Epichurus

Natação e cia…

33 mil piscinas  

Naquele sábado, o ativista que entrou correndo no vestiário do clube tinha um alvo certo. O mascarado se infiltrou pela entrada de serviço, onde já tinha grafitado palavras de ordem pela preservação da água e agora nem olhava para os lados enquanto avançava. Parecia bravo e determinado. Sabia que o jogo-treino de futebol tinha acabado fazia uns 20 minutos e os jogadores já estariam se aprontando para os almoços em família e programas de final de semana.  Seus olhos escanearam o ambiente rapidamente em busca de ameaças e em seguida focaram no alvo. Ato contínuo, sem perder a velocidade, mandou uma voadora num senhor de meia idade que, pelado, havia deixado o chuveiro ligado enquanto se barbeava na pia. O coroa rolou no chão.  Atordoado e humilhado, ainda teve que ouvir do manifestante anti-desperdício d’água um sermão gritado: “Velho Burro! As crianças nunca vão saber o que é um chuveiro e a culpa será sua , seu gastador de água dos infernos!”.  E saiu de novo em disparada pelo mesmo corredor pelo qual entrara há segundos, ante o olhar atônito de um time de futebol, tenistas, nadadores masters e funcionários do vestiário.

Ninguém ousou interferir. Era sabido que esses manifestantes eram violentos e o racionamento de água nas casas – que já tinha tornado o banho com lencinho umedecido o novo padrão de higiene –  estavam deixando as pessoas mais irritadas com os gastões. Como o clube tinha um poço artesiano e gente influente nos quadros da diretoria, se permitia uma certa liberalidade no uso da água aos sábados, para aqueles que podiam pagar. Mas toda água era reciclada e mesmo assim, as piscinas já estavam com menos da metade do nível de outrora, impedindo os treinos dos esportes aquáticos fora da temporada das grandes chuvas. O próprio clube estava cada vez mais na mira das autoridades do Estado, sujeito as leis de preservação e sob constante risco de auditoria de reservas. E o pior… havia agora fortes boatos de confisco hídrico.

Entre as pessoas mais jovens, que nasceram depois que a Minalba tinha passado a Petrobrás em valor de mercado (durante o grande racionamento do início do século XXI), as atitudes de desperdício já não eram mais toleradas. Alguns associados até comentavam a boca pequena que  gostaram de ver o “ Sr. Gastão” tomando porrada … Depois de tantas campanhas de preservação, avisos e discussões, achavam que agora ele talvez aprendesse a fechar uma torneira.

Apesar do cenário de violencia descrito acima ser obviamente parte de um futuro incerto, a parte do desperdício já é hoje totalmente real.

Leio no OESP que a seca em SP já consumiu 33 mil piscinas. E o esgotamento do sistema de represas da Cantareira deve acontecer  em Junho ou Julho, junto com a Copa… a menos que o regime de chuvas atual se altere muito rapidamente. Caso não tenham entendido, deixe-me explicar: Tem gente prevendo que a água em São Paulo vai acabar mesmo e vão ter que arrumar alguma outra represa lamacenta para drenar. Uau… O simples risco de isso acontecer e termos o fornecimento de água a merce de São Pedro me parece mais um daqueles belos exemplos de Vexaminus Brazilicus. Para um país que se orgulhava de ser o paraíso global da água doce e de ter uma matriz energética totalmente baseada na energia hídrica isso deve ser um novo recorde do absurdo.

Obviamente o planejamento governamental é algo falho e provavelmente poderia ter prevenido esse vexame. Mas não é só o Estado que erra. Imagino algumas piscinas sendo desperdiçadas pelos indivíduos inconscientes que ainda tomam banhos de horas e que gastam hectolitros em lavagens de carro ou em mangueiras ligadas para lavar suas calçadas… tantos absurdos! Contudo, no caso da água, assim como tantos outros, já está ficando claro que só esperar pelo Estado para cuidar do problema não deve adiantar… Vamos ter que economizar e quem duvidar disso, pode sofrer as consequências no futuro.

Não bastasse a incompetência nacional no quesito de manter as piscinas que temos, parece que agora o próprio meio em que fazemos nosso esporte começa a ser ameaçado.  Nossos netos provavelmente terão que nadar mais no mar. O que não seria uma perspectiva tão ruim se a ameaça da poulição não fosse uma realidade brutal do nosso litoral… Boa sorte, nadadores do futuro!

Sobre Rodrigo M. Munhoz

Abrace o Caos... http://abraceocaosdesp.wordpress.com

22 comentários em “33 mil piscinas  

  1. rcordani
    17 de abril de 2014

    Putz, só rindo para não chorar!

  2. Indiani
    17 de abril de 2014

    A realidade esta caminhando para este cenário “MUNHOZÍSTICO” e nós ainda temos esperança. Talvez por “ELA” ser a última que morre…
    A minha esperança é apenas o BOM SENSO. Acredito que se conseguirmos elevar em mísero 1% per capta existirá a possibilidade de salvar alguns litros…
    Enquanto o bom senso não chega o negócio é: – VOADORA NO PEITO DESTES FILHOS DA PUTA !

    • Rodrigo M. Munhoz
      17 de abril de 2014

      Pois é Indiani… Não precisa nem falar que a visão do desperdício realmente dá uma vontade de aplicar voadora que não é brincadeira… mas o texto foi uma boa catarse e talvez ainda me segure por uns tempos!

  3. Julian Romero
    17 de abril de 2014

    E começa o Maria Lenk com essa situação de racionamento de água… Espero não ver desperdício da preciosa água da piscina.

    • Rodrigo M. Munhoz
      17 de abril de 2014

      Bem lembrado, Julian! Boa sorte pros privilegiados nadadores do Maria Lenk! Espero que água, tempo e esforço não sejam desperdiçados! E uma boa Páscoa pra todos também!

  4. Raquel
    17 de abril de 2014

    Pois é, o ser humano aprende pelo amor, pelo conhecimento ou pela dor……Continuando torcendo pelas duas primeiras formas. :o)

  5. Rodrigo M. Munhoz
    17 de abril de 2014

    Raquel, acho que a torcida é válida, mas nesse caso, a dor já começou… No mínimo dói na tal da consciencia coletiva.. ai.

  6. anonimo
    17 de abril de 2014

    nenhuma economia residencial jamais sera efetiva globalmente ou local em comparacao com o uso de agua pela industria ou agricultura; no fim a violencia continua sendo usada como meio de propaganda enganosa

    • Rodrigo M. Munhoz
      17 de abril de 2014

      Bons pontos…admito que meu foco foi na critica ao indivíduo. Mas em resposta eu poderia dizer que os agricultores e empresarios são também (e inicialmente) indivíduos … assim como os governantes e politicos.
      Sobre a manifestação violenta….concordo que a violencia é nojenta, anti democratica e condenavel. Idealmente, nunca deveriamos chegar no extremo de tolher liberdades e o bem estar das pessoas, por mais que elas estejam prejudicando o coletivo…. mas se a violencia das manifestacoes não passa de uma maneira de conseguir atenção (i.e. propaganda) e a unica maneira de mudar certos comportamentos, espero que gere menos danos que beneficios.

      • anonimo
        18 de abril de 2014

        correto

      • Fernando Cunha Magalhães
        18 de abril de 2014

        Pena que o anonimo não se identificou, faz todo o sentido esse aspecto relacionado ao gasto a indústria e a agricultura. Outro ponto fundamental é a redução da perda de água já tratada no sistema de distribuição.

    • Eduardo F. Hoffmann
      18 de abril de 2014

      Na verdade, o uso industrial, se comparado com as perdas na rede de distribuição, e com o uso irresponsável doméstico, é o menor dos problemas. Boa parte da indústria já evoluiu muito na eficiência do uso da água. Faltam outros setores seguirem esse caminho. E não vai ser com a “Transposição do Rio São Francisco” que isso será atingido…

      • Rodrigo M. Munhoz
        21 de abril de 2014

        Valeu pelo comentário, Hoffmann. Que a indústria e a sociedade continuem evoluindo… vamos precisar!

  7. Marina Cordani
    17 de abril de 2014

    Não entendo porque a campanha para economia de água é tão tímida… Deveria ser prioridade do governo, alarmar mesmo a população! Será que é por causa das eleições? Ninguém quer preocupar o povo e esperam por um milagre? Ou talvez, se o anônimo tiver razão, é porque pouco adianta tomar banho mais rápido. Sei lá… Eu espero por um milagre!

  8. Fernando Cunha Magalhães
    18 de abril de 2014

    Muito boa a fábula dos tempos modernos.
    Infelizmente, essa é mais uma situação limite que se apresenta para nossa sociedade e gera muita insegurança.

    • Rodrigo M. Munhoz
      21 de abril de 2014

      Valeu, Esmaga.
      Insegurança hídrica é uma nova fonte de ansiedade, sem dúvida… e não apenas para os nadadores.

  9. Eduardo F. Hoffmann
    18 de abril de 2014

    Alguns números para refletir:

    Perdas (físicas) percentuais de água tratada pelo mundo (aproximadas): Japão 5%, Outros países “industrializados” 10 a 12%, São Paulo (área atendida pala Sabesp) 25%, Brasil (média nacional) 40%.

    Notem que isso é água tratada! Ou seja, números de perdas com vazamentos e similares, na rede de distribuição, de perfil pornográfico!

    Os banhos prolongados, as descargas desreguladas e pias de água “corrente” são também relevantes… e pode-se melhorar muito aí, mas as perdas no “atacado” deixam as perdas do “varejo” parecer Liliputianas…

    • Rodrigo M. Munhoz
      21 de abril de 2014

      Boa Hoffmann. Mais dados interessantes. Fico curioso para saber qual foi o processo para o Japão limitar as perdas de água na distribuição nesse patamar. Especialmente considerando que o país foi arrasado há menos de 70 anos é admirável a resiliência desse povo. Temos muito que aprender, suponho.

      • Eduardo F. Hoffmann
        21 de abril de 2014

        Munhoz, em boa parte, o sucesso do Japão se deve à utilização, em escala enorme, de tecnologia já existente, e disponível comercialmente, para a localização de vazamentos na rede… Já aqui, a impressão que fica, é que, dentro da mentalidade protecionista que vicia o processo de decisão de nosso setor público, devem estar esperando algum “programa governamental de incentivo à inovação” resultar em “alternativa nacional” para o que já existe lá fora. Em suma: é mais importante reservar mercados para a “inovadora” e “extremamente competitiva” indústria e academia locais, do que resolver graves problemas, ainda que urgentes… Vide a política de compras preferenciais domésticas da Petrobrás… Ordem e Progresso!

  10. Pingback: Esta piscina está meio cheia ou meio vazia? « Epichurus

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Publicado em 17 de abril de 2014 por em "Causos" fora d'agua, Natação.
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