Epichurus

Natação e cia…

Sobre as malignas expectativas…

Como o leitor atento já está cansado de saber, esse blog tem como público majoritário ex-nadadores. E é muito interessante constatar como a relação que o ex-nadador tem com a sua própria carreira independe completamente das vitórias conquistadas, conforme já abordado pelo Lelo nesse post e cujo assunto retomo agora. No caso em questão, uma contusão destruiu as sensações a respeito de uma carreira que, olhando de fora, é ultra vitoriosa. Mas  já estou me adiantando, então deixa eu começar pelo começo…

Jaime Mitropoulos era um nadador de medley muito bom cujo melhor estilo (eu achei que) era costas, mas que no ano de 1990, ao perceber que o nado de peito era dominado por pebas e semi-pebas, resolveu focar esforços nesse estilo. O talento do cidadão mais os treinos específicos de peito logo deram resultado: pegou o bronze nos 100P e prata nos 200P no Finkel de 1990, e no final do mesmo ano ganhou respectivamente a prata e o ouro nos 200 e 100m Peito no Troféu Brasil que relatei amargamente aqui.

RCordani_JMitropoulos_1990

Jaime Mitropoulos e a minha pessoa duelando nas eliminatórias dos 200P do TB de 1990.

Em 1991, Jaime mudou para o Minas Tenis Clube e ganhou os 100 Peito no Finkel (que foi seletiva para o Pan no JD em longa) com certa facilidade. Assista abaixo a prova dos 100 Peito, com direito a recorde de campeonato.

Apesar da (audível no vídeo) comoção do público por ele não ter pego o índice do Pan de Havana – 1991 por apenas 0.20s, ele acabou obtendo a vaga para a perna de peito do 4×100 medley e foi para Cuba.

Pan_1991

Seleção Brasileira no Pan de 1991 (“roubei” a foto do Facebook do Cassiano). Jaime Mitropoulos está na fila do meio, o penúltimo da esquerda para a direita logo antes do Reinaldo.

Ou seja, em 1991 Jaime Mitropoulos era o melhor nadador de peito do Brasil. Pelos cálculos do Lelo na época, com cerca de 1:04 o sujeito poderia nadar peito no reveza das Olimpíadas de Barcelona. E após o brilhante Finkel, quem duvidaria que um ano mais tarde  Mitropoulos conseguiria baixar mais um tiquinho, menos de 1s, e obter a vaga olímpica?

Pois bem, isso não aconteceu. Após o Pan de 1991 Jaime Mitropoulos sumiu. Não nadou o Troféu Brasil de janeiro de 1992 em BH, não apareceu para as eliminatórias olímpicas no Fluminense em maio de 1992 e para falar a verdade eu nunca mais o vi ou ouvi falar dele.

Até a semana passada.

Quando esse que é (era) um dos grandes mistérios da natação brasileira foi desvendado pelo desconcertante comentário do próprio Jaime em um post antigo aqui no Epichurus.  Mas como ficou perdido em um comentário temporão, temo que nem o mais atento leitor acabou lendo. Portanto trago-o à tona para o nosso imenso público, uma das maiores audiências em blogs brasileiros de natação com nome disfarçado de filósofo do mundo! Eis o explosivo comentário.

Já que fui citado….preciso emergir.
Maravilhosa narrativa, Renato. Parabéns. É, naquela época eu tentava nadar o peito. antes havia tentado o costas, o borb…..o medley (já que havia tentado um pouco de cada um, antes)
E nada. rss
Mas logo os ombros me fizeram virar a página. Foram os dois para o espaço.
Aquele TB de 1990 foi meu último. Lamentei durante anos e anos. Deixei até de ver natação na TV, de acompanhar, tamanha a tristeza (acho que é a primeira vez que falo sobre isso, depois de 21 anos).

Mas hoje me trouxeram até aqui para ler seus comentários. Talvez tenha sido um presente de aniversário que veio flutuando. Obrigado a vocês.
Parabéns pelo espaço!!
Jaime Mitropoulos

Depois de ler esse comentário não pude deixar de trazê-lo para um post e, além de agradecer ao Jaime por contribuir com as nossas lembranças que vão se compondo e construindo, concluir com o mote do primeiro parágrafo: como uma carreira tão vitoriosa de um nadador  que ganhou ouro em Troféu Brasil + Finkel e ainda nadou um Panamericano pelo Brasil pode ter deixado tamanha tristeza?

OK, eu sei, a contusão destruiu o sonho olímpico, isso deve doer muito, mas lá se vão 22 anos! Creio ainda haver tempo para uma reavaliação, e  talvez esse post possa contribuir para isso.

Malignas expectativas!

Sobre rcordani

Palmeirense, geofísico e nadador master peba.

29 comentários em “Sobre as malignas expectativas…

  1. Lelo Menezes
    19 de agosto de 2013

    Muito bom o texto! Conheci o Jaime no inicio de 1989, durante o Troféu Julio Delamare. Nos 400m Medley o busquei no final e consegui a prata. Ele ficou com o bronze. Essa prata foi muito importante pra mim, pois com o ouro dos 200m peito foi suficiente para minha primeira convocação pra seleção brasileira. O Jaime foi também convocado, assim como o Munhoz. O Jaime, se não me engano, foi chamado pelos 200m Medley e os 200m Costas, ou seja, não nadava peito mesmo!

    O que mais me impressionou dele em um Finkel em Santos nos 100m Peito quando nadou na raia do canto perto da arquibancada (não sei dizer se era a 1 ou 8) e acabou com a prata!

    • rcordani
      19 de agosto de 2013

      Sim, ele ficou primeiro reserva, aí o Hermeto se machucou e saiu da final, ele entrou na raia oito e pegou medalha.

      Engraçado que eu não me lembro de na época perceber a ausência dele no TB de BH, a gente simplesmente achava natural que as pessoas parassem de nadar. Vendo hoje, só uma contusão pode explicar a ausência dele nas eliminatórias olímpicas de 1992.

      • Lelo Menezes
        19 de agosto de 2013

        Pois é! A partir de 1990, por causa do NCAA em Março, em “parei” de dar tanto valor ao Troféu Brasil, então tenho poucas lembranças dos TBs de 90 em diante, pelo menos até 1993. Já os Finkels eu vinha com “sangue nos olhos”. Talvez por isso eu não tenha sentido também falta dele no TB de Minas (se não me engano fui mal e sai somente com um bronze nos 100m peito). Mas a falta dele no Fluminense (eliminatória Olímpica) deveria ter sido notada. Engraçado que acho que foi nessa época que rolou um “shift” nos meus adversários. Em 1992, que eu me lembre pelo menos, não tinha mais Hermeto, Cicero, Vicente, LAM, Jaime, e os novos nomes eram o Oscar, o Gustavo Lima, o Marcão!

        Alias, essa eliminatória do Fluminense, embora sensacional pro Tetê, parece que foi um pesadelo pra muita gente, eu inclusive, e quem sabe merece um post por si só.

      • rcordani
        19 de agosto de 2013

        1) o sr. NÃO FOI no TB de BH em janeiro 1992.

        2) sim, esse post sobre essa seletiva o sr. prometeu faz tempo.

  2. Alvaro Pires Vreco
    19 de agosto de 2013

    Bacana o post Renato. O Jaime nadava bem tudo. Lembro bem dele, tem a minha idade e nadavamos desde crianca, Em grande parte das competicoes a equipe do America se resumia a ele somente. Qdo vi o post dele acabei me lembrando da ultima vez q o encontrei a beira da piscina na Academia da Praia aqui no Rio. Era um sabado no final de 2001 e a equipe da academia treinava p o carioca de master de 2001. Ele tava dando uma olhada e eu brinquei perguntando qdo ele ia dar umas bracadas ali c a gente. Nao sabia do problema do ombro e na saida parei p trocar algumas palavras c ele sobre a vida, trabalho etc. Sempre o achei bastante reservado e fiquei tocado c o depoimento dele aqui. gr ab

    • rcordani
      19 de agosto de 2013

      Boa Vreco. Imagino quantas vezes o CRF convidou-o para ir para a Gávea, e ele resistiu bravamente até que foi para o MTC.

      Como eu disse no FB, incrível como alguns de nós repudiam esse passado todo. Cada um com seus motivos. O Grangeiro por exemplo é outro que se escondeu no interior de MG e sumiu!

      • Alvaro Pires Vreco
        19 de agosto de 2013

        Certamente convidaram p treinar no Fla muitas vezes. Engracado q me lembro dele nadando peito em cariocas mas nao sei dizer o(s) ano(s). Me lembro do meu padrasto na epoca dizendo q tinha um amigo tb eng da cedae aqui no Rio q tinha um filho q nadava no America e esse cara era o Jaime. A imagem q a gente tinha dele eh q gostava de treinar sozinho … e depois foi p o Minas ? Imagem parecida q a gente tinha do meu amigo Mauricio (Cunha) q era muito craque.
        Falei c o Granja por tel 1 ano atras e quase soltei fogos de artificio, achei praticamente um milagre ! hehe O cara era um monstro. Engracado q saiamos juntos aqui no Rio e ele se encabulava um pouco qdo o assunto natacao vinha a tona.

      • rcordani
        19 de agosto de 2013

        O caso do Granja merece um post também. Segundo um chegado nosso, ele se dedicou tanto e se decepcionou tanto ao não conseguir a vaga olímpica para Seul com 18 anos que deu um revertério no cidadão e ele passou a odiar a natação. Sintoma aliás nada incomum, basta ver os inúmeros casos por aí.

  3. Fernando Cunha Magalhães
    19 de agosto de 2013

    Bela homenagem a Mitropoulos – não tenho certeza sobre o ouro em JD, mas acredito que tenha rolado – logo, detentor da tríplice coroa. Belas conquistas que merecem um tratamento mais carinhoso dele próprio com o que conseguiu realizar. Ainda é tempo. Espero que aconteça!

    Também fui um dos que se surpreendeu com a rápida ascensão no nado de peito. Certamente era só o começo.

    Vários nomes de grande talento, nem um pouco pebas, ficaram longe dos seus limites pelo desconhecimento na época de como trabalhar os ombros de uma forma equilibrada para prevenir lesões. Castor e Banana são dois que acompanham Jaime e estão no topo dessa lista.

    Agora esse video tá muito bacana. Talvez a despedida do Cicero ainda beliscando uma medalha, a ótima performance do Álvaro Terlizze, meu colega no ECP (foi meu primeiro brasileiro no novo clube) e a lembrança de todos os outros finalistas.

    Impagáveis os comentários da menina ao lado do pai do Lelo, deve ser do Mengo: “Vai Cicero, vai Mineiro, vai Guga” (2 do Flamengo, 1 do Minas), e a amiga: “tinha que falar, né?!”… mais algumas palavras e sai um “gostoso” no meu do caminho… hehe. Bem divertido.

    • rcordani
      19 de agosto de 2013

      Banana tem um futuro post garantido. Castor idem. Malditos ombros!

      O filminho é muito bacana mesmo, quem será a mina ao lado do sr JGM?

      A performance do Alvaro Terlize foi sua melhor all time.

      E creio ter sido a despedida do Cícero.

      Resgatar a história, lá vamos nós!

  4. Raul Magalhães
    19 de agosto de 2013

    Jaime Mitropoulos treinou com o Silvio Martins? Em 91 o Silvio “Sivuca” foi dar treino pra gente, juvenis na época, no Álvares Cabral-ES. Grande cara, grande técnico, muito boa praça e grande amigo até hoje. Adorava falar de um Jaime que treinou com ele, que nadava tudo, peito, costas, borbo, medley (imagino que seja o mesmo Jaime do post). Usava as histórias do Jaime como exemplo de talento, coragem e dedicação. E fez parte da carreira peba desse que vos fala. A gente se atém demais aos resultados, mas não faz ideia da repercussão que a nossa vida pode fazer na história dos outros. Chegar na frente é importante, mas o que você faz pra chegar (ai não importa a posição) é muito mais! Abraços.

    • rcordani
      19 de agosto de 2013

      Olá Raul, não conheço o Sivuca, vamos deixar para os cariocas responderem. Que eu saiba Jaime começou no America, foi para o Guanabara e depois para o MTC por um breve período e fim. Teria o Sivuca sido seu técnico em algum desses clubes?

      Quanto à sua última frase: na mosca.

  5. Rodrigo Munhoz
    19 de agosto de 2013

    Boa Renato!

    Expectativas podem ser fatores de frustração, sem dúvida… Mas são fatores de motivação também. Há que entender como lidar com isso. Eu mesmo nunca aprendi direito, acho…hoje acho que devemos trabalhar para minimizar expectativas próprias, especialmente quanto a resultados que não dependem totalmente do nosso empenho. Mas isso não funcionaria tão bem na época de natação competitiva.
    Foi muito legal ter noticias do Jaime na semana passada, então esse post veio bem a calhar. Lembro bem dele por duas coisas: O cara era super versátil, nadando bem várias provas e era sempre bem humorado no pré-prova, garantindo umas risadas. Foi esquisito quando sumiu. Soube do problema do ombro um tempo depois. Uma pena. Deixo meu abraço para ele por aqui.
    E pena também que eu não tenha conseguido estar nessa final… Se bem que eu teria ficado bem para trás, então pegaria mal pra posteridade de qualquer forma.
    Prova muito bem filmada pelo Tio João Guilherme, a exceção do foco no placar, que tava difícil. E os comentários femininos são uma atração a parte.. Acho que eu reconheci uma das vozes, por sinal, mas não vou falar por aqui para não gerar polemicas.

    Abraços!.

    • rcordani
      19 de agosto de 2013

      Munhoz, nesta foto a gente vê que você nadou esse Finkel pelo CAP. No TB seguinte (jan 1992 no MTC) o sr. foi bronze nos 100P, estranho o sr. não ter pego final nesse JF, o que aconteceu?

  6. Roberto Veirano
    19 de agosto de 2013

    O Jaime sempre foi um verdadeiro gentleman, um cara super-educado e muito na dele. Nadei com ele muitas vezes, e certamente devo ter perdido a maioria. Creio que eu era 1 ano mais velho (sou de dez de 70). Felizmente antes de eu me aposentar ele nao tinha trocado o costas e o medley pelo peito!
    Gostei muito de ler este post; deixo um grande abraco ao vitorioso Jaime.

  7. Marcelo Menezes
    19 de agosto de 2013

    Só vi o vídeo agora. Caraca, foi forte esse Finkel. Fiquei em 5º mas sinceramente nao lembro dessa prova.

    • rcordani
      20 de agosto de 2013

      Nos 200P o sr. ficou em segundo, obtendo a vossa primeira medalha de Finkel.

  8. Sidney N
    21 de agosto de 2013

    Muito bom! Como sempre tudo depende se vemos o copo meio cheio ou vazio. Para a maior parte de nós, pebas mortais, as conquistas do Jaime teriam sido mais do que suficientes para satisfazer as mais ambiciosas aspirações aquáticas. Mas para quem chegou tão perto quanto ele, imagino que a última impressão é a que tenha ficado. Como bem colocou o Renato, também espero que o tempo tenha-o ajudado a colocar a carreira vitoriosa em perspectiva,

    • rcordani
      21 de agosto de 2013

      Sidney, como você bem sabe às vezes até uma prata olímpica pode causar desgosto, vide o “caso Ricardo Prado”. Felizmente, naquele caso houve a reavaliação e o devido reconhecimento (tardio) pessoal à medalha de prata. (pelo menos é a sensação que ficou para mim)

  9. Pingback: Finkel 2013 – Impressões de alguém “quase de fora” « Epichurus

  10. jaime mitropoulos
    27 de setembro de 2013

    Vocês são realmente surpreendentes.
    só hoje voltei para reler o que havia escrito e vi os comentários.
    Até de gentleman o Veirano me chamou. Fiquei impressionado com isso. rs
    Acho que é por essas e por outras que ele já usava óculos de grau (diga-me, Roberto, se isso não é verdade)
    Que bom poder revê-los aqui.
    Quanto aos ombros, eles ainda dão muito trabalho.
    Se eu contar o que aconteceu depois que eu postei aquela mensagem do dia 13 de agosto…
    não vou cometer essa crueldade, pois vão jogar tudo (nos ombros) dessa data, contra a qual nada posso ter.
    afinal nasci numa sexta 13 de agosto (71) e me considero um sujeito de sorte.
    Aprendi na marra que quando uma porta se fecha várias janelas se escancaram.
    é verdade que quase sempre precisamos procurar muito por elas.
    Um grande abraço a todos,
    Jaime.

    • rcordani
      27 de setembro de 2013

      Boa Jaime, você já havia visto o vídeo dessa prova ou foi a primeira vez?

      Abraços

  11. Pingback: Cenas do próximo capítulo – o Finkel de 1993. « Epichurus

  12. Pingback: Até 2014. « Epichurus

  13. Leonardo Kolenkine
    25 de março de 2015

    Meu nome é Leonardo. Fui colega do Jaime Mitropoulos na faculdade (Faculdade Mineira de Direito — PUC/MG), em 1993. Gostaria de saber como entrar em contato com ele.
    Um abração a todos

  14. Pingback: A despedida | Epichurus

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Publicado às 19 de agosto de 2013 por em Natação e marcado , , , , .
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