Epichurus

Natação e cia…

Quem diria que eu voltaria a usar a tabelinha…

O Renato (Cordani) comentou outro dia, no particular, quando um amigo nosso dizia que achava um absurdo nossos nadadores estarem nadando melhor no Torneio José Finkel do que nas Olimpíadas, que “curta é curta e longa é longa. Tempos não são intercambiáveis, nem comparáveis.” Eu até concordo embora ache discutível se de fato são tão incomparáveis assim. Na nossa época de nadador eram. Tínhamos inclusive uma tabela oficial que convertia tempos de 25m pra 50m e vice-versa (ex: 1,2s – 100m costas, 1,4s – 100m borboleta, 1,7s – 100m livre e 2,0s – 100m peito). A confiança na conversão era tanta que teve gente que pegou índice para as Olimpíadas num Finkel em piscina curta. Eu mesmo cansei de fazer tais conversões, inclusive de jardas pra metros (com uma tabelinha que veio numa edição da conceituada revista Swimming World), o que complicava ainda mais a equação. Alias, essa conversão jardas-metros era completamente equivocada. Puxava uma sardinha absurda pra tempos em jardas. Se tempo convertido valesse recorde, meus tempos em jardas seriam recordes sul-americanos em diversas provas, tamanha a discrepância da conversão. O grande problema é que o NCAA confiava na tal tabela e a usava aparentemente pra elaborar seus índices em piscinas de metro. Os índices eram em sua enorme maioria feitos em jardas, mas era possível fazer o índice em metros (25 e 50). Fazer o índice em jardas era muito difícil embora possível, mas em metros (25) basicamente requeria que o nadador fosse um seríssimo candidato a ouro no mundial pra conseguir alcançá-los. Lembro-me que o índice para o NCAA de 100m peito em piscina curta no inicio dos anos 90 era 1’00”1. Só pra dar uma ideia de quão forte era esse índice do NCAA, no Campeonato Mundial de curta em Palma de Majorca (1993) somente o campeão (e recordista mundial na época) Phillip Rogers da Austrália e o medalhista de prata, o holandês Ron Dekker da Holanda conseguiram nadar abaixo do um minuto. Nem Nick Gillingham (4º), nem Sérgio Lopes (não conseguiu final), ambos medalhistas olímpicos no nado de peito, conseguiram o índice do NCAA naquele dia.

Tabela que eu usava pra converter tempos de jardas para metros

Agora, pra quem foi nadador é muito claro a diferença entre piscina curta e piscina longa. Os tempos podem até ser comparáveis, usando as tabelas oficiais da época, mas piscina curta cansa menos, favorece quem é bom de virada, quem sofre no final da prova, quem é mais pesado (dizem), quem não treinou com tanto afinco e dá pra pensar em mais uma ou outra situação onde a piscina curta é diferente da longa, mas só pra argumentar e tentar provar que o amigo que garantiu que os nadadores brasileiros estavam nadando melhor no Finkel do que nas Olimpíadas estava certo, eu resolvi fingir por alguns instantes que os conceitos não mudaram da década de 80/90 e que tais conversões ainda sejam oficialmente aceitas. Tirando da gaveta o velho e empoeirado conversor de curta pra longa eu converti os tempos do Finkel de todos os nossos olímpicos (e mais um ou outro vencedor) para piscina longa e comparei esses tempos com os feitos nas Olimpíadas. O resultado foi claro. Os tempos dos nossos atletas foram muito parecidos em ambas as competições. Pequenas discrepâncias eram de se esperar e as relevei. Kaio Marcio foi o único caso notório no masculino. Ele teria alcançado a 9ª posição nos 100m e a 5ª colocação nos 200m borboleta nas Olimpíadas com seus tempos convertidos do Finkel. Ok, Kaio foi notavelmente mal nas Olimpíadas, nadou bem o Finkel e essas supostas colocações não seriam nenhuma surpresa. Simplesmente estariam dentro do que se esperava dele em Londres.  No feminino somente a performance da Joanna Maranhão nos 200m borboleta chamou a atenção.  Embora nesse caso, ela própria em entrevista apos a prova em Londres soltou os “cachorros” no seu desempenho.

Só que uma prova chama muito a atenção. O 100m costas masculino. Daniel Orzechowsky ficou em 28º nos jogos olímpicos com 55’16. Não foi sua melhor performance, mas considerei um bom resultado dado que foi sua estreia nos jogos. No Finkel, Daniel fez 51’48, quase 4 segundos abaixo da sua marca olímpica e que se convertido pelas tabelas de outrora, daria 52’68 e consequentemente uma prata olímpica. O caso do Guilherme Guido chama ainda mais atenção. Ele que não conseguiu o índice olímpico e portanto não foi para Londres, nadou o Finkel para 50’57, convertido daria 51’77, o que não apenas daria ouro nos jogos como também um recorde mundial de quebra.

Para os leigos pode parecer que Daniel foi mal em Londres e que Guido não ter obtido o índice foi a maior zebra da história da natação mundial, comparável a não convocação do Pablo Morales em 1988. Não foram! No caso do costas é óbvio que a tabela que usávamos na década de 90 está completamente defasada. Guido não tinha chance alguma de ouro olímpico e Daniel não tinha chance da prata (quem sabe em 2016). Muito provavelmente a natação submersa, tão importante nas viradas e responsável por 60% da prova em piscina curta, versus 30% em piscina longa, se desenvolveu de tal forma que a conversão atual deveria ser acima inclusive do nado de peito, quem sabe em torno de 2,2s a 2,5s a cada 100 metros. Assim teríamos uma conversão mais compatível e realista com um Daniel brigando por uma boa posição nas semis (absolutamente possível) e um Guido brigando pela prata.

Uhmmm, caramba, mesmo assim o Guido continua lutando por medalhas? Pois é, parece que o Guido é um caso difícil de explicar. Aparentemente ele nada muito melhor na curta por alguma razão. Seu 50’57 no Finkel nos 100m costas é espetacular e me parece que um tempo desses deveria levar o nadador a nadar entre 52’5 – 53’0 no máximo na longa. Vale lembrar que o bronze em Londres nadou para 52’97. Dito isso, não é meu intuito tentar explicar o porquê o Guido nada muito melhor em piscina curta do que em longa. Imagino que ele próprio e sua comissão técnica estejam trabalhando com afinco pra descobrir essa razão e corrigi-la para os jogos olímpicos do Rio de Janeiro em 2016.

A intenção era entender se de fato nossos atletas nadaram melhor no Finkel do que nos jogos.  Confesso que acompanhando os resultados do Finkel também fiquei com a impressão que pareciam melhores do que os resultados olímpicos.  Usar a velha tabela foi a única ideia que tive pra tentar comparar o desempenho em ambas as competições.   Talvez tenha sido em vão, como comparar laranja com banana, mas achei interessante que, com exceção do nado de costas, a minha velha tabelinha parece que continua funcionando muito bem!

17 comentários em “Quem diria que eu voltaria a usar a tabelinha…

  1. MIYAHARA
    16 de setembro de 2012

    SESACIONAL LELO.

    • Lelo Menezes
      18 de setembro de 2012

      Valeu Miha!

  2. Daniel Takata
    17 de setembro de 2012

    Muito bom post, eu até já estava me incomodando quando você converteu os tempos do Guido e do Orzechowski, mas obviamente você não iria deixar passar a maior influência do nado submerso hoje em dia comparado com 20 anos atrás! Aliás podemos tentar atualizar essa tabela baseado-se em rankings atuais. Acredito até que a conversão para o borboleta hoje em dia é acima do 1.4s

    • Lelo Menezes
      18 de setembro de 2012

      Obrigado Daniel! E’ possível sim que o borboleta também esteja um pouco defasado. Quem sabe um estudo comparando os tempos do Finkel vs Maria Lenk dos últimos anos nos daria uma tabela bem fidedigna? Vale o estudo!
      abs

  3. Marina Cordani
    17 de setembro de 2012

    Legal, Lelo. A conversão de costas tem que ser outra mesmo, mas não somente por causa da parte submersa. Naquela época, a virada em si era muito diferente: o sujeito tinha que chegar na borda de costas, tocar a mão de costas, e daí jogar as pernas num movimento de encolhidinha abdominal, e dar impulso com os pés, de costas. Hoje em dia, como se sabe, ele pode virar de frente perto da borda sem precisar tocar nada e fazer uma virada estilo livre, tocar somente os pés na hora do impulso. Dá uma diferença enoooooorme!

    • Lelo Menezes
      18 de setembro de 2012

      Valeu Marina!

    • Fernando Magalhães
      20 de setembro de 2012

      eu era craque na virada de costas estilo “Rômulo Arantes”.

  4. Marina Cordani
    17 de setembro de 2012

    Se bem que agora, pensando melhor, acho que essa tabela já era da época da virada “nova”…

    • rcordani
      17 de setembro de 2012

      Não, Marina, essa tabela já vigorava quando tinha que dar a virada batendo a mão.

  5. rcordani
    17 de setembro de 2012

    Boa Lelo, por partes:

    1- caso Kaio Marcio, ele tipicamente é melhor em curta pois tem uma golfinhada excelente. Além disso não estava com a saúde 100% em Londres.

    2- costas – realmente como disserram Takata (submerso) e Marina (bater a mão), a conversão de costas está totalmente defasada. Fazendo uma conta simples, hoje em dia em curta temos 60m submerso – 40m natação em curta, contra 30-70 em longa. Praticamente outra prova.

    3- ainda assim, acho que de uma forma geral os caras da seleção foram melhor no Finkel. Mas aí é o tal negócio, é BEM mais fácil nadar um Finkel que uma olimpíada! A pressão olímpica não é NADA fácil…

    • Lelo Menezes
      18 de setembro de 2012

      Valeu R. Concordo com 1 e 2. O 3 eu tenho minhas duvidas. Um cara do nível desses atletas não pode sofrer tanto com a pressão olímpica assim! Entendo se for uma estreia na primeira olimpíada (caso do Daniel) mas os outros são veteranos. A pressão e’ grande sem duvida, mas esses atletas não devem sofrer a ponto de atrapalhar a performance. Pelo menos não deveriam…

  6. Rodrigo Munhoz
    17 de setembro de 2012

    O que eu acho interessante é que em nadadores deste nível (internacionalmente conhecidos) o fator “facilidade” de se nadar um Finkel vs Olimpíada (a tal “pressão”) não deveria ser um fator preponderante… mas obviamente, isso nao é verdade. Já dissemos aqui que nadar uma Olimpiada ao invés de ser motivação, parece ser um peso para a maioria. Como melhorar/mudar essa parte? Só trabalho de psicólogo não vai ser suficiente, imho.

    • Lelo Menezes
      18 de setembro de 2012

      Boa Munhoz! Como eu disse pro R. eu não tenho tanta certeza que seja obvio que esses caras sentem a pressão olímpica. Eu acho que o baixo rendimento da maiorias dos nossos nadadores nos jogos tem muito mais a ver com o foco nas seletivas do que nos jogos. Inclusivo acredito que a pressão que eles tem pra conseguir os índices seja maior do que a pressão de nadar as Olimpíadas. Acabada a ultima seletiva, o convocado(a) da aquela relaxada e tem a impressão do dever cumprido. Exceção obviamente do Cielo e do Pereira que focam os jogos!

  7. Guilherme Tucher
    17 de setembro de 2012

    Takata e demais amigos, vamos a estatística. Pegamos os tempos atuais como referência e refaçamos as contas.

    • Lelo Menezes
      18 de setembro de 2012

      E’ isso ai Guilherme! Como eu disse la em cima no post do Takata, acho que um comparativo entre Finkel e ML nos daria uma boa nova tabela!
      abs

  8. Guilherme Tucher
    20 de setembro de 2012

    Lelo, manda os tempos para mim. Vou tentar aqui…

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Publicado em 16 de setembro de 2012 por em Natação, Olimpíadas.
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