EPICHURUS

Natação e cia.

Os 1500 de Djan em Moscou

Pesquisando fontes para o livro que estou escrevendo, volta e meia deparo-me com pérolas. Dentre elas, o recorte de Jornal que dá origem a esse post.

Em Moscou 1980, Djan tinha 21 anos e estava no auge da carreira. Quatro anos antes, com apenas 17, tinha sido quarto lugar olímpico em Montreal, com 15:19.84.

Se alguém chegasse para o Djan naquele dia em Montreal 76 e dissesse “Djan, a medalha olímpica de 1500m daqui a 4 anos em Moscou sairá para 15:14.49, ou seja, você terá que melhorar apenas 4.35s, ou seja, 0.29 a cada 100m para ganhar uma medalha, você acha que dá?” Olhando assim parecia uma tarefa bastante factível, certo?

Entretanto, entre o quarto lugar de Montreal e o dia 21 de julho de 1980, o fatídico dia, Djan não tinha melhorado esse tempo de 1500m nenhuma vez. Já nas outras provas ele vinha melhorando muito. E em abril de 1980, em Austin – EUA, poucos meses antes dos Jogos Olímpicos, Djan estava literalmente voando. Meteu 3:53.91 nos 400m Livre, 4:25.30 nos 400m Medley e 7:59.85 nos 800m Livre, todos recordes sul americanos, e este último o segundo melhor tempo all time do mundo da prova.

O principal foco de Djan, no entanto, era a prova de 1500m em Moscou.

E chegamos a Moscou, o dia tão sonhado. Com o espetáculo proporcionado em Austin 3 meses antes, os soviéticos em plena Guerra Fria estavam de olho em Djan, pois consideravam ele o mais forte postulante a ameaçar os donos da casa, que tinham um time de fundistas muito forte, Vladimir Salnikov à frente.

Mas para o brasileiro as coisas não saíram como esperado, e Djan nadou de forma muito inferior às expectativas dele, dos seus técnicos, dos colegas e, de forma geral, de toda a nação brasileira que colocava nessa prova as nossas maiores expectativas de medalha, junto com os 100m Costas do Rômulo.

Djan_1500_Moscou

O tempo de 15:56.20 não era apenas um tempo ruim. Era um tempo francamente ridículo para Djan, que fazia bem menos do que isso nos treinos. Isso somado à eliminação do Rômulo nos 100m Costas ensejou a seguinte manchete da Folha de São Paulo do dia 22/07/1980.

 

Djan_1500_Moscou

“Djan Fracassa Totalmente e Diz que foi Armadilha”

Repare, amigo leitor, que no dia seguinte, 23 de julho, Djan faria a prova da sua vida, seria o líder e melhor tempo do revezamento brasileiro que conquistou a medalha de bronze no 4×200. Portanto, a partir do bronze, essa performance dos 1500 foi praticamente esquecida, e com pouca repercussão. Não é que Djan esconda a história e a reconhecidamente pífia participação nesses 1500, ele sempre conta mais ou menos dessa forma, corte no pé, etc. Mas o fato é que medalha olímpica conquistada dois dias depois brilha tanto que ofuscou esse fracasso, diminuindo a importância dessa história, que, caso não viesse o bronze, aí sim ampliaria muito.

E é por isso que a entrevista que Djan deu para a Folha nesse dia tem tanto interesse, a ponto de eu escrever esse post: PORQUE FOI DADA NO ÚNICO DIA EM QUE ESSE FRACASSO IMPORTAVA. A partir do bronze no 4×200, a história poderia ser reescrita e esses 1500 já não tinham importância. Então vamos à transcrição da entrevista de Djan logo após a prova de 1500, no dia da eliminação, e antes do 4×200.

Com toda a minha experiência internacional, depois de ter disputado a Olimpíada de Montreal e dois Campeonatos Mundiais, caí numa armadilha infantil momentos antes de entrar na piscina. E isso foi fatal para a minha eliminação.

Olimpíada é uma guerra e todos os detalhes são explorados. Infelizmente eu me deixei perturbar por um fato ocorrido na sala de espera, antes de me dirigir à piscina para nadar a minha série. Já havia me apresentado ao árbitro geral da competição e acompanhava o andamento das duas séries anteriores pela TV instalada no local. Aí, solicitei a permissão para me aquecer na piscina de treinamento, pois ainda faltavam 30 minutos para o início da minha série. Isso é feito por todos os nadadores, com o objetivo de se soltarem. Para minha surpresa, um árbitro soviético com quem falava em inglês proibiu-me de deixar a sala de espera, sob pena de ser desclassificado. O Simon da GBR é testemunha. Argumentei com ele que tinha o direito de fazer o aquecimento, pois já havia me apresentado, e deixei a sala. Quando me encontrava na piscina de treinamento, um outro árbitro (australiano) veio até mim e disse que se eu não retornasse à sala de espera em 10 segundos, seria impedido de participar da eliminatória. Fiquei apavorado e saí correndo, ocasião em que tropecei, caí e sofri um ferimento no dorso do pé direito.

Fui atendido pelo departamento médico da delegação soviética e ainda com o pé sangrando um pouco, dirigi-me para a piscina acompanhado dos demais atletas que disputariam minha série. Antes, porém, surgiu um outro problema: um dos árbitros (soviético) pediu-me que lhe mostrasse o meu cartão de identificação que se encontrava no armário do vestiário. Eu lhe disse que não era necessário e que não vira nenhum outro nadador mostrar o seu a ninguém. Enfim, foi uma verdadeira guerra de nervos, para a qual eu, mais do que ninguém, deveria estar preparado. A verdade é que me deixei perturbar. Mas não tem nada não, ainda tenho os 400m Livre, que pretendo nadar de qualquer forma.

A incrível riqueza de detalhes que só a proximidade com os fatos dá, e a notável sinceridade do Djan tornam essa história bastante verossímeis, e mostram como o clima realmente era pesado nessa olimpíada para quem ameaçasse o domínio soviético. Vale dizer que nessa mesma olimpíada, o saltador João do Pulo foi prejudicado fortemente, conforme pode ser lembrado nesse vídeo.

Trocando em miúdos: a medalha de bronze no 4×200 acabou tornando essa história quase obscura, e praticamente desimportante frente ao bronze. Por outro lado, os 1500m do Djan de Montreal 1976 foram tão fortes que o Recorde Brasileiro foi superado apenas em 1996, vinte anos depois, pelo hoje Deputado Federal Luiz Lima.

E viva o bronze do revezamento que diminuiu a importância dessa história, e viva o nosso medalhista olímpico e membro do Hall da Fama da Natação Brasileira Djan Madruga!

Sobre rcordani

Palmeirense, geofísico, ex diretor da CBDA e nadador peba.

4 comentários em “Os 1500 de Djan em Moscou

  1. André Teixeira
    24 de maio de 2019

    Precisamos diminuir o tempo entre mundiais e Olimpíadas, em relação as medalhas conquistadas. Este reveza histórico de 1980, tem a chance real agora em 2020 de alcançarem o pódium. Será a safra de nadadores acima da média, que no Brasil, surgem por força natural em um País tropical cercado de água, daí a convergência desta possibilidade após 40 anos? Ou será a política que não permite a história ser encetada e continuada nesta grande nação de nadadores… Elementar meus caros entusiastas

  2. Lelo Menezes
    30 de maio de 2019

    A pergunta que faço é, assumindo obviamente que a história do Djan é verdadeira, outros nadadores foram liberados para sair da sala e ir “soltar”? Foi complô contra o Djan ou será que o Djan não se atentou a regra? É como diz a música que ele mesmo compôs: “Ao sair, do avião, Judy pisou num imâ”…

  3. DJAN MADRUGA
    2 de julho de 2019

    Amigos do Epichurus, parabéns pela investigação desse esquisito episódio que já andava meio esquecido na minha mente, digo isso porque sempre que lembro daquela olimpíada penso claro na medalha do 4×200 ,do quarto lugar nos 400 livre e do quinto lugar nos 400 medley, e essa eliminação dos 1.500 ficou meio que bloqueada na minha mente como se para ficar definitivamente esquecida, mas hoje quase 40 anos depois consigo avaliar com mais isenção o fato ocorrido . O que realmente aconteceu foi o que está descrito ali na matéria, eu sem dúvida cometi um erro e a delegação brasileira também errou na minha opinião porque quando eu me apresentei na aquela época para nadar, pela importância que tinha na disputa pela medalha, deveria ter sido acompanhado ou por um treinador ou por um dirigente até a entrada da sala, mas como eu tinha o hábito de aquecer até poucos minutos antes da prova, quis fazer minha apresentação na sala bem cedo e depois dar uma nadada na piscina do lado e daí voltar para sala, só que o juiz na sala disse que como eu já tinha feito o check-in não podia sair, e avaliando hoje provavelmente ele tinha razão e estava cumprindo o papel dele, então eu não deveria ter saído ou melhor não deveria ter chegado tão cedo pois eu fui o primeiro a fazer o check-in, agora se tivesse um dirigente me acompanhando eu o chamaria ele iria lá e ele discutiria com o árbitro da sala enquanto eu tranquilamente sairia para fazer meu aquecimento. Com a discussão eu simplesmente sai da sala na marra e deu tudo errado numa sequência de fatos “murphnianos” culminando com a topada no banco, quando eu corria para me apresentar ,e o meu dedão abriu e começou a sangrar e cá entre nós uma topada no dedão com sangramento dói para burro! Nesse ponto eu perdi a cabeça com razão né, e a minha prova de 1500 foi para o espaço, imaginem a cena surreal , eu na sala de apresentação com o dedo sangrando e um enfermeiro russo fazendo um curativo colocando um esparadrapo no dedão, que depois eu arranquei e joguei na direção do juiz!
    Fiquei muito furioso, decepcionado, arrasado, independente de não ter deixado isso passar para a imprensa como está escrito no texto na Folha. O interessante é que apesar disso tudo ainda consegui me recuperar psicologicamente e dias depois fechei o 4×200 com um tempo que daria bronze na prova se tivesse nadado os 200 livre. Mas fica ai pra vocês investigadores do Epichurus a minha versão hoje desse curioso fato da historia da natação brasileira.

    • rcordani
      2 de julho de 2019

      Obrigado pelo sensacional comentário, Djan, engrandecendo em muito a história.

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