Epichurus

Natação e cia…

Finkel de 1987 – um esporro por alto falante

As emoções do Brasileiro Absoluto de Inverno na piscina do ECP/SP

O atento leitor do Epichurus já leu algumas passagens sobre essa competição:

A primeira em A saga dos 200m peito – parte I – primeiro capítulo da tetralogia publicada em 2012 por Renato Cordani, em que fala de forma fascinante sobre fatos, emoções e sentimentos relacionados às suas participações – frustrações e glórias – em sua maior especialidade.

A segunda em Ao meu irmão e ídolo maior Henrique, com um grande abraço. Ou: sim, você ganhou! – emocionante homenagem ao costista paulista Henrique Americano de Freitas, também escrito por Renato Cordani, no segundo semestre de 2013.

O CONTEXTO

O Finkel aconteceu no fim de junho e foi a última seletiva para o PAN de Indianápolis, cuja convocação sairia uma semana depois. Muitos atletas tinham a convocação garantida, encararam a competição como uma etapa da preparação, e tiveram resultados distantes do seu melhor, como Julio Rebollal, em fase pesada do ciclo de treinamento, ou como Cyro Delgado que nadou a eliminatória dos 100m livre no primeiro dia e depois não apareceu mais.

Para a grande maioria, uma competição foco, com atletas polidos e raspados, buscando superações pessoais e medalhas em brasileiro absoluto.

DESTAQUES

Jornal Finkel 87

Acervo da Família Michelena. Não há anotação indicando de que jornal é esse recorte.

Os principais destaques individuais foram Ricardo Prado e Patrícia Amorim, maiores expoentes da nossa natação na época. Pradinho apresentou ótima forma frente a exigência do COI, de que fizesse bons tempos para confirmar a convocação para o PAN.

(No final do post você poderá assistir filmes do BAÚ do pai do Lelo, João Guilherme Menezes, das provas de 200m costas – com Prado vencendo e Rogério Romero em segundo. 200m medley com Prado vencendo e Renato Ramalho em segundo. E imagens da vitória da Patricia nos 400m livre, com Miriam Arthur em segundo, bem como os resultados de todas as finais).

O Minas Tênis Clube voltou a se apresentar com uma equipe numerosa, liderada pelos experientes Marcus Mattioli, Débora Costa Reis e Isabel Miranda. Apresentando a geração de Beatriz Lages e Ângela Tupynambá em seu primeiro brasileiro absoluto. Vencendo provas individuais e revezamentos e garantindo o vice-campeonato por equipes. Ainda distante na pontuação do Flamengo, situação de mudaria significativamente um semestre depois do efeito Steve – técnico norte-americano ruivo – que tornou-se Head Coach dos mineiros e levou a equipe a um super salto de qualidade.

Carlos Scanavino – melhor nadador uruguaio da época – também em preparação para o PAN, que participou como avulso da nossa competição e venceu os 400m livre, nadando na Raia A.

 

A reunião da UNN comandada pelo presidente Djan Madruga, com grande quórum, e contribuindo para politização e união dos atletas.

Djan conduz a reunião, pena que essa garota entrou na frente. Kaminski e Adriana Silva conversam a esquerda. Pradinho assiste sentado no chão. Eu estou na arquibancada de moleton azul da Mesbla.

Djan conduz a reunião, pena que essa garota entrou na frente. Kaminski e Adriana Silva conversam a esquerda. Pradinho assiste sentado no chão. Eu estou na arquibancada de moleton azul da Mesbla.

OS VENCEDORES

50m livre Adriana Pereira Otávio Cardoso da Silva
100m livre Maria Cecília Giacaglia Jorge Fernandes
200m livre Patricia Amorim Cristiano Michelena
400m livre Patricia Amorim Marcus Mattioli
800m livre Patricia Amorim David Castro
1500m livre Patricia Amorim David Castro
100m costas Cristiane Santos Ricardo Prado
200m costas Cristiane Santos Ricardo Prado
100m peito Georgiana Magalhães Cicero Tortelli
200m peito Georgiana Magalhães Alexandre Hermeto
100m borboleta Patricia Nascimento Otávio Cardoso da Silva
200m borboleta Cristiana Mello Custódio Leite Ribeiro
200m medley Maria Cecilia Giacaglia Ricardo Prado
400m medley Cláudia Sprengel Renato Ramalho

 

A NATAÇÃO PARANAENSE

Além das vitórias de Cristiane Santos, Cláudia Sprengel, Cristiano Michelena e Renato Ramalho. Clube Curitibano e Golfinho terminaram a pontuação geral em 4º e 5º lugares, respectivamente.

A natação londrinense, sempre presente, contou com o pódio de Bianca Zanini nos 100m borboleta e mais uma final de Luiz Fernando Queiroz nos 50m livre.

No Curitibano, Tite Clausi seguia curtindo sua aposentadoria temporária e deixando um vazio em nossa equipe. Não sabíamos, mas foi a última competição com a participação de Newton Kaminski, o ídolo de todos nós, que depois das Universíades de Zagreb que aconteceu algumas semanas depois, esticou uns meses pela Europa, e quando voltou ao Brasil, já formado em Agronomia, foi morar em Foz do Iguaçu para trabalhar em Itaipu, onde permanece até hoje.

Luiz Alfredo Mäder, nadou junto com os medalhistas Kaminski e Ramalho a final dos 200m peito, prova mencionada na saga de Cordani. Piorou o tempo e ficou em 6º. Mas fez um tempaço nos 100m peito – 1m07s79 – melhorando mais do que 1s do seu 1m08s90, chegando em 4º, a apenas 31 centésimos do ouro, 5 centésimos do bronze e vencendo Kaminski pela primeira vez.

Celeste Moro foi prata nos 200m e 100m costas, nesta segunda, com Gláucia Lunkmoss em terceiro, num pódio exclusivamente paranaense. Ainda levou o ouro nos 4x100m medley com Marcia Resende, Glaucia e Isabele Vieira.

Nossa equipe ainda contava com Felipe Malburg, Cezar Antunes, Carlos Becker Neto e Rogério Gomes.

E EU?

Comecei a competição com o pé esquerdo. Nadei travado a eliminatória dos 100m livre. Piorei 66 centésimos e fiz para 54s39. Fiquei incrédulo em 9º. Almoço no Viena do Iguatemi. Descanso no início da tarde no alojamento, e quando descemos para o aquecimento das finais, o Léo veio com os cartões de balizamento. Com a desistência do Cyro, eu nadaria a final dos 100m livre na raia 8.

Nova injeção de entusiasmo e uma vontade enorme de fazer uma natação muito diferente na final. Não deu outra. Passei bem a frente do Otávio que estava na raia 7, respiro pela direita, mas pela visão periférica, na volta dava para sentir que também estava bem a frente da Raia 6 e pau a pau com os líderes. Travei no final, mas fechei com raça: 53s26.

Melhorar 1s13 numa prova de 100m em que se fez 100% de esforço na eliminatória: É MUITA COISA! Ainda na Finkel_1987_ 100m livre_resultados_01água, cumprimentando os adversários na raia B, o Castor eufórico soltou: “cara… você que estava aqui na ponta… tomei um susto! Foi você quem ganhou?” – infelizmente não era, cheguei em 4º, atrás de Jorge, Luis Osório e dele. Mas superei minha melhor marca em 37 centésimos de segundo – muito significativo.

Otávio, Eu, Luis Osório, Jorge, Castor, Mattioli e Edu de Poli

Otávio, Eu, Luis Osório, Jorge, Castor, Mattioli e Edu de Poli

No segundo dia, mais uma participação nos 200m livre daquela fase que eu não entendi até hoje, 7º lugar com 1m59s41, mais de 3s pior do que minha melhor marca.

No terceiro dia, cheguei como o vencedor do Troféu Brasil, para também tentar o ouro no Finkel. Na verdade, Finkel_1987_resultados_50livrepensando em pelo menos chegar ao pódio, já que havia ficado sem medalha no Interfederativo. E deu certo! Bronze com 24s35, atrás do Otávio e do Jorge.

 

Nadei os três revezamentos. Ficamos em 4º nos 4x100m livre e medley, bem distantes da medalha. Já no 4x200m, abri com tempo 1s abaixo da prova. Newton e Becker entregaram em 4º, e o Renato caiu quase um corpo atrás do Jorge Fernandes. As favas pareciam contadas, mas o Renato foi se aproximando, encostou no parcial de 100m, na ida para os 150m colou no Jorge – sem acreditar no que via e passando a crer no que parecia impossível menos de 1 minuto antes, catei minha toalha e ainda de sunga, corri pela lateral da piscina olímpica, seguido pelo Becker, até quase a cabeceira oposta para incentivarmos nosso parceiro nos últimos 50m. Ramalho e Jorge viraram juntinhos, saíram com perna 6 tempos e eu comecei a girar a toalha loucamente gritando pelo bronze. Depois de uns 20m, Jorge abriu um pouco e o choque da realidade veio junto com o recobramento da consciência e abertura dos sentidos. Mário Xavier estava aos berros no alto-falante nos advertindo e dizendo que não era permitido estar aonde estávamos e fazer o que estávamos fazendo. Pianinho e constrangido, baixei a bola. Sentamos no pódio e assistimos o final da prova. Jorge bateu 36 centésimos a frente. Ficamos em 4º. Voltei caminhando lentamente, cumprimentei meus colegas e admirei a coragem do Renato. Na passagem desculpei-me com a arbitragem e segui em frente.

Essa foi mais gostosa lembrança de uma época mais do que especial.

É um prazer dividir isso tudo com vocês!

Forte abraço,

Fernando Magalhães

VÍDEOS

RESULTADOS DAS FINAIS

Finkel_1987_resultados_01

Finkel_1987_resultados_02

 

Sobre Fernando Cunha Magalhães

Foi bi-campeão dos 50m livre no Troféu Brasil (87 e 89). Recordista brasileiro absoluto dos 100m livre e recordista sulamericano absoluto dos 4x100m livre. Competiu pelo Clube Curitibano (78 a 90) e pelo Pinheiros/SP (91 a 95). Defendeu o Brasil em duas Copas Latinas. Foi recordista sulamericano master. Trabalha como gerente da Academia Gustavo Borges e consultor da empresa Vendas 3i. É conselheiro do Clube Curitibano.

13 comentários em “Finkel de 1987 – um esporro por alto falante

  1. rcordani
    30 de novembro de 2015

    Saudoso Finkel de 87, o pontapé inicial da minha carreira de nadador absoluto, conforme explicado na saga cujo link está lá em cima.

    Interessante notar as vitórias do Mattioli e do Custódio, as últimas de ambos. O Custódio inclusive se apresentava com um roupão tamanho pequeno modelo onça que chamava bastante atenção…

    No mais, os protagonismos do Prado e da Patrícia, e a última competição antes do grande salto do Michelena, a partir do qual só dava ele nas provas de crawl.

    Valeu Esmaga por trazer à tona essas lembranças.

    • Fernando Cunha Magalhães
      30 de novembro de 2015

      Alô Cordani,
      Roupão de onça por vezes acompanhado de chapelão.
      Precisamos de uma foto dessas para eternizar no Epichurus.

  2. Luiz Alfredo Mäder
    30 de novembro de 2015

    Se bem me lembro neste ano estávamos alojados no ECP e descíamos para o aquecimento muito cedo, tipo antes das sete horas, com a finalidade de antecipar o metabolismo e nadar bem já de manhã. Se bem me lembro também isso não funcionou bem nos primeiros dias e no terceiro voltamos para o padrão normal. Será que o Malburguinho lembra disso? Pena que ele não tem facebook …

    • Fernando Cunha Magalhães
      1 de dezembro de 2015

      Eu acredito que não foi nesse ano que utilizamos essa estrategia pela primeira vez, pois lembro do Tite falando com entusiasmo sobre isso e o PICO DE INSULINA. Ou foi 86, ou 88… será que o Tite estava em 88? Preciso vasculhar meu cérebro.

      Quanto ao Malburguinho, costuma ler os textos mas não deixa comentários, quem sabe diante de sua instigada ele se manifesta.

  3. Rodrigo M. Munhoz
    30 de novembro de 2015

    Caramba, Esmaga! Não lembro de nada desse Finkel (já tinha 15 anos e estava nadando bem, mas honestamente não sei se fui). Se fui, devo ter ido muito mal – o que deve ter sido horrível, já que a Kibon patrocinava pesadamente a competição. Será que foi quando quebrei o braço? Pode ser… Bom… vou desencanar da Alzheimer por hora…
    Vejo nos resultados que o Fabricio de Bauru pegou 2o lugar nos 400 Medley, o que deve ter sido legal pra ele, apesar de ter ficado 6s. atrás do Ramalho.
    Quanto a bronca… poucos podem contar história similar na natação brasileira.
    No total, belas lembranças e ótimas fotos e videos de uma época saudosa.
    Abrtz!

    • Fernando Cunha Magalhães
      1 de dezembro de 2015

      Munhoz,
      pense em fazer regressão, suas percepções enriqueceriam muito nossas lembranças.

      O Fabricio não é leitor do Epichurus?
      Faz um contato com ele, seria legal se ele passasse por aqui.

      Quanto a bronca… realmente sensacional. O Becker ficou extasiado com a lembrança via grupo solemhios no WhatsUp: ” … lembro completamente, como se fosse ontem!!!! Que recordação espetacular, Maga! Eh de arrepiar”.

      • Rodrigo M. Munhoz
        1 de dezembro de 2015

        Vou pensar no assunto de regressao, meu caro. Mas me pergunto se o esquecimento nao seria um mecanismo de protecao de algum tipo… por enquanto tenho curtido ouvir as memorias dos amigos, em especial as suas agora que “participei” de varios eventos em comum! Abrtz|!

  4. Miriam Artur Borcath
    30 de novembro de 2015

    Smaga, mais uma de seu baú infinito! Se não me engano minha convocação para o Pan saiu desta competição. Nunca sei ao certo, pois era um tal de sai lista o tempo todo que foi uma confusão geral. Ótimos tempos! Obrigada.

    • Fernando Cunha Magalhães
      1 de dezembro de 2015

      Oi Miquim,
      O acervo da família Michelena tem uma série de recortes mostrando essa verdadeira loucura da insegurança em torno da convocação. E foi aqui sim que você carimbou seu passaporte, já que na lista final da semana seguinte, seu nome estava lá.

  5. Luiz Carlos Pessoa Nery
    30 de novembro de 2015

    Brilhante texto Maga (já não é mais novidade pra mim)

    Grande abraço e parabéns

    • Fernando Cunha Magalhães
      1 de dezembro de 2015

      Valeu, Luiz Carlos. Abraços.

  6. Lelo Menezes
    1 de dezembro de 2015

    Eu não nadei esse Finkel. Em 02.05.87 eu cai da escada e quebrei a perna em vários lugares, sofrendo uma cirurgia para a colocação de dois pinos de platina (que carrego até hoje). Assisti o Finkel das arquibancadas com uma melancolia gigantesca e com a “certeza” que deveria estar ali entre os finalistas dos 200m peito (com certeza eu ganharia do PEBA Renato…kkkk).

    Foi um período muito difícil pra mim. Eu não tinha certeza se conseguiria voltar a nadar em alto nível. Fiquei 5 meses engessado, muita fisioterapia, e na primeira competição pós-gesso, no Golfinho, em curta, fiz a terrível marca de 2´41 nos 200m Peito. Por um tempo achei que a carreira tinha ido pro saco.

    No fim da temporada, no entanto, a redenção. No JD, que o Renato venceu com maestria, fechei em 6o, mas com 2´29´99 na longa, melhorando em mais de 7 segundos meu tempo do JD anterior e ainda por cima meu primeiro ano de Juvenil B, um dos mais novos ali. Finalmente botei 1987 pra trás e veio 1988, um ano espetacular pra mim, com certeza um dos mais memoráveis da minha carreira…

    Excelente post e comentários. Me lembro do roupão de Oncinha do Custódio…

  7. Pingback: Rosário 1987 – Os primeiros testes com o Dr Mazza | Epichurus

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