Epichurus

Natação e cia…

Raul, Epicuro e a Natação

Em minha opinião, o Raul Seixas foi um gênio. Fez música brasileira como poucos e deixou uma marca forte, apesar de uma vida relativamente curta. Em Bauru, eu ouvia muito o Raulzito antes e depois de nadar. Eu tinha um daqueles Walkman Sony e várias fitas cassete (os “playlists” de antigamente) gravadas especialmente para competições. Esse hábito de ouvir música em competições, obviamente persiste hoje em dia. Sempre vimos o Phelps entrando na piscina com os headphones ainda no ouvido. O que será que ele ouve? Rap, Hip Hop, Rock, R&B?

Meu playlist as vezes “desmagnetizava”…

Sempre achei que músicas como “Maluco Beleza” e “Metamorfose Ambulante” me ajudavam a relaxar. Com a “trilha” certa, eu achava que tudo era possível – até melhorar um tempo sem raspar nem polir, o que sempre foi extremamente raro para mim.

Mas na verdade este não é exatamente um post sobre o Raulzito, que morreu há 23 anos – completos na semana passada.  O aniversário da morte do barbudo bahiano me fez lembrar de uma certa viagem à Bahia, feita por amigos nadadores, “livres” após o Troféu e o fim da temporada de natação. Essa reminiscência me fez pensar sobre a vida dura dos nadadores profissionais de hoje. O Renato Cordani – um dos participantes da jornada – me ajudou a lembrar datas e nomes e forneceu fotos.

Mas porque a ligação com o Raul?

Acontece que em uma das paradas iniciais da viagem, provavelmente em Conceição da Barra, estávamos jogando conversa fora quando apareceu um cara semi-maltrapilho, com jeitão de hippie e barba meio grande. Nos perguntou para onde estávamos indo e quando soube que estávamos indo para Norte, desisitu de pedir carona e apenas nos contou sua história. O cara estava tentando voltar para São Paulo de carona, de onde havia saído havia vários meses  com o objetivo de participar do enterro do Raul Seixas na Bahia. Indo de carona, ele não chegou a Salvador a tempo do enterro. Mais de um ano depois, ele não pareceu muito desapontado, mas de qualquer forma, após “pagar seus respeitos” ao ídolo, aparentemente acabou ficando por lá um tempo.  E depois de certos perrengues óbvios, resolveu voltar. Guardei essa conversa como algo meio místico. Quanto as músicas do Raul tinham influenciado aquela pessoa, que deixou a vida pra trás para ir a um enterro? O que cada um deixa pra trás com suas escolhas?  Diferentes são as motivações de cada um…

Alcobaça, Jan ’91

O efeito que a música do Raul teve na cabeça do hippie maluco deve ser (de certo modo) o mesmo efeito que o esporte e a natação tiveram na gente.  Deixamos coisas de lado para seguir nosso esporte ou passatempo. Talvez por isso ainda o sigamos.  Sorte que um esporte raramente morre, mas se a natação “morresse”, provavelmente eu iria ao enterro – de carona, quem sabe?  Talvez o nosso amigo hippie esteja se despedindo do Raul até hoje, como uma maneira de nunca se separar das músicas que gosta.

Para além dos encontros com figuras estranhas e conhecidas, a nossa viagem à Bahia, no começo da década de 90, foi um marco para mim. Viajávamos numa Fiat Elba,  em quatro pessoas: Dois cabeludos da capital:  Polloni – o dono do carro e o único não nadador (pólo aquático até hoje) e Renato Cordani e dois baixinhos do interior: Amendoim e eu. O roteiro era meio não planejado, apesar de sabermos que o “objetivo” estava mais ou menos na Bahia. Não havia data de retorno firme ou acertada entre nós, sendo o limitante final apenas a grana que tínhamos. Desconfio que eu e Amendoim levamos bem menos dinheiro (levei uns R$ 300) que o Renato e Popô, mas estes últimos seguiam a regra do mínimo denominador comum e assim economizávamos em conjunto, usando uma cateira única, abastecida periódicamente. Fazíamos paradas em pousadas, alugamos casinhas caindo aos pedaços e dormimos em barracas. Quando não estávamos em deslocamento, nossa rotina era bater um café com pão na chapa pela manhã e “almojantávamos” um P.F. uma vez ao dia. Tomávamos pinga com soda limonada nas pré-baladas – o que me, btw, deixou uma “náusea” meio crônica da mistura até hoje – e de resto, era “cabelos ao vento”. O roteiro foi mais ou menos este:

1) São Paulo – Piúma (?) – Guarapari

Engenhoca – Itacaré Fev ’91

2) Conceição da Barra para o pré – carnaval com forró

3) Alcobaça

4) Cumuruxatiba – onde a Elba quase foi levada pela maré alta, enquanto visitávamos um cajuzeiro a beira mar

5) Porto Seguro – Arraial da Ajuda – na época da “lambada”… e do capeta. Caldo de mocotó na madrugada ajudava.

6) Trancoso – onde deixamos o carro e fizemos uma looonga caminhada pela praia, com mochilas até Caraíva e Ponta do Corumbau. Voltamos de barco, pois os pés ficaram detonados.

7) Itacaré – Antes do hype ecoturístico. Praias realmente alucinantes e desertas.

8) Valença – Morro de São Paulo, com lua cheia e pôr do sol no farol, sem tirolesa.

Morro de São Paulo, Fev ’91

Retornando de Morro para Valença, eu e o Amendoim pegamos um ônibus de volta para SP, pois nossa grana estava acabando…

O Renato e o Popô ainda continuariam a viagem, cruzarando a Bahia, rumo a Lençois e depois Salvador, em pleno fim de fevereiro carnavalesco.

Uma viagem sensacional, de puro epicurismo, que espero que meus filhos possam fazer um dia (de preferência, sem a cachaça) com amigos.

Mas e a “molecada” nova? Será que esses nadadores profissionais de hoje conseguem fazer essas viagens de fim de temporada? Espero que sim, mas temo que não… Ficarei triste por eles, com suas rotinas apertadas e vidas públicas, apesar das lindas conquistas que têm alcançado no campo esportivo. Espero que pelo menos os PEBAs da natação atual (uns 70-80% dos 460 nadadores presentes no Troféu José Finkel de semana passada, eu calculo) consigam se divertir e viajar com os amigos depois da temporada ter terminado. Conhecendo bem o esporte duro que eles fazem, eu diria que merecem… E sabendo o que os espera na vida “real” – longe das piscinas, eu sei que precisam ou pelo menos, que irão precisar.

Aliás, daria minha medalha de Finkel para poder voltar no tempo e fazer mais uma dessas viagens. Puro saudosismo eu sei… Mas o benefício de ficar mais velho é poder fazer julgamentos mais claros sobre a importância e o impacto dos eventos que já ficaram para trás.  Ah, e já que estou parecendo um velho “dando conselho”, aproveito para dizer que acho que um pouco de Raul Seixas nas playlists atuais também pode ser altamente recomendável.  “Toca Raul !!!”

Sobre Rodrigo M. Munhoz

Abrace o Caos... http://abraceocaosdesp.wordpress.com

23 comentários em “Raul, Epicuro e a Natação

  1. Marina Cordani
    28 de agosto de 2012

    Legal o texto! Sabe que eu andei pensando a mesma coisa? Estava relendo o livro The Great Gatsby esses dias, e uma das personagens secundárias, Jordan Baker, é uma campeã famosa de golf. Só que a vida que ela leva é regada a festas e diversão, e apesar da proibição do álcool nos anos 20 nos EUA, todos bebem. Daí fiquei pensando nos meus amigos nadadores de ponta que também se divertiam, iam a festas, viagens, etc, desde que após a competição principal.. Esses caras de hoje em dia fazem tempos melhores, batem records, mas a que custo? Li que o Phelps agora quer relaxar, comer pizza, etc. Quer dizer que ele não faz isso há 12 anos? Coitado… Vemos o Nadal, o Federer, sempre sacrificando tudo, em contraste com o André Agassi, de outra época, mas que parecia um tanto amador comparado com esse caras. Também aparecem essas notícias de “ciclo de 4 anos”, muitas privações, recompensadas ou não. Acho que ficou meio sacrificado demais ser atleta olímpico…

  2. rmmunhoz
    28 de agosto de 2012

    Oi Marina! ótima recomendação de leitura “O Grande Gatsby”…Quanto ao Phelps, ouvi falar que ele não se privou de “tudo” não” 🙂 e até “relaxou” um pouco mais nos ciclos pré-Londres… Sei lá o que isso quer dizer e não importa muito agora que ele se tornou o maior atleta olímpico da história. Contudo, mesmo assim tenho certeza que os sacrifícios pessoais dele não foram poucos… Apesar do talento absurdo do cara, como figura pública ele nem podia se expor muito… Uma foto com um hamburguer fora de hora podia torná-lo um “mau exemplo” para a juventude americana… Difícil a vida de ícone no mundo conectado…

  3. Alvaro Pires
    28 de agosto de 2012

    Bacana Munhoz, me fez lembrar algumas viagens no mesmo estilo. Por exemplo um carnaval em conceicao da barra c meus peba amigos (Eduardo) Berendonk e Pedro (Guimaraes) em 1990. E outra p caraiva e ajuda tb de carro c outro amigo. Viagens recheadas de uma quantidade de cachaca q meus tecnicos Dalty, Alberto Klar e Eleandro jamais imaginariam. As viagens eram geralmente em fevereiro, naquele final de ferias estudantis e aproveitando aqueles poucos dias contados de ferias do cloro. E, da minha parte, eram os dias mais aguardados do ano, valiam mais do q as medalhas conquistadas. Qdo me dei conta disso, nao tive mais motivacao e acabei largando a natacao. Nao sei se curti mais a vida ou nao depois disso mas deu p entender melhor alguns amigos q eram bons em alguns esportes mas nunca tiveram interesse em abrir mao da diversao em troca de treinos duros e competicoes. Bom analisando hj, vejo q curti muito as competicoes tb (principalmente qdo eram fora do Rio !!!) e parei na hora certa. P fechar, a minha trilha sonora ia de Raul,passando por Bob Marley, Outfield, Neil Young, The Clash e Marillion, entre outros. gr ab

    • Rodrigo Munhoz
      28 de agosto de 2012

      Pois é, Alvaro… Hoje sabemos o quanto esse time off era importante… mas acho que em parte era muito legal também porque dávamos duro na piscina…Sobre a música: Qualquer hora vamos ter que fazer um post só com as diferentes trilhas sonoras da galera… Lembro que o Lelo me falou que ouvia Raimundos para nadar 200 peito, por exemplo… Abraços!

  4. rcordani
    28 de agosto de 2012

    Ei Munhoz, o sr. postou nossas fotos pequenininhas de propósito? É para ninguém reparar no Coach Amendoim ou para ninguém reparar que a gente está polido, raspado e com sunga de papel?

    • Rodrigo Munhoz
      28 de agosto de 2012

      Na verdade eu estava em uma conexão meio lenta e coloquei fotos pequenas de propósito… mas podemos consertar isso facilmente, assim talvez o público poderá apreciar melhor suas longas madeixas de outrora, hein?! Abraços e obrigado pelas fotos!

  5. Rosely de Souza
    28 de agosto de 2012

    Era uma vez ….um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Encontrou uma águia e colocou-a no galinheiro junto às galinhas, dando-lhes a mesma ração que oferecia a elas.Passados cinco anos, o campônes recebeu a visita de um naturalista que, ao ver a águia logo a identificou, dizendo: “Esse pássaro aí não é uma galinha, mas sim uma águia”.O campônes concordou e argumentou que como havia sido criada no galinheiro, agora era galinha.
    Decidiram fazer uma prova. O naturalista ergueu a ave bem alto para fazê-la voar.Porém, ao ver as galinhas ciscando grãos no chão, a águia pulou para junto delas. O naturalista incorfomado, fez várias tentativas para fazê-la voar, pois, acreditava que ela possuia coração de águia.
    Certo dia, ao amanhecer, o naturalista e o campônes pegaram a águia e a levaram para fora da cidade no alto de uma montanha. O naturalista ergueu a águia bem alto e ordenou-lhe:”Águia, você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
    A águia,tremendo como se experimentasse uma nova vida e olhando em direção ao sol, encorajou-se, abriu suas potentes asas, ergueu-se soberana e começou a voar…
    Essa história ilustra o sentimento que impulsiona homens e mulheres, nós viemos de uma geração aonde os valores eram preservados. A ética e o bem comum. O esporte hoje vive as margens do capitalismo. Como diria o saudoso Raul “maluco beleza, vou ficarrrrrrrrrrrr.”
    Como é bom a gente lembrar que tudo tem um fim e o melhor é aproveitar o tempo, educando.

    • Rodrigo Munhoz
      28 de agosto de 2012

      Obrigado pela história, Rosely. Por um instante temi que a Águia da fábula voltasse para atacar o galinheiro. Com certeza estes são outros tempos… Geração Y… Millenials… uff… temos que nos acostumar, entender, e nos comunicar de maneira diferente …. E concordo que investir em educação é a única garantia de um futuro melhor. Abração!

  6. LAM
    28 de agosto de 2012

    Acreditem, paranaenses também viajavam nesta época, mas saindo “lá de baixo” de Veraneio, só deu prá chegar em Paraty.
    Quem estava? Pimpão, Penteado, RR, Gustavão, Malburguinho e eu.
    Qq dia escrevo aí

    • Rodrigo Munhoz
      28 de agosto de 2012

      Fala aí, LAM! Paraty e Angra dos Reis eram destinos comuns para os Bauruenses e Paulistanos também! Eu cheguei a ir até de carona para Angra uma vez com o Mijão (Luiz Fernando Moreto) de Bauru em 1988… outra boa viagem na memória…. Mas de Veraneio nunca cheguei a viajar… E o seu Puma chegava até onde? Abraços!

  7. Lelo Menezes
    28 de agosto de 2012

    Já eu fico com o apropriado:

    Aventura como essa eu nunca experimentei!
    O que eu queria mesmo era ir com vocês
    Mas já que eu não posso:
    Boa viagem, até outra vez.

    Bacana o texto Munhoz! O maior trade Off de treinar nos States era voltar no fim de Dezembro pro frio americano e perder essas viagens! Ironia Off (bem Off por sinal)

  8. Rodrigo Munhoz
    28 de agosto de 2012

    Sem dúvida, Lelo! Depois que fui morar nos EUA, nunca mais fiz essas viagens mais longas com o pessoal da natação pelo nordeste… pena! Abração!

  9. Kiki
    29 de agosto de 2012

    Lembrei do JUBs em Fortaleza, seguido de Jericoacoara, curtição pós-Finkel. Mas o post tb me fez lembrar das viagens curtas que o Pancho puxava, principalmente travessias/biathlons/duathlons na praia e cavernas. Teve gente que foi (pras cavernas) e chegou a ser medalhista olímpico 😀

    • Lelo Menezes
      29 de agosto de 2012

      Jubs Fortaleza + Jericoacoara foi espetacular!

  10. Rodrigo Munhoz
    29 de agosto de 2012

    Kiki: Desse JUBs ouvi muitas histórias e fiquei phuto por ter perdido (já morava fora). Não treinei com o Pancho, mas sei que ele era um cara que incentivava as aventuras fora da piscina na turma jovem, o que é ótimo… Qual foi o medalhista olímpico que foi pras cavernas com o Pancho? Pirula? Bjos!

    • Lelo Menezes
      29 de agosto de 2012

      Deve ter sido o Tetsuo!

    • Kiki
      31 de agosto de 2012

      Pirula, mas eu não presenciei. Só ouvi, bem depois, as histórias de que ele não cabia nas passagens “quebra-corpo” 🙂

  11. Marcelo Abdo
    31 de agosto de 2012

    Munhoz, embarquei em algumas destas para acampar na praia do sono. Horas de trilha com mochila nas costas lotada de comida e barraca para alguns dias de sobrevivência. Fico imaginando que o “progresso” tenha chegado até lá, pois nunca mais voltei, e hoje deva ter rua asfaltada e luz elétrica, além de ser proibido acampar na areia!

    BTW… tive a oportunidade de assistir a um show do Rauzito no Olimpia, com pouco mais de 15 anos foi uma boa experiência.

    Alguém poderia postar umas fotos da praia do sono?

    Abs
    Abdo

    • rmmunhoz
      31 de agosto de 2012

      Abdo, em breve, um post deve ser dedicado as viagens ä “Ponta Negra” – como no CPM chamavam a região litorânea ao norte da praia de Larajeiras (Paraty). Aliás, pelo que ouvi dizer, a região ali continua pouco explorada, especialmente depois da P do Sono, Antigos e Antiguinhos… … Seria legal fazer uma viagem exploratória até lá novamente! Topa? Abraços, Munhoz

  12. Pingback: 1989 – O Finkel que não terminou. | Epichurus

  13. Fernando Cunha Magalhães
    24 de setembro de 2012

    Os JUBs foram um grande marco: Belém 87, João Pessoa 88 e São Luis 89, todas saindo e chegando em Curitiba de ônibus. A mais curta 57 e a mais longa 67 horas. Fora a diversão, excelente oportunidade de escapar dos rigores do inverno curitibano.

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Publicado às 28 de agosto de 2012 por em "Causos" fora d'agua, Epicuro, Natação e marcado , , .
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