Epichurus

Natação e cia…

Em terra de sapos, de cócoras com eles.

Como o leitor atento tem acompanhado (aqui, ali, acolá), estou passando um tempinho longe do Brasil, em Del Mar – CA. Uma das coisas que mais chamou a atenção foi o senso de comunidade do povo daqui. É impressionante como para quase tudo o pessoal mesmo se organiza e resolve.

Por exemplo, a piscina da vizinhança está precisando de um novo filtro? Façamos uma vaquinha. O verão está chegando? Vamos nos reunir para ver o que funcionou no ano passado e o que pode melhorar para esse. Competição de natação das crianças? Os pais são os cronometristas. Tijolos com o próprio nome impresso são pretexto para doar fundos ao posto de salva-vidas, mutirões para limpeza de praia, passeatas para arrecadar fundos para o combate ao câncer de mama, e por aí vai.

Eu já contei aqui que usava as bóias da praia de Del Mar para minhas natações diárias (lembra, Munhoz?). O que eu ainda não tinha contado é que meu filho Rafael (9) ultimamente estava me acompanhando até a primeira bóia (total ida e volta 1/2 milha = 810 m), em memoráveis travessias semanais. Em um desses dias, acompanhados pelo João, sofremos o maior perrengue para atravessar ondas de até seis pés (2 m) na volta, mas ao menos a foto no final ficou bonita! (reparem a temperatura 56 F = 13.3 C).

Pois bem, na semana passada fomos fazer nossa tradicional travessia semanal e … CADÊ A PRIMEIRA BÓIA? Procuramos, procuramos e nada. Olhei lá longe a segunda bóia, calculei o tempo que fazíamos, decidi que tínhamos passado pelo lugar onde estaria a primeira bóia e voltamos meio frustrados (Charlão, se não bater a mão na bóia vale?).

Coincidentemente, em janeiro eu tinha lido no Facebook uma interessante postagem do Osmar Baptista Silva, ex-nadador da seleção brasileira, que copio abaixo com a sua permissão:

Osmar

Aí fui falar com o salva-vidas. Fosse no Brasil, eu provavelmente diria: “Putz, cadê a bóia? Caiu? Quando vocês vão colocar outra?”. Mas aproveitando a sabedoria do austríaco e o clima colaborativo daqui, eu disse: “A bóia caiu, né? Eu uso ela quase todo dia! Como posso ajudar?” No início dos meus dizeres o chegado ensaiou uma cara de chateado-desafiador, mas quando eu ofereci ajuda o rosto dele se iluminou e ele disse: “olha, brother, um barco bateu e a bóia se perdeu, e a gente não estava pensando em comprar outra, pois é meio cara e o orçamento tá “slightly” apertado, mas se você quiser ajudar seria excelente!”. Aí ele me mandou o link da loja que vendia bóias.

E chegou a minha grande chance de fazer como o austríaco do texto do Osmar. Combinei com o chegado, comprei a bóia pelo correio e finalmente na última quinta feira (13/02) eu e o Rafael orgulhosamente a doamos para a cidade de Del Mar.

O chegado agradeceu muito e prometeu instalar a bóia nesta semana que inicia. Mal posso esperar para fazer a próxima travessia e bater a mão na nossa bóia nova!

Bons treinos a todos.

OBS: a história saiu no Del Mar News (veja aqui).

Sobre rcordani

Palmeirense, geofísico e nadador master peba.

31 comentários em “Em terra de sapos, de cócoras com eles.

  1. marcelo Abdo
    17 de fevereiro de 2014

    Parabéns Renato e Rafa, isto é um grande exemplo de cidadania!

    • rcordani
      17 de fevereiro de 2014

      Valeu Alemão, a gente tem muito o que aprender com os californianos!

  2. vreco
    17 de fevereiro de 2014

    Isso ai, muito legal brow. Parabens pela iniciativa. Gr ab

  3. Ruy Araujo
    17 de fevereiro de 2014

    Boa. Eu fico pensando que muita coisa aqui no Brasil poderia ser resolvida com pouco dinheiro mas que precisa ter alguma organização e iniciativa. Fica aí o exemplo dado.

    • rcordani
      18 de fevereiro de 2014

      Sim. Acho que em São Paulo é um pouco mais difícil (por causa do gigantismo), mas ações comunitárias são quase inexistentes por aí, né?

  4. porpets
    17 de fevereiro de 2014

    friaca boa hein ? boa doação Renato !

    • rcordani
      17 de fevereiro de 2014

      É nóis porps, parece a friaca da piscina de 5 do CPM no inverno!

  5. Fernando Cunha Magalhães
    17 de fevereiro de 2014

    Caro Cordani,
    belíssimo exemplo e grande ensinamento para o, já não tão pequeno, Rafael.
    Abraços e manda fotos da bóia posicionada.

    • rcordani
      17 de fevereiro de 2014

      Esmaga, espero que a geração deles seja melhor do que a nossa, o que não é muito difícil…

  6. Oscar Godoi
    18 de fevereiro de 2014

    Grande gesto e mensagem, depois de viver 17 anos nos EUA e agora no Brasil sei muito bem do que voce esta falando, este senso de comunidade realmenta falta no Brasil, muitos das classes media alta e ricos, acham que por que tem um poder aquisitivo maior sao especiais e superiores aos outros, e os de classes mais baixas estao acertadamente preocupados se vai ter comida para a janta ou nao. Enquanto isso o governo promove esta dependencia criando burocracia e programas de “ajuda” para aumenta e justificar o seu tamanho, com isso abrindo mais oportunidade de desvios e corrupcao. Espero que estamos presenciando um periodo de evolucao social e economica no Brasil, com isso teremos um aumendo de educacao social da populacao, levando a uma pressao para um governo menor que de mais autonomia para populacao, espero que nossos filhos sejam os beneficiados por esta evolucao social.

    • rcordani
      18 de fevereiro de 2014

      Verdade Oscar, como eu comentei com o Esmaga, quem sabe a nova geração seja melhor do que a nossa!

  7. Leonardo Ribas Gomes
    18 de fevereiro de 2014

    Parabéns Renato! Um belo exemplo de como poderíamos melhorar nosso país com pequenas ações, além do grande exemplo pro Rafa, como bem colocou o Maga.

    • rcordani
      18 de fevereiro de 2014

      Valeu Cheiro, e digo mais, acho que ainda estamos em tempo de melhorar o nosso país, correto?

  8. Miyahara
    18 de fevereiro de 2014

    Sensacional R. Parabéns!

  9. Claudia Azevedo
    18 de fevereiro de 2014

    mais um texto divertido e bem escrito !! Parabéns primo, pelo texto e pelo gesto !!

  10. Sidney N
    18 de fevereiro de 2014

    Boa Renato, ótimo exemplo! Interessante pensar que o espírito comunitário acontece justamente numa socidade tida como individualista, enquanto num país gregário como o nosso parece valer o “salve-se quem puder”.

    • rcordani
      18 de fevereiro de 2014

      Sidney, bela sacada, isso me ocorreu também. O nosso povo é tido como “gregário”, mas na prática o senso comunitário é muito sub-desenvolvido e centrado na pessoa dos “governantes” ou “autoridades”. O austríaco do texto do Osmar já dizia…

  11. Mauro
    18 de fevereiro de 2014

    Isso é um ser campeão… e campeões perpetuam seu legado em seus descendentes!!! Forte abraço mano!

    • rcordani
      18 de fevereiro de 2014

      Fala Maurão, bom te ver por aqui, grande abraço e volte sempre!

  12. Lelo Menezes
    18 de fevereiro de 2014

    Excelente R. Esse senso de comunidade americano é uma das coisas que sinto falta do país do Tio Sam e poder passar isso pros filhos brasileiros é fenomenal.

    O senhor no entanto, agora no papel de sponsor oficial do pedaço aí, podia tentar renomear a praia para Bald Bearded Bay ou The General’s Coast.

    • rcordani
      19 de fevereiro de 2014

      Já fiz a solicitação, a praia passará a se chamar Lelo-Peba, gostou?

  13. Marina Cordani
    18 de fevereiro de 2014

    Percebi esse senso de comunidade em várias das minhas viagens. Nesse último janeiro que estive com vocês em Del Mar, percebi isso também. Temos comentado aqui em casa que o Americano está muito mais preparado para viver no coletivo. Mesmo. E o Brasileiro, apesar de muito amigável, não sabe o que é o bem comum! Porém, quando a Dora ficou sem bateria, e não tinha absolutamente nada o que fazer, fiquei com saudades do chegado do posto de gasolina do Brasil, que por um trocado incerto viria no resgate. A Dora teve que contratar um seguro mais completo para que a bateria fosse trocada. Resumo: o Brasileiro é legal no individual, não no coletivo. E o Americano é legal no coletivo, mas não no individual! Se você precisar que um transeunte desconhecido te ajude com caixotes pesados, só no Brasil!

    • rcordani
      19 de fevereiro de 2014

      Bom raciocínio esse, dá até uma tese, hein? Acho que concordo.

      Por essas e outras que o Tom Jobim dizia que aqui é bom, mas é uma merdha, e o Brasil é uma merdha, mas é bom!

      Mas nós temos que reconhecer que os americanos conseguiram construir um país muito mais justo que o nosso, né?

    • Luiz Alfredo Mäder
      19 de fevereiro de 2014

      Boa Marina, gostei da comparação!

  14. Antonio Carlos Orselli
    20 de fevereiro de 2014

    Grande Cordani – Cooperação tem que rimar com educação.
    Vai levar um tempo pra chegarmos a esse estágio por aqui. Infelizmente. Vou aproveitar o post (ótimo) e repassá-lo aos meus amigos que lidam com a molecada. Abraço.

    • rcordani
      20 de fevereiro de 2014

      Valeu mestre Orselli, grande abraço e continue nos honrando com a sua visita.

  15. Rodrigo M. Munhoz
    20 de fevereiro de 2014

    Boa R! Estou em viagem e fiz um outro comentario pelo app do celular, mas pelo jeito não deu certo. Seguinte… Deste um show de cidadania no sentido mais amplo e global da palavra. Belo exemplo e espero que continue fazendo bom uso da boia com o Rafa. Mas acho que nem toda comunidade é participativa aí nos EUA, assim como nem toda comunidade é refratária a participação no Brasil. No fim, acho que individuos fazem a diferença e geram mais participação de outros individuos. Pessoas que fazem o que você fez fazem a diferença em qualquer lugar do mundo, com dificldades maiores ou menores dependendo do local. Keep it up.
    Um abraço!

    • rcordani
      21 de fevereiro de 2014

      Munhoz, sua desculpa (app do celular) não colou. 🙂

      Mas obrigado pelo comentário, e também não acho que toda comunidade é participativa aqui nos EUA, porém a de Del Mar e arredores certamente são.

      E também acho que no Brasil estamos caminhando devagarzinho (bem devagarzinho) nessa direção, não acha? Quem sabe o Rafael possa verificar isso no futuro.

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Publicado em 17 de fevereiro de 2014 por em Epicuro, Natação, Travessia.
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