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Natação e cia…

Agradeçam ao Phelps…

Será que Michael Phelps, com seu talento incomparável, conseguiu mudar completamente o perfil do nadador de medley? Será que quem não acompanhar essa mudança vai ficar de fora dos próximos pódios olímpicos? Eu comecei a notar essa mudança já faz um bom tempo, mas nunca tinha parado pra confirma-la. Dessa vez o fiz e vi que estava certo!

Pra explicar resolvi voltar 30 anos no tempo, pra época que eu comecei a curtir e acompanhar a natação de perto, pra época do Ricardo Prado. De 1981 até o aparecimento do Phelps, as provas de Medley tiveram sete recordistas mundiais.

Alex Baummann quebrou seu primeiro recorde mundial em 1981, na prova dos 200m Medley. Seu principal nado era o costas, mas nunca fez história nesse estilo. Baummann quebrou 5 vezes o recorde mundial. O canadense tem dois ouros olímpicos, ambos em Los Angeles, assim como uma prata e um bronze em campeonatos mundiais, tudo nas provas de Medley. Baummann foi eleito pelo Swimming World Magazine como o Melhor Nadador do Mundo em 1981 e 1984. Uma curiosidade sobre ele é que na verdade é tcheco, mas se naturalizou canadense já que se mudou com a família para o país com apenas 5 anos de idade.

Alex Baummann

Alex Baummann

Ricardo Prado foi o próximo a quebrar o recorde mundial, em 1982, nos 400m Medley. Todos sabemos da trajetória do Pradinho, como também sabemos que ele nadava muito bem borboleta e costas, mas medalha olímpica mesmo, só aquela de prata em Los Angeles, além obviamente do seu ouro no mundial de 1982. Tudo no Medley.

Ricardo Prado

Ricardo Prado

O quase desconhecido Jens-Peter Berndt (embora tenha sido prata no Mundial de 1982 vencido por Prado) quebrou o recorde mundial dos 400m Medley apenas dois meses antes das Olimpíadas de Los Angeles, o que o colocou como favorito nos jogos. Infelizmente devido ao boicote da Alemanha Oriental, Berndt não nadou as Olimpíadas. Inconformado, durante uma competição nos Estados Unidos, pediu asilo e passou a viver por lá embora tenha escolhido competir pela Alemanha Ocidental. Berndt tinha o costas como seu principal estilo, mas história mesmo fez só nos 400m Medley com o recorde mundial. Em Seoul, nessa prova, já em final de carreira, ficou somente na 6ª posição. É o único recordista mundial de Medley a partir de 1980 sem medalha olímpica.

Jens-Peter Berndt

Jens-Peter Berndt

David Wharton foi o próximo. Quebrou o recorde mundial dos 400m Medley em 1987. Dois anos depois bateria o recorde mundial dos 200m Medley. Wharton também nadava borboleta e chegou a ser prata nos 200m no Pan Pacific Games, mas fez história somente no Medley com os dois recordes mundiais e uma prata nos 400m nos jogos Olímpicos de 1988. Em 1992, em Barcelona, amargou a 4ª colocação. Curiosamente Wharton foi responsável pelo minha decisão de abandonar de vez a prova dos 1500m Livre. Numa competição na piscina da USC, em Los Angeles, nadei a prova ao seu lado. Estava frio e chuvoso e coincidentemente de férias pela Califórnia, nosso colega Claudio Mattos foi assistir a competição. Wharton me passou 100m, num dos maiores vexames da minha carreira de nadador. Nunca mais nadei os 1500m.

David Wharton

David Wharton

Logo após Wharton veio aquele que considero o maior nadador de Medley da história, Tamás Darnyi. Darnyi quebrou o recorde mundial dos 400m Medley também em 1987, apenas cinco dias após o recorde de Wharton. Tamás Darnyi foi imbatível em provas de Medley em competições oficiais de 1985 a 1993. Foram 8 anos de domínio absoluto. Algo que acredito nem Phelps conseguiu fazer. Foram 6 recordes mundiais, tetra campeão olímpico e mundial. Eleito pela Swimming World Magazine como o Maior Nadador do Mundo em 1987 e 1991. Ele era um grande nadador de borboleta e costas e chegou a ser campeão europeu nos 200m Borboleta, mas a história o lembrará somente pelo Medley.

Tamás Darnyi

Tamás Darnyi

Em 1994 foi a vez do finlandês Jani Sievinen quebrar o recorde mundial dos 200m Medley. Jani nadou quatro Olimpíadas, mas medalha mesmo somente a prata em 1996. Em Mundiais tem um ouro e uma prata. Sievinen também nadava costas e livre e chegou a ser campeão europeu nos 200m Livre, mas como seus antecessores só fez história no Medley.

Jani Sievinen

Jani Sievinen

E o último recordista mundial antes do fenômeno Phelps, foi o americano Tom Dolan, outro que fez história no Medley. Dolan quebrou o recorde mundial dos 400m Medley em 1994 e novamente em 2000. Foi bicampeão Olímpico nos 400m Medley (1996 e 2000), e também Mundial (1994 e 1998). Dolan se aventurava nas provas de fundo e chegou a ser campeão do NCAA, mas a história o lembrará pelo seus feitos no Medley.

Tom Dolan

Tom Dolan

Enfim, tudo isso pra deixar claro que os principais nadadores de Medley da história, antes de Phelps, só nadavam Medley. É obvio que todos eles se destacavam também em algum estilo, algo necessário para figurar entre os melhores do mundo no Medley, mas o foco parecia ser exclusivo na prova 4 estilos.

Aí veio ele, Phelps, quebrando o recorde mundial das provas de Medley um total de 16 vezes. Só que o cara não fez como seus antecessores. Ele expandiu seu domínio pro borboleta, estilo que quebrou 10 vezes o recorde mundial. E porque parar por ai? O maluco foi lá e quebrou também o recorde mundial dos 200m livre duas vezes. São cinco medalhas olímpicas no Medley, mas são seis de borboleta e duas de livre. Ou seja, mesmo sem contar os revezamentos, o cidadão que muitos consideram como o maior nadador de Medley de toda a história tem mais medalhas de outros estilos.

Bom, só que aí vai ter muita gente dizendo que o Phelps é de outro planeta, que não é parâmetro e tal, o que é um fato! Só que os principais nadadores de Medley após o Phelps parecem que estão indo no mesmo caminho. Vamos falar de Lochte, Cseh, Pereira e Hagino.

Lochte por sua vez é outro fenômeno e tem medalhas olímpicas e de mundial de Medley, Costas e Livre. O carequinha Cseh tem medalhas olímpicas e de mundial de Medley, Borboleta e Costas. O mais novo deles, o japonês Kozuke Hagino está indo no mesmo caminho. Além de medalhista olímpico de Medley, nesse último mundial Hagino já levou pra casa medalhas de Medley e Livre, além de sério candidato a medalha de costas no próximo mundial/olimpíada.

Bom, aí sobra Thiago, que é o único da turma que aparenta ter o mesmo perfil dos antecessores de Phelps. Destaque histórico mesmo só no Medley, embora seja um grande nadador dos 4 estilos. E talvez seja exatamente isso que o diferencia do grupo. Todos esses ex-recordistas mundiais tinham um estilo fraco. Curiosamente a maioria deles tinha o peito como calcanhar de Aquiles, como Prado, Baummann e Wharton por exemplo. Thiago não tem nenhum estilo fraco. O cara simplesmente manda bem em todos eles. Talvez Thiago seja o único, entre esses grandes campeões, que pode bater no peito e dizer que não é PEBA em nada. E talvez seja essa condição ANTIPEBA que o coloque no mesmo patamar dos grandes da era Phelps, mesmo sem ser um fenômeno em nenhum estilo.

De qualquer forma tá claro que pra ser medalhista olímpico de Medley hoje em dia tem que ser medalhista olímpico também de outro estilo. Ou isso, ou é bom você ter talento pra brigar por final olímpica em todos eles. Agradeçam ao Phelps por esse novo e obviamente mais difícil patamar. Dureza hein!

17 comentários em “Agradeçam ao Phelps…

  1. Fernando Cunha Magalhães
    15 de agosto de 2013

    Legal Lelo, muito bacana a retrospectiva.

    Realmente foi esquisito ver o Lochte na raia 4 na final dos 100 borbo e o Cseh faturando a prata na mesma prova do último mundial.Parece que são mesmo PEBAS em peito, mas nesse caso, PEBA deve significar fazer 1.02 alto ou 1.03 na longa.

    O Thiago também encarou os 100 borbo. Achei que mandou muito bem, porém, na entrevista ele mandou “eu já esperava fazer aqui abaixo de 52s”, ou seja, parece ter planos a médio prazo para a distância e incluindo treinos de potência no dia a dia, ainda pode melhorar bastante. Vamos torcer.

    Nesse nível os caras são muito fortes e mesmo nas provas em que não são super especialistas, devem sair tempos ótimos. Será quanto o Cielo faria em 100 borbo ou 200 livre? Arrisco 51s alto e 1m47s que são tempaços, poderiam até levá-lo a uma final mas sem chances de ouro, então não há porque gastar as energias com isso em grandes eventos.

    Voltando ao medley, dureza mesmo e como o Phelps, deve levar uns 40 anos até aparecer outro.

    • Lelo Menezes
      16 de agosto de 2013

      Valeu Esmaga. Como eu disse em algum post anterior, eu acho que o Thiago deveria focar somente nos 200m Medley pro Rio em 2016. Talvez alguma outra prova que venha antes pra dar aquela famosa “entrada” na competição, pra acalmar os nervos e tal. O Thiago acho que tem condições de brigar por final de Olimpíada em praticamente todos os estilos, nas provas de 200m, mas acho improvável que brigue por medalha a não ser no Medley, ainda mais no Rio quando já tiver passado dos 30. E quanto ao Phelps, acho que não seria nenhum exagero dizer que talvez nunca veremos alguém como ele!

      • Fernando Cunha Magalhães
        26 de agosto de 2013

        Também creio nisso em relação ao Phelps. Apenas somei aos dias de hoje o tempo que levou para surgir o Phelps depois do Spitz para dar uma chance a estatística.

  2. Fernando Cunha Magalhães
    15 de agosto de 2013

    Se não me engano, Jens venceu o Piu por 2 centésimos na final dos 200m costas em Seoul.

    • rcordani
      16 de agosto de 2013

      Falando em 200 Costas, Prado foi quarto nessa prova em Los Angeles, então em pelo menos um caso ele provou não ser peba em uma prova de não-medley.

      • Lelo Menezes
        16 de agosto de 2013

        Sim, o Darnyi foi bronze nos 200m Borboleta no Mundial também. O fato é que ninguém lembrará do Prado pelo costas, ou do Darnyi pelo Borboleta, ou do Sievenin pelo Livre, ou do Bernt pelo costas e assim por diante. Já essa nova geração será lembrada não somente pelo Medley, mas também pelos títulos em outros estilos, como no caso do Phelps e do Lochte por exemplo

      • Fernando Cunha Magalhães
        26 de agosto de 2013

        De fato, mandou 2.03 numa disputa acirrada, que assisti ao vivo na TV e torcia fortemente pelo bronze.

    • Lelo Menezes
      16 de agosto de 2013

      Venceu por um pouco mais que isso. Quem o venceu por 2 centésimos foi o Veatch

      1. Igor Polyansky URS 1.59,37
      2. Frank Baltrusch GDR 1.59,60
      3. Paul Kingsman NZL 2.00,48
      4. Sergei Zabolotnov URS 2.00,52
      5. Dirk Richter GDR 2.01,67
      6. Jens-Peter Berndt FRG 2.01,84
      7. Daniel Veatch USA 2.02,26
      8. Rogerio Romero BRA 2.02,28

      • Fernando Cunha Magalhães
        26 de agosto de 2013

        Boa Lelo! Minha memória já não é mais a mesma.
        Esse Polyansky nadava muito feio. Lembra?

  3. Rodrigo M. Munhoz
    16 de agosto de 2013

    Lelo,
    Belo levantamento histórico!
    Não lembrava do finlandes nem de nome. Estranho…Mas em comum mesmo, acho que esses caras citados acima tem uma coisa mais importante que o nado medley: Nenhum era Peba!!!
    Abraços!

    • Lelo Menezes
      16 de agosto de 2013

      Valeu Modena! Sim, sem dúvida nenhum é PEBA de medley, mas essas caras antigos eram PEBAs em algum estilo. Vide Ricardo Prado e o peito! Hoje não dá mais pra ser assim!

  4. rcordani
    16 de agosto de 2013

    Muito boa Lelo. Concordo que todos são fenomenalmente excepcionais, exceto um deles, que é hors-conours, extraterrestre: o Phelps.

    E acho que não entendi o título: por que devemos agredecer o ET?

    • Lelo Menezes
      16 de agosto de 2013

      O título foi em ironia on. Agradecer ao ET porque ele elevou os pré-requisitos pra se ganhar medalha olimpica no medley. Antes dele bastava ser muito bom em alguns estilos. Hoje aparentemente o cara precisa ser medalhista olímpico de algum estilo pra conseguir medalha no medley, com Thiago sendo a exceção.

  5. Sidney N
    16 de agosto de 2013

    Lelo, muito interessante o levantamento. Um fato me chamou a atenção: nenhum dos nadadores pré e pós-Phelps mencionados tem o peito como nado forte (como pensava que acontecia na maioria dos casos). Talvez quem mais se aproxime seja o Thiago.

    Observando a nova geração, a hipótese da especialização ganha força quando vemos o caso de Tyler Clary, campeão olímpico dos 200m costas.

    • rcordani
      16 de agosto de 2013

      Minha impressão é que faz tempo que o medley é dominado pelo pessoal do costas, tanto é que em Londres o 1:08 de peito do Thiago destruiu todo mundo.

      • Lelo Menezes
        16 de agosto de 2013

        Valeu Sidney! E o Renato está certo! A maioria desses recordistas mundiais tinha costas como o melhor estilo, embora não são poucos os que tem borboleta. O fato é que 90% dos grandes nadadores de medley tem esses dois estilos como principais. Acho que o peito é um estilo muito diferente de todos os outros e é raríssimo ver nadadores de peito nadando bem algum outro estilo. Em nível olímpico não me vem nenhum na cabeça. Szabo, Barrowman, Kitajima, Davis, Van Der Burg, Moses, Hansen, Sprenger, Gyurta me parecem que eram/são exclusivos nadadores de peito. Exceção foi o Lundquist que chegou a ter o WR dos 200m Medley com 2’04 em 1978, recorde esse que durou apenas poucos dias em prova que o Lundquist não conquistou nada a não ser um bronze nos jogos Panamericanos de 1983.

  6. Luiz Renato (Rena)
    19 de agosto de 2013

    Só acrescentado Lelo, o Lotche sempre teve um parcial forte de peito nas provas de medley, apesar de não disputar as provas deste estilo em competições mundiais. No mundial de Barcelona teve a melhor parcial de peito nos 200 medley com 33 baixo e em londres a segunda nos 400 medley com 1:09.67 sendo superado somente pelo fenomenal 1:08.55 do Thiago, quando os melhores demais finalistas nadaram para 1:11; ou seja o cara é fenomenal em seu pior estilo quando nada o medley.

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