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Natação e cia…

O Trem Olímpico

O trem Brasil levava dez mil nadadores rumo à Estação Olímpica.

embarque_trem_brasil

Sete mil desceram logo na primeira estação, a estação “parei cedo”. Essa turma começou a nadar bem cedo na escolinha, eles até tinham jeito para a coisa, mas a preguiça venceu e acabaram parando no primeiro inverno. Cobertores e bolachas recheadas triplicaram as vendas na lojinha da estação.

Estação_parei_cedo

O trem seguiu rumo aos jogos olímpicos com três mil nadadores, que nadavam os quatro estilos, mas dois mil deles desceram na estação “demorei para crescer”. Muitos desses eram talentosos, mas perdiam dos que atingiram a puberdade mais cedo e/ou treinavam muito e inadequadamente quando muito jovens, e não conseguiram motivação para continuar. Alguns se arrependeram depois, mas… não tinha mais jeito.

Estação_demorei

Os mil passageiros remanescentes estavam motivados, gostavam muito do rótulo de serem nadadores competitivos, participavam de estaduais e brasileiros e seguiram firme rumo à estação olímpica. No entanto, 750 não resistiram ‘as pressões e acabaram descendo na estação “social colegial”. Eles passaram o resto da vida dizendo que teriam chegado à estação olímpica caso quisessem e tivessem continuado, mas que por uma razão ou outra acabaram descendo antes.

Estação_social

Duzentos e cinquenta nadadores estavam determinados a ir até o final, mas cento e cinquenta pararam na estação “Faculdade”. Quase todos esses que desceram nessa estação chegaram à conclusão que não viveriam da natação, e que era mais adequado seguir uma carreira fora das piscinas. Foi uma decisão acertada para muitos, mas o trem agora só tinha 100 nadadores.

Estação_faculdade

Cem nadadores seguiram firme rumo à estação final. Agora não faltava muito, e todos os passageiros estavam muito motivados e determinados. Trinta estavam tão motivados, mas tão motivados, que passaram do ponto e tiveram que descer na estação de emergência chamada “contusão”. Desceram chorando.

Estação_contusao

Os 70 nadadores que sobraram no trem eram motivados, rápidos, psicologicamente fortes, determinados e técnicos. Infelizmente 50 tiveram que descer por falta de talento. Quer dizer, eles eram até muito talentosos comparativamente aos 10 mil que iniciaram a viagem, mas os 20 que sobraram no trem eram mais.

Estação_talento

Vinte nadadores seguiram firme à estação olímpica, mas doze tiveram que descer na estação “Eliminatórias”. Só oito seguiriam.

Estação_eliminatorias

Oito atletas seguiram no trem. O mesmo estava praticamente vazio, mas a energia dos oito atletas era contagiante. Eles estavam muito fortalecidos por não terem descido nas estações “parei cedo”, “demorei para crescer”, “social colegial”, “Faculdade”, “Contusão” e nem na “Eliminatórias”. Eles eram realmente sensacionais.

Infelizmente, nesse momento foram informados que apenas um, UNZINHO poderia descer na estação olímpica. Então tiveram que nadar uma prova entre eles, e apenas o campeão ganhou o direito. Os outros sete tiveram que descer na estação intermediária “QUASE FUI”. Um deles, o que perdeu por apenas dois centésimos, chorou.

Estação_quase_fui

A estação olímpica foi se aproximando e o nadador estava um pouco nervoso, mas maravilhado! O trem Brasil foi diminuindo a velocidade e o nadador então finalmente viu a grandiosidade da estação olímpica. Havia trens de todos os lugares do mundo, Suécia, Canadá, Estados Unidos, Austrália, África do Sul, Japão…

De cada um dos imensos trens desceu UM nadador, no total eram cerca de cem nadadores de todas as partes do mundo. Cada um deles havia entrado em seu trem nacional com dez mil passageiros, e tinha chegado sozinho à estação olímpica. Eles eram fortes, talentosos, determinados, motivados e no auge da carreira.

Eles então passaram por uma portinha, onde tinha uma piscina e nadariam a prova olímpica. Para todos os cem, havia apenas UM pódium…

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Sobre rcordani

Palmeirense, geofísico e nadador master peba.

36 comentários em “O Trem Olímpico

  1. Rogério Aoki Romero
    20 de junho de 2016

    Muito legal, Cordani. Este trem passou, mas as conexões que ele fez deram oportunidades para todos chegarem à estação CONQUISTA.

    Você e a grande maioria dos leitores do Epichurus sabe o que é isto.

    Grande abraço.

    • rcordani
      21 de junho de 2016

      Verdade Piu, sabemos. Mas eu queria que aquele otário que disse ao vivo que você foi “‘ultimo” em Seul lesse esse post…

      • Fernando Cunha Magalhães
        24 de junho de 2016

        Ainda hoje indignado com o cunhado leigo, que após a final do 4×200 de Barcelona comentou, p… da cara, “e eu que parei de trabalhar para ver esses caras quase se afogarem “.

  2. Marina Cordani
    20 de junho de 2016

    Valeu a viagem! Desci na estação faculdade, ma já estava sem fôlego na anterior. Sabia que, estatisticamente, os nadadores australianos da seleção olímpica são nascidos em janeiro, fevereiro, março e abril? Tem no meu livro de inglês. É por causa do efeito demorei para crescer. Os mais velhos na categoria tem mais sucesso, ficam mais confiantes, descem do trem depois.

    • rcordani
      21 de junho de 2016

      Eu vi (em algum livro do Malcolm Gladwell) uma pesquisa com jogadores de hockey canadense. De facto, nascer antes e ser mais velho que os colegas bem cedo na vida (11-13 anos) faz com que eles perseverem e tenham mais chances de alcançar mais estações.

  3. Carlos
    20 de junho de 2016

    Texto muito bom, como sempre. Forte abraço !

  4. Rodrigo M. Munhoz
    20 de junho de 2016

    Beeeem bacana, R! Parabéns.

    Me parece válido lembrar que nem todas viagens são sobre o destino. Eu mesmo curto muito o caminho em geral… talvez por isso goste de veleiros.

    Eu peguei este trem aí aos 7 anos de idade e curti muito a jornada de 15+ anos, até a estação “Faltou Talento”. Vejo hoje que minha ida até a estação seguinte – “Eliminatórias” foi meramente pró-forma, mas tem algumas viagens que são assim mesmo, acho. Quando desci do trem não teve choro nem arrependimento nenhum, pelo contrário.

    Curiosidade: As estatísticas são mais ou menos reais? Atuais? Esperaria que hoje em dia descesse menos gente na estação “Contusão” e que um bom número de talentosos “pulassem” a estação “Faculdade”…

    Abraços!

    • rcordani
      21 de junho de 2016

      Os números são inventados para caber na ficção. A base de 30 na estação contusão é sobre os 10.000 iniciais, e não sobre os 100 que estavam no vagão, aí acho que a conta fecha melhor.

      E a Faculdade é uma estação matadora, mas convenhamos, uma boa hora para descer…

  5. Luiz Carvalho
    20 de junho de 2016

    Muito legal o artigo. Gostei muito do ponto do Rodrigo Munhoz acima: nem todas as viagens sao sobre o destino.
    Eu tive a sorte de chegar a estacao Olimpica, mas algumas das minhas melhores memorias da natacao foram aquelas do dia a dia, da viagem.
    Life is a journey, not a destination.

    • rcordani
      21 de junho de 2016

      “Life is a journey, not a destination”

      Eu entendo, mas tenho dificuldade pessoal com esse conceito .

      Depois de tudo, é claro, você avalia e vê que o caminho é que foi legal, mas ali dentro do trem (qualquer trem) minha personalidade tende a focar na estação e esquecer o caminho.

      Mas sim, idealmente o correto é pensar desta forma.

  6. Indiani
    20 de junho de 2016

    Excelente texto Cordani.
    Somaria ainda uma estação “que fica escondida”, que poderia se chamar: “TREINADOR QUE QUER SER OLÍMPICO”.
    Nesta estação o trem não passa pois eles é quem fazem o percurso todo dentro do trem; “vendem” a preço de cambista o ingresso FALSO que levará o atleta(Criança, Adolescente ou Adulto) para as Olimpíadas…
    A promessa olímpica gira em torno de uns bons REAI$$$$, uma grande estrutura, mas a contrapartida é interromper os estudos e seguir apenas nadando…
    Estes treinadores ficam vagando no trem de vagão em vagão, fazendo de tudo e mais um pouco para que pelomenos UM chegue na útima; a grande diferença é que este se acha “dono” do trem, e que a cada estação ele próprio se encarrega arbitrariamente de colocar pra fora do vagão o que ainda não cresceu, quem ainda não amadureceu, quem vai demorar um pouco mais para dar resultado, quem tem talento mas precisa de motivação externa para seguir, enfim; todos aqueles em que ele deverá investir um pouco mais de tempo será automaticamente excluido dos vagões pois estes dão trabalho, assim como fazer um bom e delicioso bolo caseiro…
    A opção destes profissionais é o bolo de caixinha que só precisa adicionar H2O e esta praticamente pronto!
    Nesta situação, o mais triste é poder observar que este “dito” profissional não tem nem a capacidade de ler as instruções da caixinha com calma, e erra na quantidade de H2O estragando o bolo mais simples de ser feito…
    Forte abraço e parabéns, por ontem e pelo texto,
    Indiani

    • antonio carlos orselli
      20 de junho de 2016

      Indiani – Você se superou nesse comentário. Concordo plenamente. Grande abraço.

      • rcordani
        21 de junho de 2016

        Boa Orselli, dessa vez você não caiu na caixa de spam! 🙂

      • Indiani
        23 de junho de 2016

        Valeu Orselli.
        Forte abraço

    • rcordani
      21 de junho de 2016

      Grande Indiaaaani, ótimo complemento, acho que entendo perfeitamente o que você quer dizer. Mas fica frio, irmão, que a vida é longa e os atletas que passaram por técnicos humanistas como você jamais se esquecerão. Você já deve sentir esse reconhecimento dos seus ex-atletas, não?

      Obrigado pelos parabéns.

      • Indiani
        23 de junho de 2016

        Com certeza Cordani.
        Acredito que este componente(Humanista) esta faltando, ou caiu em desuso pela maioria dos “companheiros” de profissão…
        A vida segue!
        Forte abraço

      • Fernando Cunha Magalhães
        24 de junho de 2016

        Indiani, de fato, arrebentou. Que extensão em suas palavras.

  7. Avelino Amaral
    20 de junho de 2016

    Sensacional o texto. Me identifiquei imediatamente, na estação “demorei para crescer”, mas insisti e fui até a estação “faculdade”. Parei sem arrependimentos ou outros questionamentos. Sei que fiz o melhor que a estrutura que cercava e o meu potencial permitiu. E curto até hoje, com muito orgulho, a jornada.

  8. Avelino Amaral
    20 de junho de 2016

    Me identifiquei imediatamente, na estação “demorei para crescer”, mas insisti e fui até a estação “faculdade”. Parei sem arrependimentos ou outros questionamentos. Sei que fiz o melhor que a estrutura que cercava e o meu potencial permitiu. E curto até hoje, com muito orgulho, a jornada. Belo texto.

  9. Lelo Menezes
    20 de junho de 2016

    Excelente o texto! Gostei mesmo! No meu caso eu diria que teria parado na Faltou Talento, mas teimoso, continuei. Acho que pulei do trem entre a estação Eliminatórias (a qual passei duas vezes) e a Quase Fui, a qual nunca realmente cheguei.. Mas até que fui longe nesse trem aí…

    • rcordani
      21 de junho de 2016

      Em 1992 ok. Mas para 1996 não sei se faltou talento ou vontade para o sr…

      Se bem que como a olimpíada era em longa e o sr era peba em longa, acho que faltou talento mesmo…

      • Lelo Menezes
        21 de junho de 2016

        Em 1992 faltou talento, em 1996 faltou vontade…

  10. LAM
    20 de junho de 2016

    Gostei dos comentários do Munhoz e Chico Belo, curtir a viagem durante a viagem.
    Quanto às estações, R quis provar q para chegar até “faltou talento” basta querer…

    • Luiz Carvalho
      20 de junho de 2016

      Hahaha, gostei do Chico Belo….faz tempo que nao ouço!

    • rcordani
      21 de junho de 2016

      Curtir a viagem durante a viagem é para os fortes.

  11. joao vitor
    22 de junho de 2016

    Post sensacional.Eu desci na estaçao faculdade e vcs?

    • rcordani
      22 de junho de 2016

      Opa João Vitor, eu gosto de imaginar que teria descido na estação “quase fui”, mas uma análise fria mostraria sem dúvidas que eu desci mesmo foi na “faltou talento”…

      Explico: em Seul 1988 eu fiquei a 7s do índice na prova de 200 Peito, e eu tinha apenas 17 anos. Eu pensei que com mais quatro anos de treino eu conseguiria chegar lá, ou ao menos me aproximar, mas o fato é que dos 17 aos 23 anos (quando parei) eu evoluí muito pouco. Cheguei a alimentar realmente o sonho até os meus 19 anos, por ocasião da Tragédia do Ibirapuera

  12. Wiliam Duarte
    23 de junho de 2016

    Adorei a viagem (matéria) Cordani! Como pai, incentivador e mantenedor (capenga por mot$vos óbvios) de um nadador que se transformou no grande paradoxo da natação olímpica Rio 2016, não poderia deixar de me arriscar perante as feras do bonde epichurus e tecer algum comentário. Paradoxo seja porque no trem havia um mito, quase lenda viva a ser superado e batido, seja porque todos os prognósticos diziam que, em razão de sua estatura (baixa para os “padrões”??) e outras condicionantes, o melhor seria ele praticar outros esportes. E a saga continua: Como diz a estória (ou seria história?), ao passar pela portinha, nosso “pequeno” e “intruso” mineiro olímpico se depara com outros 99 nadadores ávidos por escalarem aquele tão sonhado pódio, que, para muitos já tem dono! Mas esta é uma outra estação, onde o banquete, quase sempre é servido com muito alarde e muito quente e, portanto, devemos continuar comendo pelas beiradas e bem quietinhos. Né mesmo? Afinal nós, mineiros, temos a fama de não perdermos o trem….

    • rcordani
      23 de junho de 2016

      Olá William, você deve ser o pai do Ítalo, correto? Que honra o seu comentário, aliás outro dia o pai do Leo de Deus também me disse que lê o blog, isso é sensacional.

      Sobre a classificação do Ítalo, no dia 21 de maio escrevi assim no Facebook: “Natação é um esporte brutalmente justo. Bateu antes, tá dentro, bateu depois, tá fora! Aposto que um hipotético “Cielo do Vôley” teria ido, e o correspondente Ítalo teria ficado. Na natação, não!”

      É muito bom que ele tenha chegado ao fim desse trem, parabéns a ele! Interessante a questão do biotipo, e de terem sugerido mudança de esporte para alguém capaz de nadar 50L em 21s!

      Por fim, quanto ao “pódium ter dono”, realmente não tem! Mas é importante que ele saiba que estar ali nos Jogos é um privilégio para poucos, muito poucos, que ele aproveite e vá para cima dos caras! Por enquanto, o jogo tá zero a zero…

      Um grande abraço!

      • Wiiliam Duarte
        24 de junho de 2016

        Hehehe. Apesar de ser literalmente um “Machado sem cabo” dentro d’água, me considero um peba, só que de atletismo. E é um prazer passear pelo epichurus e me nutrir das boas matérias e belas memórias postadas aqui. Agora vou me arriscar mais um pouco: Quando escuto comentários no meio esportivo comparando o Brasil com os USA (geralmente dizendo que o trem deles está sempre cheio e o nosso vazio), penso que o que falta é vontade política de popularizar o esporte de alto rendimento por aqui, começando por municiar nossas escolas públicas com infraestrutura e alteração na grade curricular de modo a compatibilizar a prática esportiva com o conteúdo didático pedagógico. Talvez este seja um bom começo para que possamos ver nosso trem mais cheio lá na frente…
        Um abraço. Saudações esportivas.

      • rcordani
        28 de junho de 2016

        Obrigado William, sim, a base, sempre a base, incrível que não pensem na base!

        Quanto à sua história PEBA, não quer contar para a gente?

        Abraços

  13. Fernando Cunha Magalhães
    24 de junho de 2016

    Cheguei a “quase fui” e voltei a “faltou talento”… E teve choradeira.
    A bela jornada já rendeu mais de 50 posts de ótimas histórias, e ajudou a me construir, enriqueceu minha existência.

    • rcordani
      19 de julho de 2016

      E ainda faltam mais muitos posts! Vida longa aos posts do Esmaga!

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Publicado às 20 de junho de 2016 por em Natação, Olimpíadas e marcado , , .
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