Epichurus

Natação e cia…

Naranjito e Fuleco no Divã

De onde veio a raiva que eu senti pelo futebol durante tantos anos?

Se a psicoterapia é um tratamento para problemas psicológicos através da conversa (dialética) , acho que escrever pra Epichurus não deve ser muito diferente.

Durante a euforia futebolística das ultimas semanas, o Brasil se classificou para as quartas de final jogou e ganhou da Colômbia, enquanto o país mostra sintomas de histeria coletiva e preocupação com a psique dos componentes da nossa seleção. A média de gols tem sido a maior desde 1958 e, depois dos óbvios problemas iniciais (e alguns mais persistentes) nos estádios, os jogos estão rolando com a alegria e beleza esportiva que se esperava de um evento deste tipo. O Brasil não está passando vergonha. Apesar de meus temores, as acochambrações de costume não tem impedido a evolução deste evento para se tornar “A Copa das Copas”. As manifestações anti-copa ainda rolam diariamente – seja da “elite branca”, do MTST, do povo aborrecido, dos estudantes ou de quem seja – mas nada que a brutalidade policial não disperse rapidamente. Até a vaiável presidente Dilma está surfando a onda de positividade e subindo nas pesquisas depois de meses em queda livre…

Mas a ansiedade tem estado em alta. O medo de cair no mata-mata e não chegar na “nossa” final em casa dá aquela vontade de acelerar o tempo, misturada com uma náusea parecida com a que eu sentia antes de nadar os 400 Medley… Explico: Na época de troféu Brasil ou Brasileiro, eu queria que a hora das provas difíceis chegasse para passar logo.  Queria me livrar da responsabilidade logo. Esses sentimentos antagônicos me fizeram lembrar que eu não gostei de futebol durante toda minha adolescência até o fim da faculdade. Racionalmente eu associava o futebol ao baixo investimento na natação, o que me chateava. A obsessão pelo tetra atrapalhava a evolução do meu esporte e, por consequência, meu “sucesso”. Mas vejo hoje que isso era uma racionalização imprecisa.

Recentemente, me veio uma memória:  Lembrei de desenhar o simpático Naranjito (mascote da Copa de 82) e uma bandeira Brasileira na calçada da Rua Gustavo Maciel 31-38, em Bauru, aos 10 anos de idade. Eu estava confiante (como o mundo inteiro) na superioridade brasileira, no Zico e no Sócrates. Super animado eu lembro de ser mais um moleque bem envolvido em assistir os jogos… Lembro de uma linda 1a fase com vitórias. E lembrei também de chorar quando caímos no 2×3 para o Paolo Rossi. Quase uma tragédia. Nunca mais vi a camiseta do Naranjito. A culpa portanto, da minha birra com futebol devia estar ligada com aquele cítrico antropomórfico…

Anos de indiferença e leve desprezo pelo esporte bretão se passaram e não voltei a torcer com força numa partida até a emocionante final por pênaltis de 94, também contra a Itália, mas com um resultado diferente. Eu morava nos EUA, estava prestes a me formar e, junto com mais brasileiros e alguns caras da equipe do Missouri, assistimos o jogo num café espanhol (Café Olé)… que tinha um pôster “Espanha 82″… justamente com o famigerado Naranjito.

Desde então, me aproximei um pouco mais do futebol, com ajuda dos bholöes do phutada e mais recentemente, dos meus filhos. Os nossos pequenos, por sinal, estão achando que o Brasil vai ganhar fácil essa Copa. Não muito diferente do que eu achava em 82. Gato escaldado, não estou tão confiante e ainda torcendo para que eles não tenham a decepção que eu tive. Pudera, pois não foi sem drama que a seleção brasileira passou para a semifinal, contra a Alemanha. Claro que teria que ser assim, ou não? Até que no primeiro tempo o domínio do jogo foi do Brasil e os 5×0 previstos pelo Lelo pareciam até possíveis.

Mas no segundo tempo a Colombia cresceu e não deixou barata a eliminação: Além de perder o capitão do time para o próximo jogo – outro amarelo para o Thiago Silva, naquele lance esdrúxulo com o goleiro colombiano – tivemos uma baixa permanente… justamente onde a esperança de diferencial brasileiro estava alojada… Neymar está fora da Copa, graças a um desleal salto no vácuo com joelhada nas costas, desferido pelo Zuniga (como estou falando de memórias infantis, achei apropriado citar o golpe do “Sawamu – o Demolidor” , até porque o lance foi kickboxing brabo mesmo).

Suspeito que a competição, que já não estava fácil, ganhou contornos sombrios para nossa seleção. O emocional do time, já sensível e exposto, vai pesar mais ainda agora, com a dor de perda de um grande protagonista. Os recentes fatos indicam que as chances de fracasso talvez tenham aumentado.

Ou… Talvez como numa tragédia típica, isso possa funcionar a favor dos guerreiros do Brasil.  De cara, um pouco do peso da expectativa de vitória óbvia se dissipa. Diante deles, um objetivo óbvio, sem nenhuma opção senão o sacrifício ou a desgraça. A vossa própria Batalha de Termópilas, oh exército de Feliponius. E já não há mais a presença de um ídolo inconteste entre eles. Apenas seus espectro e quem sabe a motivação de seu sonho e propósito prematuramente encerrados.  Agora eles são “apenas” um time de jogadores foras de série. Contra a máquina pragmática teutônica, penso que só os brios de donos da casa, defensores da terra e empurrados por uma torcida gigante terá alguma chance.

Em breve veremos se essa história, que está adquirindo nuances épicas, vai se tornar uma boa lembrança, ou… se o quase extinto Fuleco vai ser mais um personagem de trauma no nosso inconsciente coletivo. Agora – mais que nunca – a opção é torcer muito por mais dois bons jogos.

 

 

Sobre Rodrigo M. Munhoz

Abrace o Caos... http://abraceocaosdesp.wordpress.com

5 comentários em “Naranjito e Fuleco no Divã

  1. rcordani
    7 de julho de 2014

    1982 foi realmente um divisor de águas para pessoas da nossa idade. A minha “saída” foi passar a admirar não apenas o ataque mas as defesas também. Acompanhei com muita atenção as Copas de 1986, 1990 e 1994, quando o Parreira finalmente ganhou uma Copa baseada em um sólido sistema defensivo, e libertou o futebo para sempre.

    1994 só existe por causa de 1982, e a nossa vitória contra a Italia em 1994 iniciou o período mais vitorioso de uma seleção em todos os tempos, a nossa, que foi o “time a ser batido” até 2005!

    Temos a sorte de ter vivido nesse período, e agora sofremos mais pois as expectativas são altas sempre.

    Mas me diga, para quem a M. queria dar o cartão laranja?

    • Rodrigo M. Munhoz
      7 de julho de 2014

      Sim, hoje vejo bem o que vc aponta, mas foi um processo que incluiu afastamento apos 82. Acho que viemos de backgrounds bem diferentes e isso te aproximou do futebol mais permanentemente também.
      Quanto ao cartão laranja, o destino seria o Zuniga. Abraço e bom jogo amanhã!

  2. Lelo Menezes
    7 de julho de 2014

    Ahh Sawamu, o melhor desenho de todos os tempos, que coincidentemente parou de ser exibido no Brasil em 1982, ano da copa que marcou toda nossa geração.

    A minha previsão de 5×0 pro Brasil contra a Colômbia, foi na verdade 2×0, mas poderíamos ter enfiado uns 4 só no 1o tempo.

    Quanto a perda de Neymar, foi realmente muito triste, em uma entrada desleal que o colombiano até agora está tentando passar como “lance normal de jogo”. Realmente uma pena, mas Neymar jogou mal os últimos dois jogos e estou indo atrás da máxima do Felipão, dita no último Jornal Nacional “Em qualquer catástrofe, surge a oportunidade de fazer algo diferente”. Sinceramente não acho a Alemanha nenhum bicho papão. O Brasil vai ganhar de 1×0 e vamos pra final contra a Holanda!

    • Rodrigo M. Munhoz
      7 de julho de 2014

      Boa. Ouso dizer que a música de abertura do Sawamu é uma obra prima e assim como o desenho mereceria um remake…
      Mas sobre o Brasil, quero acreditar que você esteja certo, mas acho que não vai ser nada fácil pra nenhum lado. Acho que é um jogo sem favoritos e qualquer limonada que o Felipão consiga fazer já será uma grande conquista.
      Agora… estou impressionado com o pessimismo e derrotismo já propagado por alguns jornalistas brasileiros… realmente parece que as desculpas de uma eventual derrota já estão bem prontas… espero que não precisem usa-las ainda. Abrtz!

  3. Pingback: Hora de guardar as bandeiras « Epichurus

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Publicado em 7 de julho de 2014 por em "Causos" fora d'agua, Copa do Mundo Brasil 2014.
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