Epichurus

Natação e cia…

Troféu Brasil de 84 – finalmente, o Curitibano no pódio

Histórias da competição que eu não nadei, mas mudou minha carreira

Ano de Olimpíada, grandes expectativas para as performances dos nossos principais atletas e daqueles que buscavam o índice para carimbar o passaporte para Los Angeles.

Os atletas paranaenses não faziam parte dessa realidade, mas era a competição mais importante da temporada, cada um lutava por seus objetivos e o certame tornou-se um marco histórico para a natação do Clube Curitibano.

Já contei breves passagens nos posts: Raspar ou não raspar? Eis a questão – e, Parque Aquático Julio de Lamare, muito prazer! Além disso, o que aconteceu no Rio naquele longínquo janeiro tem tudo a ver com o contexto de Um rival para chamar de seu.

Havia pouco mais de um ano que o técnico Leonardo Del Vescovo havia assumido a equipe do Clube Curitibano. A delegação que ficou no Rio após o Julio de Lamare disputado na semana anterior, tinha apenas três atletas – Márcia Resende, Glaucia Lunkmoss e Newton Kaminski.

Nos anos anteriores o Curitibano havia conquistado um ou dois bronzes em campeonatos brasileiros de categoria, mas passou em branco no Julio de Lamare que acabara de acontecer, e nunca, um atleta do Curitibano havia conquistado uma medalha em alguma edição do Troféu Brasil.

Essa história estava prestes a mudar.

Glaucia  GLAUCIA uma, duas vezes!

Já no primeiro dia, 5ª prova, Glaucia foi ao pódio. Bronze nos 200m costas. Primeira medalha.

No domingo, ela foi além. Ouro nos 100m costas.

Marcia Resende  MÁRCIA uma, duas vezes!

Primeiro dia, 7ª prova, uma vitória maiúscula nos 200m peito – 4s99 a frente da segunda colocada.

Primeiro ouro.

No domingo, bronze nos 100m peito.

Kaminski

Nessa época Kaminski já era meu ídolo havia muito tempo.

  KAMINSKI em “Eu também quero”!

Ele foi fazendo uma competição brilhante, pegando finais em suas provas, melhorando suas marcas,      quebrando recordes     paranaenses em todas elas, mas chegou ao domingo sem medalha. No apagar das  luzes, bronze nos 100m peito. Primeira medalha masculina.

Nesses dias eu estava em férias e acompanhava as notícias pelo jornal. Custava a acreditar que meus    colegas  haviam conquistado 5 medalhas. Era muita coisa, era raro alguém ganhar alguma e de repente,  essa avalanche.

TB84 - Newton 100 peito

Os três sozinhos ficaram em 7º lugar na competição.

TB84 - pontuação

Mais que isso, Glaucia e Márcia figurando na votação de revelação e destaque do Jornal Aquática e o Léo também bem votado na votação dos técnicos.

index

Bons ventos para a nossa natação!

IMPACTOS NA EQUIPE E EM MIM

Léo produziu ótimos resultados muito rapidamente e isso abriu perspectivas na mente de todos. Para homenagear o trio medalhista e aproveitar o exemplo, o Clube fez 3 pôsteres que foram pendurados na sala do técnico, que ficava de frente para todos que chegavam para treinar. Evidente que todos gostariam de estar ali e comigo não era diferente.

Aos 14 anos eu pensava, queria, mas era muito tímido para me expressar. Numa tarde, no início da temporada, resolvi sentar na minha escrivaninha e escrever uma carta para o Léo.

Hoje acho tão estranho um menino de 14 anos fazer uma coisa dessas, mas enfim, na época fazia todo o sentido e escrevi ali minha vontade de ser campeão brasileiro. Falei do que estava disposto a fazer a mais do que já fazia e acho que convidei meu técnico a fazer parte desse sonho.

Chegando ao treino, meio constrangido, entreguei a carta ao Léo e torci para que ele fosse discreto e não abrisse na frente dos outros. Foi o que aconteceu. Ao final do treino, ele me convidou a chegar mais cedo no dia seguinte para podermos conversar.

A sensação que tenho hoje é de que o papo levou cerca de duas horas e foi muito motivador. Fiquei orgulhoso e satisfeito de ter escrito e confiante no caminho que estava por vir.

A partir daí, foram anos de obstinação. Lembro que nos dois primeiros anos não fiquei doente um dia sequer, fui a todos os treinos, não matava um metro e mais que isso, em 85, combinei de chegar antes do horário marcado para o início do treino, junto com o Kaminski, para fazermos uma série longa de flexibilidade, que julgávamos muito importante para nossa evolução.

A vontade já existia, os treinos já eram bem pesados, mas as conquistas de Glaucia, Márcia e Newton mexeram com nossa confiança e consequentemente com a atitude. E isso, faz toda diferença.  Por isso, esse post é uma homenagem a esses queridos colegas.

E você, caro leitor, nadou o Troféu Brasil de 84?

Lembra-se de alguma passagem que mexeu com sua confiança e atitude?

Compartilhe conosco sua história.

Forte abraço,

Fernando Magalhães

Quer saber resultados de outras provas deste Troféu Brasil?

Clique abaixo e saiba como Ricardo Prado, Djan, Cyro, Jorge, Adriana Pereira, as irmãs Amorim e demais finalistas de algumas provas se saíram:

Sobre Fernando Cunha Magalhães

Foi bi-campeão dos 50m livre no Troféu Brasil (87 e 89). Recordista brasileiro absoluto dos 100m livre e recordista sulamericano absoluto dos 4x100m livre. Competiu pelo Clube Curitibano (78 a 90) e pelo Pinheiros/SP (91 a 95). Defendeu o Brasil em duas Copas Latinas. Foi recordista sulamericano master. Trabalha como gerente da Academia Gustavo Borges e consultor da empresa Vendas 3i. É conselheiro do Clube Curitibano.

38 comentários em “Troféu Brasil de 84 – finalmente, o Curitibano no pódio

  1. rcordani
    27 de janeiro de 2014

    Eu assisti essa competição mas com 13 anos passava longe do índice. Minha irmã Marina nadou os 400 medley e teria pego final caso não fosse DQ.

    Eu adorei toda a competição, já comentei um pouco sobre isso aqui, mas especialmente duas provas marcaram muito nesse TB:

    1) os 22.90 do Marcos Goldenstein (não está no resultado mas tenho certeza que foi nesse TB), saindo da borda (sem baliza). Era tipo o segundo melhor tempo do mundo nessa prova que ainda não era olímpica. Posteriormente eu soube que a saída foi “na pera”, então não seria oficial de qualquer jeito.

    2) a famosa (para os atletas do Pancho) chegada do Djan nos 200 costas. Ele chegou em segundo, olhou para o placar, viu que a placa não parou, olhou para o lado, viu que o tercero (Rebollal) ainda não tinha chegado, e deu uma cotovelada para registrar o placar antes do Rebollal e garantir a prata sem possibilidade de dúvida ou recurso. Eu lembro perfeitamente da cotovelada, não sei se por causa da minha memória visual ou se foram as repetições do Pancho. No fim o tempo que valeu foi o do cronômetro manual, não o da cotovelada.

    Por fim, muito bonita a história da carta para o Leo, história que eu desconhecia completamente! Espero que ela (a carta) apareça e seja publicada. E é mais um reforço da famosa ideia de que para conseguir algo tão difícil como ser campeão brasileiro é preciso querer muito (embora só querer não seja suficiente).

    Parabéns pelo post, mal posso esperar pelos próximos capítulos!

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      Cordani,
      Marca antológica do Goldenstein. Superada somente pelo GB no Pan de Cuba. Não sabia que era “da pera”.
      Sempre um privilégio ver o Djan em ação.
      E obrigado… no próximo tem um encontro com 2 recordistas mundias.

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      Quanto a carta, também gostaria de ver/ler, mas era muita pretensão que tivesse resistido a 30 anos nos arquivos do Léo.

  2. Luiz C. Miguita Jr.
    27 de janeiro de 2014

    Fernando, belo post, como de rotina. Achei interessante a presença de 03 clubes paranaenses entre os 10 primeiros colocados. Forte abraço.
    Miguita

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      É Miguita… Dirce Sakai fez um estrago por lá… você viu? Levou o ouro nos 100m peito em que a Márcia foi bronze. Ícone de uma geração bem forte aí de Londrina.

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      Viu ali nos resultados que ela foi a 2a maior pontuadora da competição?
      Você tem contato com ela? Diz pra ela passar e nos brindar com um comentário aqui no Epichurus.

  3. Mauricio Niwa
    27 de janeiro de 2014

    Que boa história, Maga! É legal conhecer a história dos nadadores que fui conhecer bem mais tarde, já nos masters. Abraço!

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      Niwa, você andava sumido, meu amigo.
      É, esse pessoal era Craque com “c” maiúsculo.

  4. Cassiano Leal
    27 de janeiro de 2014

    Muito legal esse post Maga. Me traz muitas lembranças, já que nessa época eu ainda era novinho e passávamos as férias no Rio. Não sei bem o porquê mas meus pais resolveram nos levar, meus irmãos e eu para assistir a uma erapa. Lembro de ter assistido um revezamento 4 x 100 livre com vitória do Pinheiros no feminino e uma comemoração grande que me deu muita motivação de fazer parte daquilo. Além disse muito legal ver a vencedora do 200m Costas, Linay Vaz, do Nadbem de Porto Alegre, que junto com seu pai, Alceu, foram quem me ensinaram a nadar e ter gosto pela natação competitiva.
    Abração

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      Que belas referências, Cassiano!

      Arrisca aí a escalação do ECP: Ana Keila, Monicas Nakano e Kestener, e … (será que acertei essas 3?).

      Já a Linay Adami Vaz, tinha uma técnica muito bonita e era soberana aqui no sul. Acredito que tenha sido a primeira vez que a Glaucia ganhou dela nesse 100m costas (mas isso é só um palpite).

  5. Otavio Mauad Figueiredo
    27 de janeiro de 2014

    muito bacana!!! parabens pela redação tambem!!! não foi a toa que foi campeão entao hein meu querido! continue nos presenteando com essas historias sensacionais. abraços

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      Valeu Otavio, obrigado… a próxima ainda não está no papel mas já está na mente.

  6. Daniel Mielzynski
    27 de janeiro de 2014

    Muito legal, Parabéns! Tive o prazer e a horra de disputar esse Troféu Brasil como atleta do Pinheiros.Me lembro de tudo o que foi relatado.
    abs a todos e parabéns pelo Epichurus!

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      Obrigado Miel,
      tem uma passagem muito engraçada ocorrida na final dos 1500m na semana anterior.
      Tinha um cara que estava sempre com vocês, não competia, mas agitava um monte na arquibancada (tinha um certo sobrepeso)… não recordo o nome dele e naquele dia eu ainda nem sabia que ele era da turma do Pinheiros.
      Eu sempre gostei de uma torcida, mas em toda a tarde só tinha uma ou duas finais para torcer para os colegas do Curitibano.
      Ele estava tão eufórico gritando “vai Miel!!!” que eu resolvi dar uma força, bati o olho no placar, só vi as iniciais dos nomes ao lado dos sobrenomes e não tive certeza, mas resolvi repetir na cadência dos berros dele o que eu estava entendendo: “Vai Miguel!!!” – esse homem ficou bravo! Percebi que tinha errado e ouvi um – “tá me sacaneando?!?!”, achei que fosse apanhar… saí de fininho.

      Obrigado pelo parabéns.

  7. Daniel Mielzynski
    27 de janeiro de 2014

    Destaco a prova dos 400mL .Uma das provas mais emocionantes que ví na minha carreira.Luis Osório Anchieta
    x Jorge Fernandes.

  8. Jorge Fernandes
    27 de janeiro de 2014

    grande Esmaga… perfeita sua memória (como sempre)…
    desse TB, lembro parcialmente dos 400m, da disputa com o Luiz, acho que ele na 4 e eu na 5 ou 6… favoritos ele e Custódio… ou Custódio na 4, ele 5 e eu 6…
    mesmo eu já tendo vencido uma vez os 400m em 82, meu santo nunca cruzou bem com esta prova… e pelo que treinei durante alguns anos, poderia ter tido tempos melhores (se não me engano fiz 4´01″ em 82…)
    incrível foi a chegada a míseros 01 centésimo, ganhando do Luiz… ele deve me odiar até hoje por conta disso…
    infelizmente meus resultados não faziam juz ao que eu treinava… mas como os resultados ajudavam a equipe, em parte as decepções eram esquecidas…
    mto bom foi ver um campeonato bem disputado nos pontos até o último dia…
    abs…

    • Jorge Fernandes
      27 de janeiro de 2014

      sacanagem… depois de escrever isso tudo é que fui ler os comentários de voces e vi a foto… kkk
      senilidade é uma merda… ainda bem que não é contagioso…

      • Fernando Cunha Magalhães
        27 de janeiro de 2014

        Take it easy, Jorge… teu relato não tem preço, complementa a imagem da foto!

  9. Paulo Cezar Battisti
    27 de janeiro de 2014

    Parabéns pelo Post, mas não tenho boas recordações deste Troféu …Fiquei em 4° lugar no 100 livre, portanto a ultima vaga no revezamento de Los Angeles, para minha surpresa nem fui cogitado…politicas da época…mesmo assim fiquei muito satisfeito com o resultado….Também nadei este 50 livre que o Cordani falou, Houveram 3 queimadas (na época podia) mas o Juiz Moacir, deu a 3° como falha do revolver (era festim ainda ) …rsrsrsrs…..Muito bom Relembrar….Não consegui ver o Resultado do 100 livre nem dos 50, se puderem me enviar os resultados da Aquática da época agradeço….Abçs

    • rcordani
      27 de janeiro de 2014

      Battisti, eu tenho esse reaultado na Aquatica em São Paulo, mas só terei acesso a elas em junho. Se eu conseguir antes, eu posto.

      Quanto aos 50L, tenho quase certeza que o MG fez esse tempo de 22:90 nas eliminatórias, e na final fez acima de 23.

    • Fernando Cunha Magalhães
      27 de janeiro de 2014

      Alô Battisti,
      muito legal você passar e deixar seu comentário por aqui.
      A falta a clareza nos critérios deixou marcas em muitos.
      Acredito que o reveza em Los Angeles tenha sido Cyro, Ronald, Jorge e Djan não é isso?!

      Quanto ao resultados, vacilo meu!
      Na época em que tive acesso ao acervo do Cordani olhei para os resultados apenas nos temas em que esperava escrever futuramente, sem perceber na época, que seria muito legal publicar os resultados completos.

      Que bom que o dono do acervo já se comprometeu a publicar quando retornar ao Brasil em junho.

  10. Sidney Nakahodo
    28 de janeiro de 2014

    Esmaga, muito boa a história da carta, tanto pela maturidade do garoto que a escreveu quanto à forma como seu técnico a recebeu. Existem poucas mais gratificantes do que poder apoiar alguém na realização dos seus sonhos, principalmente para um educador.

    Legal ver o pessoal de volta com os comentários!

    • Fernando Cunha Magalhães
      29 de janeiro de 2014

      Concordo Sidney, um grande prazer fazer diferença na vida de uma pessoa.

  11. Fabiano Chede
    28 de janeiro de 2014

    Bacana saber o que inspirava o destemido Fernando Esmagalhães nesta época. No exemplo de conquistas espetaculares, nascia a determinação no moleque tímido de 14 anos. Aqui do alto de dezenas de anos passados…mais legal que todas as conquistas que ficaram lá atrás, são os atualíssimos exemplos de superação. Forrrte abraço!

    • Fernando Cunha Magalhães
      29 de janeiro de 2014

      É Fabiano, os desafios não param!
      Quando não é um, são três ou mais leões por dia para matar.

  12. Iara Scarpelli
    28 de janeiro de 2014

    Adorei o post e para minha surpresa …lembrei que nadei os 50 livre nesta competição . Foi meu primeiro Troféu Brasil , fui com minha família , e foi emocionante
    O mais legal foi ter nadado na mesma série que a Priscila Grocoske , que na época era uma das melhores .
    Depois desta competição , lógico que meu sonho era competir numa Olimpíada!
    Tive o prazer de treinar com o Léo depois de mais velha ( master ) , o que tenho a dizer é que ele acertou em cheio comigo , nadei um sulamericano em 1995 , depois de 5 anos parada e 2 filhos , e foi excelente , um super profissional!

    • Fernando Cunha Magalhães
      29 de janeiro de 2014

      Legal Iara, minha estreia foi só dois anos depois.
      E a lista dos que nadaram muito sob orientação do Léo é bem extensa.
      De fato, muita competência.

  13. Pingback: .: Rogério Romero :.

  14. Lelo Menezes
    2 de fevereiro de 2014

    Sensacional o post Esmaga. Engracado que esse foi o primeiro Trofeu Brasil que eu assisti. Me lembro bem da prova do Goldstein nos 50m. Excelente post pra comecar 2014 com o pe direito.

    • Fernando Cunha Magalhães
      3 de fevereiro de 2014

      Legal Lelo,
      eu só assisti e participei 2 anos depois, mas também vi Goldenstein triunfar, e um gigante polaco mineiro chegando em segundo.

  15. Márcia Resende
    3 de fevereiro de 2014

    Era 02 de fevereiro de 1984. Estávamos no Rio de Janeiro há quase 10 dias, fomos acompanhando a equipe juvenil que competiu no Campeonato Julio de Lamare, disputado na semana anterior. A ida de nós três (Gláucia, Newton e eu) tão antecipada para o Troféu Brasil foi duramente conquistada pelo Léo (Leonardo Del Vescovo) e coordenação técnica, pois não havia justificativa para um gasto tão grande para três atletas.
    Na eliminatória dos 200m peito, havia feito o terceiro tempo, recorde estadual (2’51), que para mim já era uma conquista. Quando encontrei o Léo, ele me cumprimentou incentivando pelo excelente resultado, mas seu tom de voz, seu olhar me demonstrava que eu podia mais, era só acreditar.
    À tarde, enquanto aguardava pela minha prova na final, vi e torci pela Gláucia, que conquistava o bronze na prova de 200m costas. O costas masculino nadou, ela foi para a premiação e chegou a minha vez.
    Na raia 4, ao meu lado estava Maria Mata, imponente, detentora do recorde brasileiro (2’41), e ao meu ver, naquele momento ao lado da raia para a saída, imbatível.
    Fiz uma saída razoável, não era meu forte e quando começamos a nadar, para minha surpresa, estava fácil acompanhá-la. Eu tentava não perdê-la, nadei os primeiros 100m grudada, braçada a braçada. Na filipina, não a enxerguei mais, não estava ao meu lado, nem à frente. “Ela ficou, Maria Cara Mata ficou”, eu pensei. E neste momento, uma sensação muito forte tomou todo o meu corpo “Ela não me pega mais”, foi o pensamento seguinte naqueles milésimos de segundo entre uma braçada e outra. E nadei, forte, firme, braçada, respiração, pernada. Na virada dos 150, só pensava na última piscina a vencer. Estava somente contra mim mesma e aumentei o ritmo. Cheguei e virei para o placar. Só quem já nadou na piscina do Julio de Lamare vai entender o que senti naquele momento: Raia 3 – Resende, M – 1º lugar – 2’46”69. Ainda, sem acreditar, foram aparecendo o tempo, colocação das outras nadadoras. Minhas parciais: 39” – 42” – 43” – 42”.
    Virei para a arquibancada que estava quieta, provavelmente não acreditando que uma zebra ganhou a prova. Bem no meio desta, estavam as duas únicas pessoas que vibravam pelo feito, as que realmente interessavam. Léo, com os dois braços levantados em forma de V, punhos cerrados, vibrando e Marisa Cremer, nossa acompanhante, confidente, mãe nos momentos certos, que aplaudia e pulava feliz. O Newton nadou logo depois, não lembro a colocação dele, mas torci e gritei muito para ele enquanto esperava para ir ao podium. Na premiação, a consagração (desculpe Maga, mas ainda não achei a foto).
    No dia seguinte na prova dos 200m medley a Gláucia chegou em 8º na final e o Newton em 5º, a qual também competia nada mais, nada menos, Ricardo Prado. Terceiro dia, descanso para todos. Domingo, Gláucia ganhou os 100m costas, recorde paranaense. Eu fiquei em terceiro nos 100m peito, onde Dirce Sakai arrasou conquistando a primeira colocação e o Newton conquistou sua merecida e não menos importante medalha de bronze nesta mesma prova, fechando com chave de ouro nossa participação no campeonato.
    No retorno, fomos homenageados pelo clube, através do Diretor de Esportes, Rubens Tempski. Gastamos demais? Naquele momento todos tiveram certeza que foi um investimento muito bem aplicado. A verdade é que o fato de ter treinado todos aqueles dias na piscina da competição fez toda a diferença em nossa performance.
    Devido aos meus resultados, veio a Seleção Brasileira: nadei a Copa Latina e também o Sulamericano.
    Houveram ainda muitos outros campeonatos e outras conquistas, mas esta foi a mais importante, abriu portas, foi um divisor de águas. Deixei de ser apenas mais uma nadadora para ser A Nadadora. Posso falar com toda a certeza, que o único evento que supera essa prova tão viva em minha mente foi o nascimento da minha filha. Esse, indescritível.
    Hoje, após 30 anos, digo que além de força de vontade e muito treino, tive sorte: de ter um dos melhores técnicos do país, além de ser um grande amigo e uma pessoa maravilhosa. De ter pessoas como a Marisa, sempre tão companheira, tão presente, vibrante em nossas conquistas e o ombro amigo em nossas derrapadas. Amigos que sempre incentivaram e me fortaleceram. Minha família, sempre ao meu lado em todos os momentos da minha vida. E como não podia deixar de mencionar, nossa grande família postiça, formada pelos nadadores, técnicos, familiares da valorosa Equipe de Natação do Clube Curitibano, sempre juntos, na alegria e na tristeza, fazendo do nosso esporte, de nossas conquistas uma opção de vida.

    • Fernando Cunha Magalhães
      3 de fevereiro de 2014

      Ô Márcia, que lindo seu relato.
      Não sei se ele aconteceria naturalmente ou se foi motivado pelo meu post.
      Enquanto escrevia, nem me dei conta da proximidade da celebração dos 30 anos.
      Foi mera coincidência… mas que boa coincidência!
      Sinto-me orgulhoso e agradecido por seu depoimento ter sido registrado aqui nos comentários do blog.
      Muito obrigado e parabéns pela conquista, pela dedicação, pela humildade e por reconhecer todos que foram importantes nessa trajetória.
      Salve a valorosa Equipe de Natação do Clube Curitibano!

    • rcordani
      4 de fevereiro de 2014

      Muito legal o depoimento, Marcia. Uma boa forma de comemorar os 30 anos!

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