelos amigos para não chegarem as vias de fato.  A cena em si foi ridícula, mas a discussão dos dois me levou de volta quase duas décadas e decidi escrever sobre ela, ate porque tem muito a ver com o dia de hoje (ontem quando esse texto for ao ar).  O motivo da briga conto daqui a pouco, logo depois de voltar quase 20 anos no tempo.

Acordei cedo na segunda-feira, 02 de Maio de 1994, e fui a pé pra faculdade.  Estava um baita sol, como de costume no Arizona e decidi parar no caminho pra comprar um Gatorade gelado antes de encarar a chatíssima aula de calculo IV.

A famosa Palm Walk na ASU, meu caminho para as aulas de engenharia

A famosa Palm Walk na ASU, meu caminho para as aulas de engenharia

Ao entrar na sala de aula um amigo se aproximou e disse “Cara, li agora a pouco que morreu um piloto brasileiro!”.  Perguntei quem foi e ele não sabia dizer.  Na hora pensei em alguém da formula Indy ate porque americano não curte e não acompanha Fórmula 1.  Nem cheguei a dar importância pro assunto.

Sai da faculdade depois do almoço e voltei pra casa.  Ao chegar notei que haviam duas mensagens do meu pai na secretária eletrônica.  Eu tinha um acordo com os velhos onde eu ligava pra casa todo Sábado na hora do almoço.  Pelo preço da ligação não nos falávamos em nenhum outro dia.  Duas ligações dele, numa segunda-feira, só podia ser notícia ruim e urgente.  Pra piorar minha ansiedade, a voz nas mensagens estava angustiada, triste.  Pronto, alguém da família morreu!

Liguei imediatamente e ele atendeu!  Foi me enrolando aos poucos, perguntando se eu já sabia da triste noticia.  “Sabia do que???” Notei a voz comovida e a dificuldade de me contar o que acontecera.  Nesse momento eu já tinha certeza que quem morreu era próximo.  Comecei a ter aquela sensação de mau estar.  Quem seria?  Minha mãe, meu irmão, irmã? De repente com a voz embargada, ouvi as palavras “O Ayrton Senna morreu”.

Minha primeira sensação foi de um baita alivio.  Ufa!  Logo em seguida soltei os cachorros “Porra pai!  Você só pode ta de brincadeira me ligando aqui, fazendo mistério, com voz de choro, pra dizer que o Senna morreu!  Foda-se o Senna casseta!  Eu aqui achando que a mãe morreu porra!”  Com certeza não foi uma das minhas respostas mais politicamente corretas, mas eu estava tão angustiado que foi o que me veio como primeira reação.  Depois que acalmei, meu pai me contou os detalhes e entendi que o Brasil estava de luto.

O Brasil parou!

O Brasil parou!

De volta aos dias de hoje, a frase acima “Foda-se o Senna” com certeza deve ter provocado a ira de aproximadamente 92,65% dos nossos leitores.  No mínimo fui chamado de herege.  A discussão dos carecas no almoço, foi por algo parecido.  No dia do GP do Brasil, um deles cometeu o pecado de ter dito que o Piquet foi mais piloto que o Senna.   O outro não gostou nada e a discussão acalorada quase descambou pra violência física.

Quero deixar claro aqui que não tenho absolutamente nada contra o Senna, muito pelo contrario.  Foi um piloto fora de serie, me parecia uma boa pessoa, caridosa, patriota, embora sua timidez me passava uma imagem não muito simpática.  Meu pai era fanático por Formula 1 e cresci assistindo os embates entre o Piquet e o Mansell e mais tarde entre Senna e Prost.  Torcia bastante pelos brasileiros, embora o “esporte” elitista nunca tenha me fascinado.  Com a ida aos Estados Unidos passei a assistir cada vez menos.  Apos a morte do Senna então, só quando vinha ao Brasil, pra fazer companhia ao velho e depois que o Barrichello parou pro Schumacher vencer, decidi nunca mais assistir F1.  Hoje não consigo nem ler sobre o assunto.

Tenho uma baita curiosidade no entanto de entender como o Senna se tornou o maior ídolo brasileiro da historia.  Como um cara tímido, que passou grande parte da vida fora do Brasil, praticante de um esporte exclusivo de uma elite mínima, mais business que esporte na verdade, e que justamente por isso não deveria ter apelo para 99,99% da população brasileira, assim como polo ou golfe, se tornou essa lenda tão reverenciada? Convenhamos que o Senna é praticamente visto como um santo por grande parte dos brasileiros, ou quem sabe um Tiradentes dos tempos modernos.  Ouse falar mal do cara e se de por satisfeito se não for agredido fisicamente.  Alias, não duvido nada que em breve algum nobre deputado crie o dia do Senna e o torne feriado nacional.  Aguentamos a Galisteu na mídia a duas décadas por causa dele.  Ate o sobrinho teve varias portas abertas pelo forte sobrenome.

Haja paciência pra aguentar a Galisteu por 20 anos.

Haja paciência pra aguentar a Galisteu por 20 anos.

Algumas pessoas vão dizer que foi a TV Globo.  A emissora mais poderosa do Brasil fez ate presidente, porque não conseguiria fazer um ídolo?  Convenhamos que se a Formula 1 fosse transmitida exclusivamente pela Rede TV provavelmente ninguém lembraria do Senna.

Muitos dizem que foi por ter sido o maior piloto de todos os tempos, o que é bem questionável porque Piquet e Fittipaldi tem currículos parecidos e internacionalmente pilotos como Schumacher e Vettel tem currículos superiores.

Outras vão dizer que era sua natureza caridosa.  Senna era muito religioso e chegou a doar muito dinheiro para causas sociais, tudo feito meio no anonimato.  Mas vamos pegar o lateral esquerdo Roberto Carlos que construiu uma das melhores UTIs infantis do Brasil em sua cidade natal de Araras, e nem por isso é reverenciado.  Alias, muito pelo contrario.  O cara ficou marcado negativamente por aquela agachada para arrumar as meias no jogo contra a França em 2006.  Outros grandes atletas como Cafu também fazem muito por causas sociais e não tem nem de perto o mesmo reconhecimento.

E o Pelé? O maior jogador do esporte mais popular do mundo, considerado por muitos como o maior atleta da historia e brasileiro ainda por cima.  Nem ele acho que tem a mesma moral do Senna.  Pode ser que o Romário tenha razão.  “Com a boca fechada, o Pelé é um poeta” e quem sabe inúmeros depoimentos de questionável moral tenham aos poucos minado a figura do eterno camisa 10.

Mas espera só um minuto.  Pra virar santo tem que morrer e todos esses caras ai mencionados estão vivos.  Pois é!  Esse me parece um detalhe importante.  No entanto atletas tão bons ou melhores do que o Senna já se foram e estão longe do mesmo apreço como João do Pulo, Garrincha, Adhemar Ferreira da Silva, Guilherme Paraense, Sócrates e Didi, pra mencionar apenas alguns exemplos.

Sei lá, quem sabe o Senna era completo.  Atleta fora de serie, pessoa exemplar, patriota, religioso, filantrópico, morreu cedo e quem sabe com tudo isso, num país carente de ídolos (olha o Aurélio Miguel envolvido ate o pescoço em corrupção) e com um empurrãozinho da Globo deu a combinação perfeita pra torná-lo um grande ídolo.

Talvez eu seja o único brasileiro que não considero o Senna como um dos meus principais ídolos do esporte brasileiro.  Espero que ninguém me manda uma carta com césio 137 por causa disso.  Embora eu ache impressionante que eu e o Brasil todo sabe exatamente o que estava fazendo quando o Senna morreu.  Agora, duvido alguém lembrar o que fazia quando morreu nosso bi campeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva.

E então?  Algum tem a explicação do porque tanta idolatria a um piloto de F1?

40 comentários em “Santo Senna!

  1. Rogério Romero
    25 de novembro de 2013

    Lelo, concordo com você, a morte precose – no auge – favoreceu o mito.

    Nosso Subsecretário da Juventude diz que esta é uma das datas que todo brasileiro se lembra e você com este relato, mesmo não sendo um fã, é a comprovação disso.

    Pessoalmente não recordo, mas lembro de uma festa de final de ano da Globo para o Esporte em 88 onde eu e a Patricia Amorim fomos convidados. Senna apareceu por apenas alguns minutos e foi o suficiente para monopolizar a atenção.

    Consegui um autografo para minha irmã num discreto guardanapo. Karen, 20 anos, já está na hora de vender para algum japonês…

    • Lelo Menezes
      25 de novembro de 2013

      Boa Piu. Acho que esse autografo ai deve valor uma boa grana hein! Pede pra Karen guardar mais um pouquinho que algum maluco japonês capaz de trocar por uma bela fortuna.

      abs

    • Karen Romero
      3 de fevereiro de 2014

      kkkkk não vendo , não vendo , não vendo…. com dedicatória? NEVER!!!!!!

  2. Rodrigo M. Munhoz
    25 de novembro de 2013

    O mesmo aconteceu nos EUA com o assassinato do JFK nos anos 60. Quem era vivo na época, lembra onde estava quando recebeu a traumática notícia.
    Nesse data da morte do Senna, eu morava em Columbia, MO – na Waugh st…meu 2o ano fora do dorms. O meu compadre Vitinho estava visitando de passagem pela cidade e não falava inglës muito bem, mas assistia todos programas de esporte… Veio me procurar dizendo: “Aconteceu alguma coisa com o Senna e acho que foi sério!”. Logo depois, num boletim da ESPN, ouvimos a notícia da curva tamburello… triste. Também lembro da comoção, nacional que formou o mito, mas honestamente, não acompanhava tanto a F1 fazia anos. Depois é história somada ao reforço midiático que vimos.
    Só não lembrava do Lelo ter esse rancor do Senna 😉 … De qualquer forma, sem querer, o Senna deixou o esporte no auge – uma recomendação do próprio Lelo. (Senna poderia ter ido além do que fez? Eu acho que sim, mas é pura especulação, admito)
    Abraço, meu caro e polëmico amigo!

    • Lelo Menezes
      25 de novembro de 2013

      Boa Munhoz, essa de largar o esporte no auge é fundamental, embora no caso dele tenha sido uma fatalidade (literalmente) do destino. O Senna morreu com 34 anos, com 10 anos de F1. Acho que teria mais uns 2-3 anos pela frente, embora se pensarmos friamente daria pra dizer que tava mais pra final de carreira do que pra auge. Seu tricampeonato se deu em 1991, três anos antes da sua morte. Em 1992 teve má performance. Em 1993 deu uma reviravolta e foi vice-campeão. Em 1994 foi pra Williams e foi péssimo nas primeiras duas corridas da temporada. Morreu na terceira! Foi o ano de Schumacher, que conquistou seu 1o titulo mundial. Daria pro Senna conquistar o tetra? Os fãs dirão que sim. Friamente acho que não. De 1994 pra frente só deu Schumacher com impressionantes 7 campeonatos mundiais.

  3. Marcelo Abdo
    25 de novembro de 2013

    Lelo,

    assista o filme Senna que vc entenderá. Eles fazem um bom paralelo com o momento político-econômico do país e explicam como um piloto pode representar todos os anseios e dificuldades de um povo!

    Abs
    Abdo

  4. Fabio Yamada
    25 de novembro de 2013

    Lelo, gosto muito de automobilismo, o que me torna um pouco suspeito (ou não) para falar – comprei o documentário do Senna e já li diversos artigos sobre a carreira e morte dele.
    Nos anos 80 o Brasil estava na m. Junte isso com o fato que brasileiro gosta mesmo é de campeões. Quando a Daiane dos Santos começou a ganhar tudo, um amigo disse, com propriedade, que o Brasil, em breve, se tornaria o “país da ginástica olímpica”. Em cima de tudo isso, jogue uma pitada dessa nossa mania de endeusar quem morreu. Para ficar num exemplo fácil, veja as manifestações de “carinho” ao Quércia – de uma hora para outra, ele se tornou “um grande estadista”.
    Para mim, é muito claro o que aconteceu. O Brasil precisava desesperadamente de ídolos, Senna foi bem demais e morreu no auge. Do ponto de vista da mídia, ele certamente se beneficiou da exposição que Fittipaldi e Piquet trouxeram ao esporte. Mas ele acabou “eclipsando” os demais. Pouca gente se lembra, por exemplo, que o Piquet foi campeão pela terceira vez em 87, um ano antes do Senna ganhar seu primeiro título.
    Dito tudo isso, em uma pesquisa feita em 2012 com todos os pilotos de fórmula 1 então em atividade, apontou o Senna como o melhor piloto de todos os tempos. Até mesmo o Schummy, que então corria, votou para o cara. Vai entender…
    Para finalizar, entendo totalmente o seu “foda-se o Senna”. Eu teria dito a mesma coisa…
    Abração
    Fábio

    • Lelo Menezes
      25 de novembro de 2013

      Legal Yamada! Acho que o Senna deve ter sido um ídolo para essa nova geração, inclusive pro Schumacher, portanto o voto deve ter muito a ver com isso, embora deixando a emoção de lado, é incontestável que o Schumacher, pelo menos até hoje, foi o maior piloto de todos os tempos.

      abs

  5. Aécio Amaral
    25 de novembro de 2013

    O segredo para uma celebridade virar mito parece ter três pré-requisitos (é assim que se escreve hoje?):
    1- Ser o melhor no que faz e morrer jovem, no auge da carreira;
    2- Já possuir uma legião de admiradores;
    3- Tragicamente.

    Foi assim com Janis Joplin, com Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Kenedy, Marylin Monroe, Bruce Lee, John Lennon e muitos outros.
    Se morre velho, de forma natural e/ou decadente, dificilmente vira mito. O já citado Ademar Ferreira da Silva, João do Pulo, Frank Sinatra, Juan Manoel Fangio (prá falar das corridas).
    Ronald Reagan, presidente e ator, nem assim virou!

    Vamos testar? Quem é mais mito, Getúlio Vargas, que se suicidou no exercício da presidência, ou Jânio Quadros que morreu de velho? John Lennon (assassinado) ou George Harrison (câncer)?

    Mas alguns contrariam minha regra:
    A carreira decadente não prejudicou a formação dos mitos Elvis e Raul Seixas.
    A idade não prejudicou o sucesso post-mortem de Ghandi.
    A morte trágica não foi suficiente para o João Paulo (dupla com Daniel) ou Gonzaguinha.

    Por aqui, hoje, parece que não temos novos pretendentes. O Chorão, do Charlie Brown Jr, já perdeu a oportunidade…… e acredito que, se o Eike Batista tivesse morrido há um ano e meio, seria sério candidato!

    • Lelo Menezes
      25 de novembro de 2013

      Interessante os pontos Aécio. Eu só acho que o que diferencia o Senna de todos os citados ai é que eles são de fato ídolos, mas o Senna me parece ser mais que isso pro brasileiro. É quase um status de santo, que obviamente Joplin, Kobain, Kennedy e os outros não tem. Talvez o Lennon seja mais parecido porque falar mal do Lennon também é sinônimo de se dar mal em qualquer rodinha. Já falar mal do Kobain não deve ter muito problema não.

      abs

      • Aécio Amaral
        27 de novembro de 2013

        Olha, aqui em Campinas tem a Avenida Ayrton Senna. É pequena, não mais que uns 700 metros, e tinha outro nome antes da morte dele. O curioso é que essa avenida liga o Brinco de Ouro (Estádio do Guarani) ao Majestoso (da Ponte Preta), e foi rebatizado assim porque naquele dia as duas torcidas gritaram o esmo nome, e ele foi, portanto, a única pessoa no mundo capaz de unir bugrinos com pontepretanos!

  6. Rodrigo Guedes
    25 de novembro de 2013

    No dia da morte do Senna eu estava participando da 1ª etapa do Projeto Nadar (uma grande competição – talvez a maior – para nadadores de SP nos anos 80/90) no Constâncio Vaz Guimarães (Ibirapuera).

    Lembro que eu estava no balizamento dos 50 metros livre, que na prática era uma fila imensa de nadadores , quando a notícia começou a se propagar e causou um tremendo alvoroço.

    Normalmente as etapas aconteciam aos sábados, mas naquela ocasião, por algum motivo foi realizada no Domingo pra desagrado do meu pai e de muitos outros pais, que perderiam a corrida. Lembro de vários pais (inclusive o meu) se acotovelando na lanchonete pra assistir a prova de Monza e depois meu pai no carro, acompanhando o desenrolar da situação pelas notícias do rádio esquecendo completamente das provas que o filho ainda ia nadar rsrs.

    O clima de tristeza na competição era evidente e o estado de saúde do piloto era o único assunto que rolava na longa espera do balizamento.

    Quanto à idolatria ao Senna, também concordo que a morte trágica e prematura contribuiu muito pra isso, mas só elevou o Ayrton a este patamar porque em vida ele criou uma imagem muito vinculada ao patriotismo, superação (Interlagos 1991 é algo incrível) e coragem (enfrentamento de dirigentes, parar corrida pra socorrer outro piloto acidentado, terminar prova empurrando o carro…) atitudes que, vistas no contexto político que vivíamos à época, sobressaltavam as qualidades do piloto.

    Hoje eu consigo analisar sob este foco, mas na época, aos 16 anos, pra mim ele era um grande ídolo simplesmente porque fazia ultrapassagens incríveis, pilotava ainda melhor na chuva enquanto todos os outros rodavam, era Corinthiano e tinha orgulho de ser e mostrar que era brasileiro.

    • Lelo Menezes
      25 de novembro de 2013

      Pô Rodrigo, eu tava emocionado até você mencionar o Corinthians. Aí estragou o poema! rsrsrsrsrs!

      Brincadeiras a parte, acho que o grande diferencial mesmo era esse patriotismo dele, algo tão raro de se achar no brasileiro.

      abs

  7. Raul
    25 de novembro de 2013

    Não deve ser só uma coisa, na verdade são várias, como já citaram: mídia, momento sócio-econômico da época, carência de ídolos, morte precoce, etc… Mas acho que o fato do cara vencer provas diante de todo o mundo e sair balançando a bandeira do Brasil dentro do carro, passou a representar muito para as pessoas. Era alguém importante e com exposição batendo no peito e dizendo (por minhas palavras): “Sou brasileiro, foda-se”.

    • Lelo Menezes
      25 de novembro de 2013

      É por ai mesmo Raul. Um dos poucos brasileiros que de fato levou o nome do Brasil ao topo do pódio com orgulho e patriotismo.

      abs

  8. Sidney N
    25 de novembro de 2013

    Lelo,antes de mais nada, parabéns pela coragem por expressar de maneira aberta uma opinião pessoal sobre um tema geralmente visto como consenso.

    Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para explicar a falta de auto-estima do brasileiro, reforçada pela hiperinflação e crise política com o impeachment final dos anos 80 e começo dos anos 90. O fracasso no futebol só viria a agravar o problema do amor próprio.

    Nesse contexto aparece um jovem audaz, ambicioso e boa pinta. Ao contrário de Piquet, em quem a auto-confiança e a arrogância eram indistinguíveis, Senna parecia discreto e modesto fora das pistas. No inconsciente coletivo, simbolizava o arquétipo do vira-lata que tinha dado certo,

    Lembro bem do dia em que o corpo do piloto foi transportado pelas principais vias de São Paulo. Estava nas redondezas da Avenida Paulista com a 23 de maio e, como todos os presentes, compartilhei de perto a comoção do momento. Mas também não pude deixar de pensar que tantos outros, dentro e fora do esporte, talvez merecessem reconhecimento semelhante,

    Hoje imagino se o problema não é a falta de ídolos, mas a carência de heróis. Não tanto pela ausência de personagens e atos de valor, mas pela limitada visão que temos da nossa própria história.

    Abraços

    • Lelo Menezes
      27 de novembro de 2013

      Valeu Sidney. Interessante a diferença entre o ídolo e o herói. Não tinha pensado nesse ângulo, mas concordo. Acho que é por ai mesmo! E de fato, a arrogância do Piquet deve ter prejudicado a imagem dele.

      abs

  9. POR
    25 de novembro de 2013

    “Interessante esse tópico não ? “altamente instrutivo,cacete…porque não falam de natação que é o que sabe e mesmo assim só de memórias pessoais que não tem nada a ver, feliz o país que tem ídolos como o Senna,ele não lhe pareceu simpático ? problema seu…voce também nunca foi simpático e nadador mais ou menos e nem por isso tenho que ficar falando aqui,lamento…falou merd…ouviu bost…. se liga ! conselho : não tem assunto, fica calado ! afff

    • charlaodudo
      25 de novembro de 2013

      Pois é POR, o Lelo está merecendo um paschu faz tempo. Acho que vamos conseguir mais adeptos para darmos esse presente para ele.

      • pacheco
        26 de novembro de 2013

        Se juntar o POR e os outros 20 “aliases” dele, da pra pegar o Lelo facil!

        pacheco

      • Eduardo Estefano
        27 de novembro de 2013

        Paschu no Corvo Djá! E esse livro Corvo? Vai sair quando? Tá todo mundo na expectativa.

  10. Leonardo Ribas Gomes
    25 de novembro de 2013

    Lelo,
    parabéns pelo texto. Vou te dizer que acompanho sua antipatia pelo Senna, mas diferentemente sempre gostei de Fórmula 1. Só que sempre torci pro Piquet. Mesmo assim lembro até hoje onde estava quando o Senna morreu, e lembro de ter soltado um “foda-se” também.
    Revendo esse assunto hoje (parabéns também pela diversificação de assuntos no Epichurus), percebo que ele foi importante sim, mas muito do mito se deve a carencia que o povo brasileiro tem de heróis, aliado a um mega drama criado pelo Globo para transformar o cara em herói.

    • Lelo Menezes
      27 de novembro de 2013

      Valeu Cheiro! Tenho certeza que seu amor por F1 é inclusive muito maior que seu amor pelo Paranaense que hoje com certeza se consagrará campeão da Copa do Brasil! rsrsrs!

      abs

  11. rcordani
    25 de novembro de 2013

    Excelente o texto e sobretudo os comentários. Pessoalmente estou mais como o Lelo: admiro o esportista e não entendo a louvação ao ídolo. Ao ler os comentários acima aprendi bastante!

    Eu estava em São Paulo mesmo e soube da notícia pelo Claudio Carsugui no domingo de manhã quando liguei para saber como tinha sido a corrida.

    Eu esperava que o Senna finalmente ganhasse a corrida (se não me engano era a quinta do ano, e o Shummacher tinha ganho as primeiras quatro) e disputasse o título, ele que mudou nesse ano da McLaren (que estava péssima) para a Willians (que tinha o melhor carro, tanto que o Damon Hill tinha sido campeão no ano anterior), não é isso?

    • Daniel Takata
      25 de novembro de 2013

      Renato, sua memória para natação é ótima, mas para Fórmula 1 digamos que não está no mesmo nível! A corrida era a terceira do ano e no ano anterior o campeão havia sido o Prost.

      • rcordani
        25 de novembro de 2013

        Haha, grato, achei que o Lelo tinha errado isso aí mas vejo que não!

  12. Fernando Cunha Magalhães
    25 de novembro de 2013

    Eu estava na piscina de soltura de uma competição de masters no Clube do Golfinho, passou alguém, eu perguntei: “já foi a largada?” – “já, e o Senna bateu”, pensei “ih, desse jeito vai ser difícil ganhar o campeonato”.

    Eu também torcia pelo Piquet enquanto os dois duelavam e andava indignado com o Senna, desde que ouvi a declaração dele, enquanto corria pela McLaren, de que pela Williams correria até de graça. Achei aquilo um absurdo, uma falta de ética, muito diferente da postura que tinha na Toleman, Lotus e no início dos tempos da McLaren.

    Tudo mundo erra e ele foi infeliz naquela declaração. Eu estava torcendo pelo tetra.

    Passando em frente a lanchonete, vi um monte de gente em silêncio sepucral e com o helicóptero na pista e entendi a gravidade do acidente. Perguntei quem era. Tomei um susto ao saber que era ele, quando ouvi o “Senna bateu”, havia pensado em uma batida trivial.

    Quando alguém falou “acho que morreu” fiquei chocado. Saindo do Golfinho fui para um churrasco na chácara do sogro, aquela discussão rolando no carro – “será que ele tem chance?” – chegando lá ligamos a TV e em poucos minutos entrou a edição extra na Globo e Roberto Cabrine confirmou a morte.

    As torcidas cantaram o nome dele nos jogos da tarde de domingo, foi sim um dia muito triste, mas aquele Fantástico sensacionalista ampliou o sentimento da nação e o luto se instalou.

    Minha mãe tem uma loja, de 2a a 5a – dia do enterro, não entrava ninguém, não vendia nada.E meu pai ligou a TV e restava aos donos e funcionárias acompanhar todo o velório na Assembléia Legislativa e o funeral. Xuxa acolhida pelos Senna da Silva, Galisteu execrada…

    Não senti como a perda de um ídolo, muito menos do maior ídolo brasileiro, mas senti como uma tragédia a perda de um jovem talentosíssimo, que havia se tornado o melhor do mundo (em 3 anos) fazendo aquilo que amava, que fazia um bem tremendo para o nosso país, isso que as ações beneficentes ainda eram desconhecidas na época, ajudava a girar a economia, não era perfeito, mas certamente um homem muito bom.

    Por isso, Lelo, meu amigo, não consigo entender como você pode ter pensado e dito “F… o Senna!”.
    Foda-se os traficantes, os corruptos, os ladrões, assassinos, estupradores, sequestradores.
    E viva o Senna!
    Mesmo sem ser o maior atleta brasileiro ou Top 3 entre os maiores pilotos de todos os tempos.

    • Lelo Menezes
      27 de novembro de 2013

      Calma Esmaga! O Meu “Foda-se” pra ele não significa que eu desejava algo ruim pra ele. Foi um desabafo do momento. Mais ou menos como quando você xinga o goleiro do Atlético de FDP quando ele toma um frango, mas na verdade você não tem nada contra a velhinha mãe do cidadão que com certeza não vende o corpo por dinheiro.

  13. LAM
    25 de novembro de 2013

    Aí Lelo,
    Eu não gostava do Senna na época, mas estava assistindo a corrida naquele dia, fiquei arrependido após conhecer mais sobre suas atitudes filantrópicas.
    De qq maneira, para voltar a gostar da F1, recomendo o filme q está em cartaz “Rush”, o melhor do ano.

    • Lelo Menezes
      27 de novembro de 2013

      Esse tá na fila LAM. Todo mundo que assistiu achou um filmaço!

  14. Felipe Guarnieri
    25 de novembro de 2013

    Lelo,

    Na minha opinião foram dois os fatores que aconteceram em conjunto, o momento do Brasil na década de 1980 e a sua própria personalidade.

    1. O Brasil precisava de alguém assim. Num época onde a economia ia mal, empregos eram poucos, inflação era alta, a ressaca pós milagre econômico, o Brasil tentando encontrar a sua identidade, a sensação de que nosso país não valia nada, que aqui nada dava certo, aquele complexo de vira-lata no No momento máximo. De repente aparece um herói humilde, que personificava aquilo que no fundo as pessoas queriam ver, o vitorioso, o dedicado, o cara que era sacaneado pelo sistema (lembra quando o Ballestre roubou dele aquela vitória no Japão para dar o título ao conterrâneo Prost?), mas que conseguia dar a volta por cima. Ele representava um Brasil que dava certo, isto mexia com a moral das pessoas. Ele era um “guerreiro singular” aquele que nos representa por ser o melhor, por reestabelecer o nosso orgulho. São nos momentos de crise que surgem os Kennedys, Churchills e Sennas da vida (mas também Chavez, Hitler e Collors etc). Mas então porque o Piquet não ocupou este espaço?

    2. O outro tema ver com a sua personalidade, o Piquet foi campeão 3 vezes na década de 1980, com duas equipes diferentes e três motores diferentes; um feito tecnicamente mais difícil do que o que o Senna fez, ainda assim, ninguém se lembra dele com o mesmo respeito e emoção do que sentem pelo Senna; isto mostra que há algo além das conquistas e este algo além é a característica do Senna em fazer com que as vitórias dele, fossem também nossas. Ele compartilhava estas conquistas de um jeito que: se o Piquet ganhasse, ele era o vencedor, mas quando o Senna ganhava, nós éramos os vencedores. Isto era materializado não apenas por empunhar a bandeira do Brasil após cada vitória (“olhem, não fui eu, foi o Brasil”), mas também nas entrevistas, na forma de lidar com a imprensa etc. Logo após ganha o título de 1981, perguntaram para o Piquet para quem ele dedicava a conquista, e ele disse que era para si mesmo. Compare com a entrevista que o Senna deu após a vitória de 1991 em Interlagos (tem no Youtube). O tom é bem mais emocional, passional, ele agradece a todos, a torcida etc. E faz isto de uma maneira sincera, não coreografada por um assessor de imprensa.

    Hoje em dia, o impacto dele não seria tão forte. As pessoas estão mais preocupadas em trocar de carro (mesmo que a custa de um longo financiamento), comprar a TV de Led e descer para o Guarujá no feriado prolongado, do que em torcer para alguém que possa dizer para o mundo que nós existimos.

    Existem dois grandes livros do Senna, o primeiro é “The Hard Edge of Genius” de um autor inglês chamado Christopher Hilton é uma biografia que fala mais da parte esportiva dele, como ele conseguia chamar a atenção para si dentro da própria equipe etc. O Outro é “Ayrton, o Herói Revelado” escrito por um Brasileiro, este fala mais do lado pessoal. Tem ainda o documentário Senna que é bem bacana.

    Abs!

    Felipe

    • Lelo Menezes
      27 de novembro de 2013

      Boa Felipe! Que bom te ver por aqui meu velho! Sei que você curte F1. Valeu pelo histórico. Concordo em gênero, número e grau!

      abs

  15. pacheco
    26 de novembro de 2013

    Muito bom o post.
    Eu lembro bem o que estava fazendo: estava assistindo a corrida! Ai fica dificil esquecer.
    O que eu acho que explica bem o caso ja foi dito por outros comentaristas acima.
    Uma combinacao, um alinhamento de planetas raro: morrer jovem, tragicamente, em publico, no auge da carreira, num momento em que o Brasil estava na m. e precisando de idolos, e com a fabulosa maquina da Rede Globo por tras.
    Imagina se o Pele morresse no inicio da decada de 70, seria um evento muito maior que a morte do Senna.

    • Lelo Menezes
      27 de novembro de 2013

      Bom ponto Pacheco. Se o Pelé tivesse morrido por volta de 70, hoje teríamos a igreja de São Pelé, com milhares de seguidores.

  16. Miyahara
    26 de novembro de 2013

    Lelo, muito bom post… acho que existia uma cultura da formula 1, principalmente pelos nossos pais… acho que era um momento de “homem” todos os domingos acompanhar a F1 em casa.

    eu tava em casa nesse dia, com minha familia e lembro que foi uma comoção geral! e foi mais impressionante a repercussão do fato… lembro de japoneses desesperados chorando ajoelhados no chão.

    eu tenho um autógrafo que ganhei de um primo distante do mau pai, tb japonês, eu devia ter uns 8 anos quando ele me deu, e encontrei ele em um enteroo outro dia e ele me perguntou do autógrafo… quando eu disse que tinha guardado ele chorou… se emocionou de verdade, me assustei até, mas pra ver até aonde vai o mito do Senna!

    • Lelo Menezes
      27 de novembro de 2013

      Boa Miha. Esse negócio do homem no Domingo é muito comum nos EUA, onde o Domingão é reservado para os “machos” assistir os jogos de futebol americano. Já o seu primo chorão… tsk tsk tsk

  17. Fralda
    28 de novembro de 2013

    Era domingo.
    Acelera Sena!… Foi o que ele fez.
    Automobilismo é um esporte perigoso.,, Novidade?
    O circo dos eventos esportivos nos distrai.
    A rivalidade entre os atletas é ampliada pela mídia e dá ibope.
    Lembro de uma matéria da Folha de São Paulo. Faltavam alguns meses para a Olimpíada de 1988 foi Seul?
    Johnson lançando frases de efeito contra Carl Lewis “Lewis ainda não aprendeu a lição… ele vai disputar o segundo lugar”.
    O mesmo acontece nas lutas boxe… E de maneira mais caricata com o antigo Astros do Ringue.
    Gera assunto. Nos distrai, inspira… É divertido, é entretenimento.
    Do meu canto costumo torcer para os vilões.
    – Ben Johnson
    – Mike Tyson que subia no ringue com um Killer escrito na nuca.
    Mas isso é outro assunto…
    Nunca curti formula 1. Sempre me pareceu monótono… e aos domingos, quando criança podia ver desenho até cansar, a seção era interrompida pelo Emerson Fittipaldi.
    Daí veio a birra com as corridas, os jogos intermináveis de tênis do entediante Bjorn Borg…
    Lembram provas de 800, 1.500 livre… Competições máster… terror sem fim.
    Desenho era muito melhor.
    Hoje paro para ver as largadas pois é quando normalmente rola alguma batida sensacional.
    Na data do acidente, domingo e eu ouvia um roque na radio 89, quando “interrompemos a programação (mais uma vez F1 interrompendo meu lazer) para informar que o corredor de Airton Sena faleceu”…
    Pensei “@#$%!! semana que vem só vão falar disso”…

    Pra não deixar sem resposta… Sobre o Adhemar não ser lembrado, além do que já foi dito:
    – não morreu televisionado durante um salto triplo,
    – viveu em um tempo que existia esporte amador e amador ele ela. “Achei a palavra atleta bonita e decidi que queria ser um”
    – o atletismo não tem tanto ibope e patrocínio quanto a F1.

    Em tempo… Projeto Nadar uma grande competição dos anos 80/90???!!! – essa eu perdi.

    Fralda

    • Rodrigo
      28 de novembro de 2013

      “Fralda”,

      dizem que quando há erro de interpretação, geralmente o culpado é quem escreveu e não quem leu e concluiu algo erroneamente. Então, vamos tentar de novo:

      Projeto Nadar era uma grande competição para atletas não-federados. E usei o termo “grande”, porque esse adjetivo se aplicava tanto à quantidade de participantes quanto ao cronograma da competição que se estendia ao longo de um ano inteiro, divido por etapas regionais até a sua conclusiva final Estadual.

      Enfim… existia natação além dos “Brasileiros”, “Sulamericanos”, etc.. etc.. e, talvez, se ainda existisse “Projeto Nadar”, “Torneio Jovem Pan Kibon”, “Bob’s”, “Torneio Evidência”, e tantos outras GRANDES competições PARA NÃO-FEDERADOS, que serviam como porta de entrada para a natação competitiva, não teríamos campeonatos de Juniores e Absolutos tão esvaziados.

      Só pra concluir, o termo NÃO-FEDERADO só significa um nível de “PEBISSE” avançado. Não é contagioso! Relaxa, “Fralda”!

  18. Omar Gonzalez
    29 de novembro de 2013

    Em casa Minha esposa se piquet eu senna,acho q messes anos poucos depois da vola a democracia senna incorporou o espirito do brasileiro quando vencedor numa corrida agitava a bandeira,eu Nessa epoca ainda nao era brasileiro (cubano) Mais sentia orgullo dele,imagino o povo,senti muito sua morte,nao queria acreditar,abs

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Publicado em 25 de novembro de 2013 por em Natação.
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