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Natação e cia…

Nem 8, nem 80!

Ouro para o americano Ashton Eaton no Decatlo.  Brasileiro Luiz Alberto de Araújo fica apenas em 19º!

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Essa foi uma rápida manchete que li ontem no site Terra.  Procurei a notícia na Folha e encontrei algo semelhante escondido na sessão de esportes.  O mesmo com o Estadão.  A performance do brasileiro que terminou em 19º não mereceu mais que uma simples frase escondida entre uma longa história de doping de um ciclista americano em 2004 e uma enquete com mais de 4.000 votos sobre o maior fiasco das Olimpíadas, onde Fabiana Muerer levava o titulo com folga.  Eu não conheço o Luiz Alberto de Araújo, não sei se ficou feliz com o 19º lugar, muito menos sei detalhes sobre sua preparação, expectativas e suas chances futuras, mas posso especular que atrás desse 19º lugar vem uma vida de dedicação e sacrifício em busca de uma boa posição nas Olimpíadas.  Uma vida de glórias nacionais e continentais.  Ele deve ser bem reconhecido dentro do atletismo. Quantas pessoas conhecemos que estão entre as 20 melhores do mundo em suas atividades? Mas o povo brasileiro não tem a mínima ideia quem ele seja, nem faz questão de conhece-lo.  O cara ficou em 19º e no Brasil isso não é motivo de orgulho!

Somos o país do futebol e nosso povo tende a analisar os esportes olímpicos da mesma forma que analisam uma Copa do Mundo.  Só o ouro interessa.  Na enquete do maior fiasco das Olimpíadas, Cielo, bronze em Londres era o segundo mais votado e a dupla Larissa e Juliana, também bronze tinham muitos votos também.  Para o povo são enormes decepções parecidas com o vice-campeonato de 1998 na Copa da França, ou a prata agora a pouco quando perdemos o ouro para o México.

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Os mais sensatos dirão que precisamos avaliar nossos atletas em cima de expectativas.  Uma prata para o handball feminino seria comemorado ao extremo e ouviríamos em demasia o jargão “Essa prata vale ouro”!  Já uma prata para o futebol masculino e’ visto como fracasso!  Acho importante que saibamos a diferença das duas pratas e que tenhamos discernimento para elogiar e criticar cada situação, mas chamar uma prata ou um bronze olímpico de fiasco não é apenas um absurdo, é um desrespeito ao esporte nacional e aos atletas que tanto se dedicaram para aquela façanha, mesmo quando a expectativa era maior.

A síndrome do futebol parece ser responsável pelo comportamento extremamente critico da população.  Vão comemorar o ouro ou uma medalha não prevista (a famosa zebra tão comemorada ou temida no futebol), mas vão criticar duramente qualquer outra situação, independente da expectativa que comentei acima. É a ignorância. Em geral não conseguem entender que na maioria das vezes um 7º lugar na natação ou um 19º no atletismo é um resultado magnifico e dificílimo.  No contraponto alguns jornalistas e a grande maioria dos profissionais envolvidos com o esporte olímpico (técnicos, dirigentes, ex-atletas e a mídia especializada)  saem em defesa voraz de nossos atletas, alias atletas não, heróis!  Muitas vezes em lágrimas, como nossa técnica de judô feminino, soltam os cachorros na imprensa sempre com histórias de superação, origem humilde, sacrifícios da família, falta de patrocínio, falta de apoio do governo e tantas outras desculpas que já ouvimos.

Nem 8, nem 80!  Eu não posso falar do boxe amador, da esgrima, do tênis de mesa, da canoagem que são esportes que eu mal conheço e que tem uma penetração muito baixa na mídia e baixo interesse da população em geral.  Mas por via de regra, nossos principais atletas olímpicos são todos profissionais ou semi-profissionais e ganham dinheiro por suas atividades.  Alguns ganham muito bem inclusive!  A maioria participa de intercambio internacional e treinam em clubes como o Pinheiros e Minas Tênis Clube que tem uma infraestrutura que dá inveja!  Então não devemos trata-los como pobres coitados que vencem mil obstáculos diários para conseguir treinar.  Como profissionais devem ser cobrados de acordo com a expectativa de quem paga seus salários.  Convenhamos que a maioria dos atletas do Quênia e Etiópia que dominam a anos as provas de longa distancia no atletismo não foram criados a base de caviar e água Perrier.   Nem tampouco os chineses, potencias em quase todos os esportes.  Infância humilde é a realidade de grande parte de nossos atletas, mas não deve servir de desculpa pra mau performance quando já ficou pra trás faz tempo e a realidade é outra.  O governo não deveria ter como responsabilidade apoiar financeiramente nossos atletas olímpicos.  Esse papel tem de ser no mínimo compartilhado (e muitas vezes o é) com a iniciativa privada.  O governo tem que investir nos esportes de base, na introdução de esportes nas escolas (padrão americano que dá tão certo), e em infraestrutura básica para prática desses esportes.  Tudo isso com um cunho social!  Se bem implantado passaremos a ter naturalmente mais medalhas nas futuras olimpíadas, mas mais importante que isso, teremos melhores cidadãos.  O esporte é muito importante na formação de um individuo, principalmente na falta de uma boa estrutura familiar, coisa tão comum no nosso país.  É um projeto de longo prazo que, se priorizado, pode começar a colher frutos em 2020/2024.  No meio tempo seria interessante que aprendêssemos um pouco com o povo inglês, que incentiva seus atletas com chance ou sem chance de medalhas da mesma forma.  A impressão que fica é que têm orgulho dos atletas que representam seu país, independente da posição que chegam.  Pouca gente entende, mas todos os atletas brasileiros que estão nos jogos já são vencedores por estarem ali.  Não é jargão, nem frase de efeito.  É realidade!  É extremamente difícil ir para as Olimpíadas!  Por trás de um participante existem centenas de atletas altamente qualificados que tentaram e não conseguiram!  Estar nas Olimpíadas é um privilégio dos nossos principais talentos e isso deveria ser comemorado!   Provavelmente é esperar demais tal educação do nosso povo, mas só espero que nossa mídia não venda 2016 como as Olimpíadas que traremos 20 medalhas de ouro e brigaremos com os principais países no quadro de medalha.  Não vai rolar!  Teremos uma performance recorde sem dúvida.  O fator casa historicamente ajuda bastante mas provavelmente ainda estaremos longe de competir pelo Top 5 nas Olimpíadas!

14 comentários em “Nem 8, nem 80!

  1. Sergio Augusto Cunha
    11 de agosto de 2012

    Caro Lelo.
    Excelente seu texto. Porém, o que mais falta no esporte brasileiro é investimento científico. Temos feito muito progresso na área de “ciências do esporte”, mas quase nada é aplicado na preparação e no treinamento dos nossos atletas.
    Um abraço.
    Prof. Dr. Sergio Augusto Cunha
    Professor da Unicamp

    • Lelo Menezes
      11 de agosto de 2012

      Concordo Dr. Sérgio e obrigado pelo comentário. Sem duvida você tem razão e o Brasil ainda deve estar longe das principais potências do esporte em ciência esportiva. Fato esse que enaltece ainda mais as nossas conquistas, seja de medalhas, seja de uma boa colocação entre os melhores do mundo! Só acho importante frisar que no caso da natação brasileira, a ciência esportiva é bastante utilizada, inclusive um especialista em bio mecânica acompanhou a seleção brasileira à Londres. Só não sei precisar, como o Munhoz colocou abaixo, se estamos a altura dos Estados Unidos, Austrália e China, por exemplo!

      Abraços

      Lelo

  2. rmmunhoz
    11 de agosto de 2012

    Bom texto, Lelo! Acho que cobrança em esporte geralmente não é algo produtivo, até porque o próprio atleta é geralmente quem mais “se cobra” e cobrança de medalhas não levam em conta o que é mais importante numa competição: os concorrentes. Achei interessante o comentário do Dr. Sergio e imagino que ciências aplicadas em geral não sejam o forte no Brasil e o esporte não deve mesmo ser diferente… o que é uma pena, pois sei que apoio científico pode ajudar a fazer melhores atetas – inclusive maximizando os benefícios do esporte vs lesões, etc. Fico curioso por saber se temos alguma métrica Bra vs Resto do Mundo . Abraços,

    Munhoz

    • Lelo Menezes
      11 de agosto de 2012

      Valeu Munhoz e sem duvida a auto cobrança de um atleta geralmente supera qualquer outra. E é fato que os atletas tem mania de falar de seus sacrifícios sempre esquecendo que os adversários normalmente se sacrificam o tanto quanto!

  3. rcordani
    11 de agosto de 2012

    Boa Lelo. Um ponto interessante que o Vreco disse outro dia são os comentaristas especializados, normalmente ex-atletas e amigos dos atletas atuais. Na maioria das vezes, para eles, o sujeito SEMPRE foi bem mesmo que tenha piorado muito o tempo. Já para o público leigo, se não veio o ouro o sujeito foi mal mesmo que tenha melhorado muito o tempo. Mais um exemplo de 8 ou 80….

    • Lelo Menezes
      15 de agosto de 2012

      Exato! Eu gosto do André Domingues como comentarista de atletismo, mas pra ele todo mundo foi bem…sempre!

  4. Flávio Amaral
    13 de agosto de 2012

    Belo texto como sempre Lelo.

    É claro que o repórter que escreveu a reportagem está longe de estar em os 19 melhores reportes do mundo. É óbvio né?

    Sem ser muito clichê.
    Arthur Zanetti (ouro nas argolas) foi 2º no mundial de 2011 e 4º no de 2009 (quando ele se achava muito novo e comemorou seu feito).

    Para as Olimpíadas, ele pagava sua academia para treinar.

    Com exceção do Futebol (que dinheiro não é problema) e alguns atletas profissionais, ganhar uma medalha é quase uma obrigação. (Ganhar o ouro não é obrigação, exceto que você seja um Bolt em plena forma).

    Não existe uma organização séria nas bases para todos os esportes. Nem no futebol, pois tem muito olheiro em vázea ainda.
    Os esportes não populares tem pouco adeptos, pois não sabem nem que o esporte existe a não ser q cada 4 anos e de passagem.

    Como Lelo bem disse, o modelo americano está nas escolas, onde campeonatos estudantis, são comuns o que induzem as escolas a investir também nos esportes além da educação. Os caras fazem até campeonato de Cheerleaders.
    Aqui temos problemas na qualidade do ensino. Não tem espaço para o esporte. Como nadador, nunca fiz uma única aula de educação física e normalmente é um pouco de ginástica, futebol e as vezes algum jogo de quadra, se a escolar tiver a quadra.

    Volto a falar que não ficaremos entre os 20 na Olimpíada do RJ. Assistiremos e ouviremos os hinos americanos e chineses diversas vezes.
    A programação para RJ deveria ter iniciado pelo menos quando o RJ foi escolhido.
    O Ideal seria quando começaram a participar das pré-candidaturas, ou seja, 15 anos atrás.
    Teríamos chances de estar entre os 10 hoje.

    Abraços e parabéns pelo texto.

    • rcordani
      14 de agosto de 2012

      Flávio, 20 melhores acho que ficaremos sim, em Londres bastava que o ouro do volei masculino saísse e ficaríamos entre os 20. No Rio, certamente ficaremos. Entre os dez já seria milagre.

    • Lelo Menezes
      15 de agosto de 2012

      Valeu Flávio. Eu acho que iremos bem no Rio. O fator casa vale muito. Acho que pode até pintar um TOP 10, com um pouco de sorte! No entanto se nada mudar, em 2020 voltaremos ao patamar de 3-5 ouros e ficaremos entre 16º e 24º.

  5. Alvaro Pires
    13 de agosto de 2012

    Belo Texto Lelo ! Concordo c todos os comentarios acima. Acho q falta esporte na escola (bato nessa tecla hah anos !), inclusive nas escolas particulares. Aqui no Rio estamos fazendo colegios e faculdades em shoppings ! Falta c certeza aprimorar nossa ciencia do esporte como disse o professor. E o principal falta uma cultura esportiva. Quero ver um jornalista dizer q o 19o lugar na olimpiada eh uma decepcao depois q um filho dele tirar 7o lugar numa competicao na escola depois de muito esforco. Para mim eh esse o ponto. A unica coisa q espero eh q os jogos sirvam p popularizar a pratica esportiva em nosso pais. Q as pessoas aprendam q eh importante p a saude, auto estima e tb pode ajudar no crescimento pessoal e profissional de cada um. O aumento das medalhas eh consequencia disso tudo, e nao eh o mais importante. abs

  6. Fernando Magalhães
    14 de agosto de 2012

    Excelente o texto do Lelo.
    Sem dúvida, a ampliação da base teria um impacto social significativo (concordo que mais importante do que medalhas olímpicas) e a médio prazo haveria um aumento de medalhas como efeito colateral positivo.
    Considero que fui um excelente atleta. Até hoje sou reconhecido por muitos pelo que fiz nas piscinas, mas não consegui chegar aos Jogos Olímpicos. Por isso essa contextualização acerca da performance do nosso decatleta faz todo sentido pra mim. Não guardei o nome dele, mas o admiro. É um vencedor e não tenho dúvida nenhuma de que ele deu o que tinha e o que não tinha para representar bem o nosso país, assim como fizeram os maratonistas, que deram um show chegando em 5o, 8o e 13o.
    E francamente, uma barbaridade votar num medalhista como “maior fiasco”. É muita ignorância.

    • Lelo Menezes
      15 de agosto de 2012

      Valeu Esmaga! O povo em geral não tem a mínima idéia de como é difícil pra um nadador brasileiro ir para as olimpíadas. Assim como você também não tive esse privilegio. Não bastou vencer Júlio Delamare, José Finkel, Troféu Brasil e sul-americano absoluto. Precisava mais! Quanto ao Luiz Alberto, o Munhoz mandou o CV dele por email e é bem vencedor!
      Abracos

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Publicado em 11 de agosto de 2012 por em Futebol, Natação, Olimpíadas.
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